segunda-feira, 17 de abril de 2017

Arrumando as prateleiras...



Boa tarde!

Quanto tempo, gente!

Vira e mexe passo por aqui, até me dá vontade de escrever, mas acabo desistindo...

Por que, Poly? Por que você não escreve mais como antes?

Bom, primeiro que, quando vejo as postagens registradas no Blog e em cada página do livro, observo que não tenho mais nada a acrescentar, e se eu continuasse escrevendo diariamente, me tornaria extremamente repetitiva...

“Amor próprio”, “cuidar de si mesmo(a)”, “desligamento emocional”, “dependência química é doença”, “ele(a) só vai parar de usar quando decidir isso”, “não perca a fé mas não se encha de expectativas”, “você não pode curar a dependência química do outro”, “você não é causador da recaída do outro”, “nada do que você faça (ou deixe de fazer) impedirá o outro de usar drogas se essa for a vontade dele(a)”, “procure ajuda para você primeiro (grupo de apoio, terapia, etc)”, “se a família não se cuidar ela acaba enlouquecendo”, “você é responsável por suas escolhas”, “não deixe sua vida de lado”, “não deixe sua vida para depois”, “livre-se da culpa”, “coloque o foco em você”, “confie em Deus”, “seja feliz”!

Se viver com um dependente químico fosse uma receita de bolo, esses seriam os ingredientes...

Fácil? Não!
Possível? Sim!

Mas, na verdade, o motivo maior pelo qual não escrevo mais nem é esse que citei acima...

Quando comecei esse blog há seis anos atrás (18/05/2011), eu tinha liberdade para falar dos meus sentimentos, pensamentos, conflitos, dores, superação... Aqui era o “meu cantinho”... O único lugar onde eu tirava minhas máscaras e armas, e mostrava sem reservas o que tinha dentro de mim... E como isso me fazia bem!!

Usando um pseudônimo para não expor minha família, aqui me sentia segura...

O tempo passou... O blog cresceu... Quase 705.000 visitas até hoje!! E nesse crescimento, além das famílias em busca de informação e ajuda, vieram também os curiosos, os fofoqueiros, os maledicentes...

Pessoas que não se importam comigo, mas que me conhecem na vida real, começaram a visitar o blog com frequência, como se isso aqui fosse uma novela para assistir e comentar numa roda de amigas...

Além disso, meu familiar dependente químico, que nunca tinha se interessado pela leitura deste espaço, começou a fiscalizar minhas postagens e a censurá-las...

E foi assim que perdi o “meu cantinho”...

Vir aqui para falar de “clichês” ou do que não estou sentindo não faz sentido pra mim, e por isso as postagens estão mais escassas...

Mas vamo que vamo... Vou falar pra vocês um pouco do que tenho vivido...

Há algum tempo eu já havia mencionado aqui que meu filho caçula estava com suspeita de autismo. No final do ano passado o levamos a duas especialistas, e as duas confirmaram a presença de características do TEA – Transtorno do Espectro Autista nele. Embora o diagnóstico não esteja fechado, após a minha fase de negação, consigo ver que meu filho realmente apresenta diferenças em seu comportamento. Ele é lindo, inteligente, mas com algumas peculiaridades. O TEA dele é leve, antes conhecido como Síndrome de Ásperger...

Primeiro eu não queria aceitar. Ele interage com as pessoas, é inteligente, como pode ser autista? Só depois, conhecendo outras mães, várias histórias e com muita leitura, fui entendendo que o autismo é um espectro com vários níveis. Nenhum autista é igual a outro. Então pensar que autista é somente aquele garotinho que tapa os ouvidos e se balança, é um pensamento estereotipado e longe da realidade.

Meu filho tem atraso na fala, sofre quando mudamos sua rotina, sua alimentação é seletiva, e ele tem manias e obsessão por alguns assuntos específicos. Seus pensamentos são concretos e ele tem dificuldade em entender alguns comandos... Graças a Deus, já iniciamos o tratamento, os estímulos (quanto antes, melhor), e ele tem se desenvolvido muito bem!

Muitas pessoas, quando ficam sabendo, na tentativa de me “consolar”, relatam a história do jogador Lionel Messi, considerado melhor do mundo pela FIFA, e que tem autismo leve.

Eles são os melhores nos seus assuntos de interesse, o difícil é fazê-los se interessar pelos demais assuntos, e sobretudo, fazer a sociedade entender e respeitar suas diferenças...

Bom, queridas(os), estou nessa nova batalha! E nesse contexto, não tem sobrado tempo para viver pensando em dependência química, sabe?

Segundo os especialistas, há uma grande chance do pai do meu filhote também ser Ásperger... Mas isso são apenas especulações... O que explicaria muita coisa em seu comportamento...

E por falar nele, sei que querem saber como ele está, não é mesmo?

Bom, ele ficou seis meses limpo, e infelizmente, recaiu.

Eu pensei que, ao saber que ele tem uma criança que depende de sua proteção e cuidado, mais do que outras crianças “normais”, ele ficaria bem longe das drogas...

Eu pensei que, ao ser escolhido pelos formandos de medicina de uma universidade, para ser o colaborador homenageado, ele nem pensaria em recair...

Eu pensei que, o fato de ter que pegar as crianças na escola, o impediria de reiniciar o ciclo...

Eu pensei que ele acompanhando o meu tratamento contra uma depressão (sim, estou doente), ele se manteria firme...

Mas, quem disse que dependência química e recaídas seguem alguma lógica, não é mesmo?!

Recaiu.

Mas ele está bem. Foi um lapso. Reergueu-se e está seguindo adiante.

Quanto a mim, fiquei triste por saber dos danos que a recaída traz em todos os aspectos, no entanto, não pronunciei nenhuma palavra, e não deixei de cumprir nenhuma das minhas atividades...

Eu não sou mais a mesma, definitivamente.

Estou prestes a completar 39 anos de idade, dos quais 27 são convivendo com adictos...

A gente aprende... Ô se aprende!

Não deixou de doer, mas sei lá, parece que ando anestesiada agora...




No trabalho, continuo na missão de levar informação, apoio, abraço e orientação às famílias de dependentes químicos de Brasília. E isso tem me feito bem! Me dá a sensação de que toda a dor vivida valeu pra alguma coisa, entendem?

E quando é dia de faxina, eu organizo meus sentimentos (ao menos tento), e coloco as dores nas prateleiras mais altas, para facilitar o esquecimento e dificultar o acesso... E coloco diante dos olhos, os motivos que tenho para agradecer...

E assim vou vivendo, um dia de cada vez!