sexta-feira, 25 de julho de 2014

Amar um adicto: uma questão de entrega ou de renúncia?



Bom dia!

Tudo bem com vocês?

Ontem eu estava pensando sobre amor, renúncia e entrega, e decidi escrever sobre isso, pois é um assunto que, muitas vezes, nos causa confusão.

Alguns me parabenizam pelo amor que tenho por minha família, e em especial, pelo meu esposo. E, em geral, as pessoas pensam que esse amor que sinto requer muita entrega.

E elas estão parcialmente certas.

Qualquer amor requer entrega. Mas, no caso específico do adicto, requer de nós uma entrega no sentido de nos esforçarmos para compreender o processo que o nosso familiar vive, sentirmos compaixão (e não pena) do outro, e assumirmos o papel que nos cabe para ajuda-lo (apenas ajuda-lo) em sua recuperação.

Requer entrega para que o amemos (e o aceitemos) do jeito que ele é, e para que consigamos enxergar que ele é um ser humano assim como nós, com qualidades e defeitos, ou seja, não somos melhores nem superiores a ele.

Sim, requer entrega.

Mas, em minha opinião, requer muito mais renúncia.

Por que renúncia?

Porque nós, familiares de adictos, temos uma tendência a querer fazer tudo por eles, e isso não ajuda no processo de recuperação, ao contrário, atrapalha.

Então precisamos renunciar o nosso posto de donos e controladores da vida alheia.

Precisamos renunciar o desejo de salvar o outro a qualquer custo, ainda que isso pareça ser algo bom, não é.

Precisamos renunciar a vontade de livrar o nosso familiar adicto das enrascadas em que ele se mete, ou seja, de agirmos como “escudo”, protegendo-o sempre.

Muitas vezes precisamos renunciar o “sim”.

Ou seja, são muitas renúncias...

Sim, amar um dependente químico é ter força e serenidade para dar um abraço e dizer: “não desista de você” no momento em que ele mais precisa.

Mas, também é ter força para se afastar ou silenciar, quando necessário.

Caramba, não é fácil, né? Devia existir um manual de como amar um adicto do jeito certo. Risos...

Mas, não existe. Na verdade, nem existe jeito certo ou jeito errado.

Entretanto, acredito que quando temos fé em Deus, e enchemos o nosso coração de amor, e buscamos ajuda com quem entende sobre a doença da dependência química e sobre a dor da família que convive com isso, temos muitas chances de aprender, no dia a dia, a diferenciar o que é amor e o que é codependência, e a hora de se entregar e a hora de renunciar.

Para que não amemos de uma forma cruel o nosso familiar dependente químico, precisamos descer do pedestal, e ver que somos iguais a ele, embora nossas dificuldades sejam outras, e não as drogas.

E para que o amemos de uma forma saudável, basta dosar o amor ao próximo com a mesma medida de amor próprio.

Força, fé e esperança, queridas(os)!

Fiquem com Deus!

Beijo no ♥!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

De tudo um pouco!



Boa tardeee!

Quanto tempo!!

Saudades desse cantinho...

Nem sei por onde começar, tenho tanta coisa pra falar!

Bom, está tudo em ordem por aqui.

Estamos às vésperas do 5º Curso de Multiplicadores de Ações de Apoio às Famílias, daí vocês imaginam a correria e ansiedade, né? O curso começará na segunda, dia 28/07, e prometo que tentarei extrair o máximo de informações possíveis para dividir com vocês.

Olhem só que bacana: na segunda, após a cerimônia de abertura, eu darei a primeira palestra do curso, sobre “A codependência em familiares de dependentes químicos”, e na sequência, haverá o depoimento de um adicto em recuperação.

Na terça, uma Psicóloga falará sobre “A família como fator de proteção”, e na sequência, ouviremos um Juiz falando sobre “Internação Compulsória e Involuntária”.

Na quarta, um Psicólogo nos mostrará “O panorama da codependência”, e depois, um Psiquiatra abordará sobre o tema Dependência Química.

Na quinta, o grupo Nar-anon dará início às atividades, na sequência ouviremos uma Assistente Social e Terapeuta Familiar, e uma Psicóloga falando sobre o CAPS AD. E, pra fechar, ouviremos o Grupo Amor-Exigente.

