sexta-feira, 14 de março de 2014

Coração de luto. Esperança viva!



Sexta-feira, dia 14 de março de 2014.

Essa foi uma semana difícil para mim.

Como disse na ultima postagem, meu esposo recaiu na segunda-feira. E recaídas são sempre dolorosas.

E dessa vez, ao chegar em casa, ele estava sob as cobertas, com muita febre, tremendo. Nunca tinha visto ele assim. Senti medo.

Mas, graças a Deus, passou. No dia seguinte, ele foi para o trabalho. Por iniciativa própria procurou um médico, se consultou, e novamente está tentando se reerguer. Limpo há três dias.

Na segunda-feira, ao chegar na creche dos meus filhos, pela manhã, fui recebida pela “tia Jaine”, a coordenadora pedagógica da escola, como todos os dias. Sempre atenciosa, com um sorriso enorme no rosto, e prestativa, ela me ajudava com as mochilas, e sempre tinha alguma história para contar sobre os meninos.

A Jaine sempre foi o meu referencial na escolinha das crianças. Há três anos, quando meu filho do meio chegou na escolinha nova, em um período muito difícil em casa, em razão da ativa do meu esposo, me apeguei a ela. Contei-lhe o que estava passando, e pedi que desse uma atenção especial ao meu pequeno, e me comunicasse qualquer comportamento diferente.

Ela leu os meus dois livros. Sempre visitava o blog. Incentivava os meus projetos. Me abraçava quando eu precisava. Conversávamos e ríamos, a cada chegada e saída daquele portão da escola.

Quando eu estava atrasada, até tentava passar por ali meio escondidinha, porque quando ela me pegava de papo, quase não conseguia sair.

Em seu ultimo e-mail, ela me disse: Acabei de ler seu livro. Amei!! Você está de parabéns. O seu trabalho ajuda muitas pessoas. Esse é o propósito de Deus para você, que você ajude na recuperação de pessoas tão especiais...”

Mesmo sabendo da doença do meu esposo, ela sempre o tratou de forma muito respeitosa e carinhosa. E demonstrava muito amor por todos da minha família.

Sua ultima postagem no face foi um vídeo do meu caçulinha...

Na segunda, à noite, postei a seguinte mensagem na página do facebook, me referindo à recaída do meu marido:

"E ainda se vier noites traiçoeiras, se a cruz pesada for, Cristo estará comigo. O mundo pode até me fazer chorar, mas Deus me quer sorrindo... Essa dor vai passar... Ela sempre passa!.. Eu seguro a minha mão na sua e uno o meu coração ao seu, porque sozinha eu não conseguiria..."

Ela foi uma das primeiras a curtir, e pensei: “Amanhã converso com você, tia Jaine...”

Ninguém poderia imaginar que poucas horas depois, ela faleceria. Nem pude me despedir...

Foi uma grande perda.

Foi uma morte repentina demais. Infarto. Inacreditável. Ela tinha 47 anos, e era uma carioca super alto astral, e uma educadora inigualável.

As atividades da escolinha ficaram suspensas por dois dias, retornando hoje. E meu filho de 5 anos, ficou sentadinho no chão, no cantinho, abraçado aos joelhinhos... Me deu um aperto no peito. O abracei. Sem dúvida, ela faz muita falta!!!

Mas, continuemos a nossa jornada, porque ela já completou a dela.

No culto realizado em seu velório, meu esposo se emocionou muito, e ficou reflexivo.

Uma das palavras do pastor foi: “Poderia ser qualquer um de nós no lugar dela. E se fosse você, como Deus o encontraria? O que você tem feito da sua vida hoje?”

Vá em paz, “tia Jaine”!

***

Ontem eu estava pensando: “Puxa, o que vou postar no blog? Falei da recaída do meu esposo. Falei do triste fim da Francine. Agora falarei sobre a partida da tia Jaine... Puxa, quanta tristeza! Quero levar esperança aos leitores! Quero trazer esperança a mim mesma!”

Então decidi fazer postagens de relatos de adictos que estão em recuperação.

Posso estar passando por um vale agora, mas acredito que a vida é feita de muito mais montanhas do que vales. E essa dor que estou sentindo, vai passar. E esse vale me trará aprendizados, e me fará mais forte.

Não desisto dos meus ideais! Não desisto da vida! Não desisto das coisas nas quais acredito! Não desisto da fé!




Vejam essa história da L.M., uma adicta em recuperação. A conheci há pouco mais de dois anos, e temos vários amigos em comum. Ela tem 35 anos, com cara e corpinho de garota, linda, aparenta bem menos idade. Formou-se em Serviço Social recentemente, trabalha, e leva uma vida normal... E ela é a primeira da série de relatos que publicarei aqui no Blog, sob o título “Recuperação é possível, basta querer de verdade!”


Recuperação é possível, basta querer de verdade!
(L.M., 35 anos, limpa há mais de 5 anos)

Sou L.M. Estou limpa há 5 anos, 6 meses e 15 dias, consciente que o dia mais importante, é o dia de hoje.

