segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Essa dor é apenas um pedaço do que somos...



Boa tarde!

É interessante como o olhar de quem está do “lado de cá” é diferente daquele de quem está “do lado de lá”, né?

Explico:

É mais fácil encontrarmos respostas, soluções, regras, julgamentos para situações que não conhecemos na pele. Aquelas que conhecemos apenas pela teoria, pelas postagens nas redes, pelo que estudamos na escola, pelo que lemos no Google, pelas fofocas ou coisas assim.

Eu sempre tive um jeito diferente de olhar para os dependentes químicos, afinal, nasci de um. Cresci com ele... Minha família tem muitos adictos. E vejo o quanto a sociedade sabe tão pouco sobre eles...

Nos últimos anos, tenho trabalhado diretamente com famílias de dependentes químicos e também com a prevenção do uso de drogas, e continuo vendo por aí o quanto essa gente “do lado de lá” não sabe nada sobre o assunto.

"Ele está nessa porque quer. Ninguém o obrigou a usar drogas.”

Você acha mesmo que alguém “quer” ser escravo das drogas? Que alguém “escolhe” destruir sua vida para viver refém de uma substância?

Não. Ninguém quer isso.

O que temos, e o que tínhamos quando os dependentes de hoje eram mais novos, é um bando de adolescentes curiosos, inconsequentes, que acham que “não vai dar em nada”, que pensam que as coisas só dão errado para os outros...

O que temos é um monte de jovens querendo curtir sem ter noção do risco que estão correndo...

São praticamente crianças...

Até hoje não se sabe ao certo porque uns se tornam dependentes, e outros não, mas o fato é que ao experimentar uma droga, você está brincando de roleta russa...

Sabemos que ter uma família bem estruturada, ser uma pessoa bem resolvida, com boa auto-estima e ter uma base religiosa são fatores que ajudam esses jovens a não adoecerem ao usar drogas (lembrando que álcool também é droga!). Mas, ainda assim, não dá pra saber. Não dá pra fazer um exame de sangue e dizer quem será um adicto e quem não será.

O fato é que é uma doença. Um milhão de pessoas bebeu quando quis e parou quando quis. Mas, muita muita gente, não conseguiu parar, e não consegue parar até hoje. Não que essa gente não queira. Não que sejam fracos. Não é uma questão moral. É uma doença. E o fato de você não ter essa doença não te dá o direito de julgar quem a tem.

Dica: Assista o  filme “O Vôo” ou o filme “Quando um homem ama uma mulher”. São lindos! E nos mostram um pouco do que é estar adoecido por substâncias químicas.

No entanto, é claro que os dependentes químicos não são coitadinhos. Não mesmo! Eles são responsáveis por buscarem tratamento e ajuda. E muitos têm conseguindo se manter bem, um dia cada vez!

Mas, desabafo feito, vamos falar um pouco de nós, familiares?

Eu sempre leio os e-mails que vocês enviam. Leio os comentários. Mas, ultimamente não tenho respondido. Primeiro, por falta de tempo mesmo. E segundo, porque não tenho as respostas...

Nos últimos cinco anos, registrei tudo o que considerava mais importante no Blog e no livro Amando um Dependente Químico, e se lerem com carinho, talvez os registros lhes ajudem a encontrar seu próprio caminho, como tenho encontrado o meu.

Mas a minha opinião, as minhas escolhas, o meu ponto de vista, não necessariamente se encaixarão em você, em sua vida. Portanto, pareço um papagaio repetindo: “procure ajuda”, “vá a um grupo de apoio”, “leia livros sobre codependência”, “se ame, se cuide”, porque sei que esses caminhos ajudarão você a se fortalecer para retomar a direção da sua vida, não como um carona ou como uma vítima, mas como um condutor, alguém que sabe para onde quer ir, independente das situações externas contrárias.

Quanto a mim, por onde ando?

Sigo aqui, com minha vida, tentando passar adiante a ajuda que um dia foi dada a mim...

No sábado, 05/11, o programa “Ame, mas não sofra” da Secretaria de Justiça e Cidadania do DF, de apoio às famílias de dependentes químicos, completou três anos! Nesse tempo, alcançamos 3.376 famílias! E isso me deixa bem feliz... Realizada!

Roda de terapia comunitária, em uma das ações do programa "Ame, mas não sofra"
Foto de 30/10/16.

Em casa, passamos por uns “perrengues” mas, o trem voltou para o trilho, graças a Deus! 

Não me importo com as estatísticas que dizem que apenas 3% dos dependentes químicos conseguem se manter abstinentes durante um ano. Eu sei que se ele de fato quiser, ele poderá estar novamente nesses 3% e superar essa marca...

No entanto, hoje espero com o verbo “esperançar” e não mais com o verbo “esperar”...  

Daí, mesmo que a dor venha, ela não me paralisa mais, e isso só é possível hoje, porque um dia, lá atrás, eu busquei ajuda, e ainda hoje continuo buscando, afinal, eu nunca afirmei aqui que é fácil, mas apenas que é possível...




Nosso familiar adicto está em uma montanha russa... Sobe, desce, sobe, desce... E nós, na ânsia de segurá-lo, muitas vezes nos agarramos no carrinho. 

Ter-nos agarrados ao carrinho não faz com que ele saia desse ciclo. E por outro lado, ainda nos machuca, nos esfola, nos faz sangrar...

Soltar o carrinho também dói. Dói porque nos faz enxergar nossa impotência diante desse problema. Faz-nos perceber que ele só vai sair do ciclo quando ele decidir isso. Que ele só vai parar de descer e subir quando ele realmente quiser. E que isso não está atrelado ao que você ou eu façamos...

O que é soltar o carrinho?

É deixá-lo arcar com as consequências do seu uso de drogas para que, quem sabe, um dia ele acorde, e queira ser ajudado. É seguir com a sua própria vida, retomar os seus sonhos, e trabalhar por eles...

Sim, nós podemos comer um algodão doce no parque, enquanto ele está na montanha russa. Isso não é egoísmo, mas sim, amor próprio. E ser feliz certamente nos faz mais fortes e mais aptos para ajudar quem está do nosso lado, adoecido pelas drogas.


Dói? Dói! Mas essa dor não precisa ser o centro da nossa vida. Não precisa ser o resumo da nossa vida. Ela é apenas um pedaço do que somos, mas certamente somos muito muito mais!

Quer dizer que devo abandonar meu familiar dependente químico?

Não. Estou dizendo apenas para você tirá-lo dos ombros, e leva-lo somente no coração...



Fiquem com Deus!