E, na sexta, um Promotor de Justiça falará sobre “Os aspectos legais do tráfico e uso de drogas”, e encerrando, o Subsecretário de Políticas sobre Drogas e Psiquiatra Especialista em Dependência Química fará uma reflexão acerca das Políticas Públicas sobre drogas.

Estamos preparando tudo com muito carinho, haverá lanchinho (coffee-break) todos os dias, e já estou perdendo o sono desde já, de tanta ansiedade.

Peço a Deus que leve muitas famílias que estejam necessitando de informação e apoio, e também muitos profissionais que desejem atuar auxiliando essas famílias!

Quem for de Brasília, pode se inscrever até amanhã pelo link http://multiplicadores.vai.la .




E mudando de assunto, ontem foi um dia muito especial para mim! Estive no Nar-Anon, em uma reunião aberta, para fazer uma palestra (partilha). Foi tão gostoso poder estar ali naquela sala onde a sementinha da mudança foi plantada em mim, há mais de quatro anos! Minha filhota foi minha companhia.

Rever aqueles rostinhos amigáveis, receber aqueles sorrisos, os abraços calorosos...

Alguns ali já cuidaram do meu filhote (do meio), quando ele era um bebezinho de colo, para que eu pudesse assistir as reuniões.

Minha madrinha estava lá!! Há uns três anos não a via... Quanta felicidade em revê-la e poder agradecê-la, bem como a tantos outros.

Tive também a oportunidade de conhecer pessoalmente algumas leitoras do blog, que me receberam com tanto carinho!

Eu havia me programado para sair de lá às 21hs, mas acabei ficando até as 23hs!!

Foi lindo demais! Sou grata demais a esse grupo!


Bom, falando um pouquinho da família aqui, graças a Deus, está tudo em paz. Maridão continua limpo, trabalhando, seguindo sua vida normalmente, e esperando ansioso por sua nomeação em um concurso público, que está pertinho de chamá-lo.

Ele tem seus altos e baixos, e eu aprendi a respeitar os seus momentos, e sobretudo, tento não embarcar com ele em suas emoções. Algumas vezes consigo, e em outras não... Mas, cada dia é um novo aprendizado e uma nova oportunidade de crescer. E acredito que, aos poucos, estou crescendo.

Temos um novo “filhinho” em casa! Nosso Guto! Adotamos um gatinho lindo, e a experiência de ter um bichinho em casa, com as crianças, está sendo ótima! Todo mundo paparicando o gatinho! Ele só precisa tomar cuidado com o nosso caçulinha que se parece demais com a Felícia, do desenho do Pink e Cérebro. Risos.

Por falar em filhos, vejam isso:




Antes de ontem, cheguei em casa, após um dia árduo de trabalho, ocupada com meu filhote de 2 anos que chorava cansadinho, e percebi que o meu filho do meio, de 5 anos, estava na cozinha preparando um lanchinho.

“Uai, filho, você não jantou na creche? Que fome é essa?” Perguntei.

E ele permaneceu caladinho.

Preparou duas fatias de pão integral com margarina e geleia de goiaba, colocou na sanduicheira (isso mesmo!), daí o ajudei apenas a retirar, pois ele não queria que eu o ajudasse. Colocou uns biscoitos trakinas no prato, preparou um leite com Nescau (derramou um pouco de leite na pia), e por fim, colocou um morango sobre o pão. 

Então, com o pratinho na mão, se aproximou de mim, e disse: “É pra você, mamãe...”

Não bastasse isso, ainda colocou uma medalha que ele tinha, no meu pescoço.

“Essa medalha é por você ser a melhor mãe do mundo.”

Não aguentei, né? Foi impossível não me emocionar.

As crianças nos ensinam tanto, não é mesmo?

Elas são inocentes, sem maldade no coração, são sinceras, transparentes...

Elas não se preocupam com o amanhã, e não guardam mágoas do ontem... Elas vivem o hoje, e só.

Seus abraços são sinceros...

Já perceberam a capacidade de amar que elas têm? Para elas não importa o seu cargo, ou o seu salário, e muito menos se você é um dependente químico ou não, ou um codependente ou não... Elas amam, sem porquês e sem condições... Elas simplesmente amam e pronto!

Elas podem nos ensinar muito...

E é isso, gente.

Ao olhar para essa postagem tão cheia de coisas boas acontecendo, só posso mesmo agradecer a Deus por estar me proporcionando viver tudo isso, e por poder levar adiante a ajuda que um dia chegou até mim, quando mais precisei.

Valeu a pena (e continua valendo), cada dia que acordei e disse: “Só por hoje, vou cuidar de mim”, “só por hoje, não vou me entregar à dor”, “só por hoje, vou acreditar em dias melhores...”

Como disse ontem na palestra, ainda que não houvesse blog, nem livros, nem projeto, nem curso, eu ainda teria muito a agradecer, pois a maior mudança acontece todos os dias por dentro...

Voltar a ser apenas um ser humano normal (e não uma heroína frustrada), e adquirir a capacidade de enxergar o meu familiar adicto também como um ser humano igual a mim, foi um dos meus maiores aprendizados, e um grande passo para me sentir mais livre e mais leve.

E me sentindo assim, pude voltar, aos poucos, a ocupar o meu próprio espaço como mulher, mãe, profissional... ou seja, simplesmente como a Polyanna... Nem mais, nem menos. E isso me faz tão bem!

Para reflexão: "Tenha coragem para as grandes tristezas da vida e paciência para as pequenas; e quando você tiver executado arduamente suas tarefas diárias, vá dormir em paz. Deus está acordado." (Victor Hugo)

Grande beijo no coração de vocês!

Poly.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

É... Eu mudei.

Torcendo pelo Brasil!


Boa tarde!

Tudo bem com vocês?

Comigo tudo bem.

Família. Trabalho. Passeios eventualmente.

Acordar. Cuidar de filhos. Pagar contas. Sonhar. Planejar. Realizar... Torcer pelo Brasil!

Enfim, estou vivendo dias “normais”.

Meu esposo segue limpo, e aproveito bem esses momentos de paz, e claro, torço para que durem bastante, de preferência, para sempre. Né?!

Por outro lado, meus pezinhos estão bem no chão, consciente de como é instável essa doença.

Mas, olhando para mim, vejo que desde o primeiro dia em que escrevi aqui nesse Blog, até hoje, cresci bastante, e continuo crescendo, continuo aprendendo, a cada dia.

Eu achava que a minha vida e o mundo giravam em torno do fato de ter um familiar dependente químico e da dor que isso gerava. Hoje encaro tudo isso com outros olhos.

Sim, a dependência química é uma doença muito dolorosa que afeta não só o adicto, mas todas as pessoas que o amam.

Entretanto, quando passamos a viver em função do medo de que nosso familiar recaia, ou da dor por ele estar em uso constante da droga, parece que nos perdemos em meio a um ciclo doentio e doloroso que vai nos afastando cada vez mais da “vida normal” e de nós mesmos.

Prefiro ter fé e ocupar minha mente com coisas boas e proveitosas.

Hoje não acho que estou sempre certa, e meu esposo e/ou os outros, errados; não acho a vida injusta; não acho que ele nem ninguém seja culpado da minha infelicidade ou responsável pela minha felicidade; e não acho que o fato de conviver com um adicto seja justificativa para fechar os olhos para os meus próprios defeitos, grandes ou pequenos.

Aprendi a dizer não. Aprendi a respeitar o meu querer. Aprendi a me olhar mais e a me ouvir. E a amar sem subornos ou manipulações.

Talvez minha vida não tenha mudado. Continuo sendo uma filha e esposa de adictos. Meu marido ainda não logrou muitos anos limpo.

Entretanto, ainda que a minha vida não tenha mudado, eu mudei de atitude em relação a ela.

E isso muda tudo.

Deixei de ser uma vítima, cabisbaixa, deprimida, manipulada pela adicção do outro, sem vida própria, cheia de autopiedade, e tomei uma atitude mais pró-ativa diante de tudo.

Sinto-me mais autoconfiante. Aprendi a me amar e a me preocupar comigo mesma, sem achar que isso é egoísmo. Não sinto pena de mim mesma.

Hoje encaro os meus problemas de pé, e não mais rastejando.

Claro que ainda dói. Posso chorar às vezes. Posso me sentir entristecida em algumas manhãs. Mas essa dor sempre é passageira.

Posso afirmar que os sorrisos são bem mais frequentes por aqui...

Estou gostando desse jeito de vida.

Sinto-me mais leve, mais bonita e mais feliz.