Fui internada pela primeira vez aos 17 anos, em uma clínica que utilizava o método de tratamento Minessota, de 45 dias, na cidade de Unaí. Fui expulsa antes desse período por indisciplina, mas retornei e terminei o tratamento. Decidi que não gostaria de fazer o pós-tratamento e abandonei as visitas à clínica e as reuniões com os familiares (eu realmente ficava muito nervosa com aquelas reuniões).

Conheci um rapaz na internação e começamos a nos relacionar, ficando grávida após oito meses de namoro. Eu já tinha ingressado em NA e AA, mas não gostava das reuniões, e decidi ficar sem ir às reuniões.

Com o tempo, meu temperamento e defeitos de caráter foram ficando muito acentuados, eu brigava muito com meu companheiro e continuava a praticar insanidades, mesmo sem o uso, até que chegou o momento que eu recaí, uma recaída planejada pois eu sentia muita raiva do meu companheiro, que na verdade, nunca se recuperou, mentindo e me traindo desde o início do relacionamento.

Fiquei oito anos recaída. Fiz muitas coisas que pensava que não teria coragem, passei por situações de humilhação, e mesmo assim achava que estava no controle. Tentei me matar várias vezes. Tive vários acidentes de carro. Discussões. Brigas. Confusões. Muitas idas e vindas na delegacia (eles já me conheciam, tinham fotos e me chamavam pelo nome quando me encontravam na rua). Estava me afundando não só no mundo da adicção mas também da criminalidade. Até que cheguei ao fundo do poço, onde sabia que seria morta em uma tocaia. Perdi tudo! Trabalho. Carro. Dinheiro. Família. O respeito, na verdade nunca tive nem por mim nem pelos outros.  

Resolvi me internar novamente aos 27 anos. Fiquei internada em uma clínica de contenção, e tomava remédios diariamente. Novamente fui indisciplinada, me amarraram e me injetaram o famoso “sossega leão”, e após alguns dias, agredi uma pessoa, e fui expulsa.

Sentindo-me imprestável e com medo de retornar ao uso, ou de ser morta, eu mesma tentei o suicídio, cortando meus pulsos. Foi quando resolveram me levar para uma comunidade terapêutica, onde a internação seria de nove meses, como sugerido pela terapeuta e psicóloga da clínica anterior. 

Penso que foi o início da minha salvação. Fiquei praticamente dois anos em uma comunidade de São Paulo. Longe de tudo e de todos, eu finalmente consegui me encontrar.

Comecei como interna, e após alguns meses passei a ajudar na comunidade com serviço voluntário. Mas a saudade dos meus filhos e a preocupação com eles me fizeram retornar para Brasília.

Consegui um novo emprego, comprei outro carro, roupas, e achei que estava tudo bem.

Tive experiências muito boas com relação a religião em SP, tive um despertar espiritual, e comecei a frequentar a igreja. Mas os grupos continuavam sendo algo que eu detestava. Eu ia aos cultos durante a semana e também nos fins de semana.

Após um tempo, eu já não tinha tanta vontade. Esqueci-me da minha doença e achei que poderia controlar a bebida novamente, e encontrar com algumas pessoas da ativa que achava que eram meus “amigos verdadeiros”, até que chegou o dia em que fui novamente parar na “boca”.

Mais uma vez comecei a me afundar nas drogas, mais rápido do que nas outras recaídas.

Emagreci muito rápido, voltei a roubar e a me relacionar com traficante. Mas, uma coisa tinha mudado. Eu tinha experimentado o Programa dos 12 passos de uma maneira diferente na última internação, e o meu despertar espiritual, as mudanças que tinham acontecido no meu interior, estavam me incomodando muito. Eu não conseguia usar em paz. Não conseguia roubar direito. Tudo pra mim estava errado. Sentia muito desespero. Medo. Pânico. Eu ficava constantemente surtada. Eu não era mais a mesma de quando usava antigamente e também não era a mesma de quando estava internada. Eu era um verdadeiro Zumbi. Via demônios! Espíritos! Todos me perseguiam! Fiquei uma semana sem trabalhar e fui demitida novamente.

Resolvi pedir ajuda e fui internada por 3 meses e 15 dias. Desta vez, eu estava completamente rendida. Sentia-me derrotada pelas drogas. Pela doença. Eu estava pronta. Ainda tentei resistir por uma semana não ir ao grupo, até que liguei para a linha de ajuda para saber a respeito das reuniões de NA. Sabia que sozinha eu não conseguiria.

Para descer do carro, foi difícil. Acho que entrei e saí umas três vezes, até que respirei fundo, e falei pra mim mesma: - Vamos lá, você consegue! Você não vai desistir desta vez! Você precisa ao menos tentar... uma vez... uma vez de verdade!

Desde aquele dia, continuo voltando às reuniões de NA, partilho, escuto, sirvo a irmandade... fico alegre, triste, revoltada, serena, depressiva, eufórica, irada, enfim, o importante disso tudo é que hoje eu sinto, eu não me escondo de mim mesma, eu não preciso usar para fugir da realidade, pelo contrário, eu aprendi a lidar com ela.

Tenho muitas dificuldades a serem superadas, mas o caminhar hoje é com esperança e o mais importante é que não estou só na caminhada. Aprendi a pedir e a receber ajuda dos outros e pela primeira vez na vida, sinto que estou no lugar certo.

A pessoa tem que ter o desejo de realmente parar de usar. