segunda-feira, 28 de abril de 2014

Liberte-se!



Boa tarde, queridas(os)!

Finalmente, após 15 dias em casa, cuidando de mim, das crianças e do maridão, adoecidos por uma virose que trazia gripe e conjuntivite forte, estou de volta ao trabalho.

Daí, aproveitei o horário do almoço para vir aqui...

Tudo bem com vocês?

Analisando a minha história de alguns anos atrás, e as histórias que acompanho, estava pensando: “por que, nós familiares de dependentes químicos, sofremos tanto?”

Sofremos porque tentamos controlar coisas e pessoas que não somos capazes de controlar, e nessa tentativa, perdemos o controle sobre nós mesmos e sobre nossas vidas.

Não podemos controlar a dependência química de quem amamos. E também não podemos controlar a vida de quem amamos.

Mas, é difícil entender isso, e aceitar isso. Queremos livrar o nosso familiar do vício a qualquer custo.

Tentamos, tentamos, tentamos... E nos frustramos, cada vez mais.

As mães tentam impedir que os filhos usem drogas. Tentam muda-los. Fazê-los “normais”. E nessa ânsia por controlar o externo, passam a ser dominadas pelo pensamento de que “essa é a minha missão, é o meu papel, preciso salvar meu filho”. E ver essa “missão” indo por água abaixo é tão doloroso.

As esposas enlouquecem tentando mudar seus maridos. Afastá-los das drogas. Mudar seus defeitos. Já fiz muito isso. Até que um dia percebi que não era eu quem estava controlando o meu marido e a sua adicção, mas era a sua adicção quem estava controlando, não somente a ele, mas também a mim.

A sua adicção me controlava sempre. Quando ele estava bem, eu me desesperava em ser a melhor, para que ele não tivesse novamente o desejo pela droga. Quando ele estava em abstinência, irritado ou deprimido, eu inventava mil e uma formas para que ele melhorasse, sem recorrer à droga. Quando ele estava na ativa, eu fazia buscas, faltava ao trabalho, esquecia meus filhos, esquecia de mim mesma na tentativa de fazê-lo voltar. Ele me controlava com suas manipulações, com suas chantagens, com seu sofrimento, com suas vitórias... Com tudo!

Era a sua adicção quem me dizia se eu deveria estar feliz, triste, ansiosa, com raiva, aflita, angustiada, alegre... Sempre ela no controle.

Era exaustivo. Doloroso.

Me cansei.

Em um e-mail que recebi na semana passada, havia a frase de uma mulher em desespero: “não sei como segurar a vontade dele”.

Realmente não há uma forma para segurarmos a vontade do outro.

A adicção faz com que eles tenham a falsa sensação de que a droga é tão necessária quanto o ar, a comida e a água, ou mais. Eles estão doentes. E para saírem desse quadro, precisam de tratamento.

A família não tem condições para tratar o adicto, pois não tem preparo emocional, nem conhecimento técnico. Portanto, famílias, procurem ajuda.

Que tal começar buscando ajuda para si mesmas. Procurem orientação e informação.

Liberte-se dessa ideia de que você é o responsável pelas escolhas do outro, ou de que você pode ter o controle sobre isso.

Não podemos!

Eu e você não podemos controlar o comportamento compulsivo de quem amamos.

Então o que podemos fazer?

Mais uma vez eu digo, podemos NOS cuidar.

Quando a família se cuida, ela se torna forte emocionalmente. Ela se torna inteira. Ela se livra da culpa. Ela não cede às manipulações. Ela deixa de ser um facilitador da adicção do outro. E então ela passa, efetivamente, a ajudar para que a recuperação do outro aconteça.

Sim, ver quem amamos em um caminho de destruição sempre nos causará dor, mas isso não nos controlará mais, nem nos impedirá de vivermos nossa própria vida.

Poly, como posso buscar ajuda para mim, vendo quem eu amo se destruindo?

Lembre-se: "Em caso de despressurização da cabine, máscaras cairão automaticamente à sua frente. Coloque primeiro a sua máscara, e só então auxilie quem estiver ao seu lado". 

Seria isso um ato egoísta? Certamente não!

Você não conseguirá ajudar ao outro estando sem oxigênio, desmaiada ou agonizando.

Coloque primeiro a sua máscara!

Quer que o outro se livre da compulsão pela droga? Então comece você se livrando da compulsão que tem por ele, ou outras compulsões.

Quer que o outro seja mais responsável? Então não assuma as responsabilidades dele, e lembre-se de arcar com as suas.

Quer que o outro seja feliz sem drogas? Então seja você feliz, hoje, mesmo sem ter tudo o que deseja.

Quer que o outro tenha disciplina? Seja disciplinado você.

Quer que o outro vá ao NA? Vá você ao Nar-Anon ou Amor Exigente.

Entenda que tudo isso você fará por si mesmo, e não pelo outro.

A relação com o outro é sempre algo que serve de suplemento em nossas vidas, mas nunca deve ser a causa das nossas ações.

Você ama um dependente químico?

Eu também.

E por mais romântica que eu seja, precisei aprender que isso vai além de sonhos e poesias. Quem ama um dependente químico precisa agir. Precisa se cuidar para não adoecer. Precisa estar bem consigo mesmo. Caso contrário, será difícil aguentar. E será quase impossível o outro encontrar um ambiente favorável ao seu despertar para a recuperação.

Amo o meu familiar adicto (muito muito!). Estou aqui, ao seu lado. Acredito na sua recuperação. Luto para ajuda-lo no que me cabe. Mas, minha vida não se resume a isso.

Uma mudança de foco, muda tudo!

Hoje sou livre... Livre, inclusive, para continuar ao lado de quem amo.




Um grande beijo.

Poly

6 comentários:

  1. Disse tudo Poly, como sempre! Por mais que a gente já saiba disso, é sempre importante ouvir de novo, e de novo! Obrigada!

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  2. Bom dia.. Comecei a acompanhar o seu blog e estou gostando bastante. É bom ver que não estou sozinha, que outras pessoas passam por isso e que não é um beco sem saída.
    Hoje é aniversário do meu namorado, e ele deu entrada em uma comunidade terapêutica. Sentirei saudades, mais de um mês sem vê-lo não vai ser bom, mas no fundo estou aliviada e em paz, pois sei que lá ele estará seguro, longe de drogas. Semana que vem irei à psicologa, e vou seguir o que você propõe no texto: Me cuidar! Vou me cuidar, deixar essa angústia, esse tempo ruim pra trás.
    Tem uma frase que eu gosto muito que diz assim:
    Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.

    Tudo se fez novo, vou viver um dia de cada vez, vou tratar essa minha ansiedade, vou orar muito pelo meu querido e apoia-lo, mas não posso ficar doente também. Isso só pioraria as coisas. Adicção é como qualquer outra doença, e como qualquer outro problema. Todos temos problemas. Deve-se encarar isso dessa forma, e não pensando que é um túnel sem luz, muitas vezes pensei assim, mas estou mudando meus pensamentos.

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  3. Meu Deus, como é difícil! Hoje o meu desafio é exatamente esse! Eu sempre gostei de controlar tudo e todos... sempre quis ter o controle da situação, sempre quis calcular tudo, exatamente tudo... e desde quando tudo começou entre nós, tive que ir aprendendo entre muitas lágrimas, que a ele eu não conseguiria controlar, e não poderia fazer isso... aprender a viver e deixar viver é tão difícil gente! Hoje está doendo muito, achei que já tinha conseguido amadurecer mais nisso, mas hoje vejo que não... ainda falta muito... obrigada Poly por suas sábias palavras, seu exemplo! É muito importante para mim... eu também amo o meu adicto, muito! Quero aprender a estar ao seu lado, acreditar em sua recuperação e lutar para ajudá-lo APENAS NO QUE ME CABE.. para que a minha vida não se resuma a isso... um dia a gente chega lá! Obrigada querida! Tamo junto, SÓ POR HOJE!

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  4. Poly, tenho me apoiado em seu blog á alguns dias...estou muito abalada mais a minha situação é muito mais complicada, difícil de expor aqui.... vi uma postagem sua e da Gaby em 11 ou 12/08/2011 que cita os pilares, poderia publicar novamente esses pilares? Estou procurando forças onde eu puder encontra-las.

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  5. estou acompanhando seu blog apenas á alguns dias ,e tenho encontrado muitas coisas que eu sabia mas não queria aceitar.Muitos companheiros de NA ja me sugeriram que eu busque ajuda inclusive uma companheira me orientou a fazer uma escrita para partilhar com ela ...mas tenho que confessar que me justifico muito.Li sua postagem logo após que vc publicou e escrevi um comentario cujo o qual nem postei,quando li antes de postar vi inumeras justificativas...do tipo não vou á grupo por causa dos filhos, trabalho e etc...Só justificativas no mesmo instante apaguei e fui procurar um grupo em minha cidade.Ainda assim me pego pensando em justificativas do tipo:é tarde... e as crianças??então percebo o quanto eu estou doente...e eu vou sabado as 17:30 espero realmente estar la não cair no meu auto engano que eu não preciso,de nada que eu sou perfeita ,que o problema é ele e não eu!Auto engano somente rssssagradeço á Deus por ter encontrado suas partilhas e suas palavras de incentivo...e vou realmente procurar ajuda preciso viver a minha vida e não a doença do meu marido!!!SPH bons momentos!!!!Fran

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  6. Nossa com é bom ler td isso me fortalece muito.passo por isso com meu filho,muito difícil viver assim só aqui encontro forças pra tocar a vida.....bjss

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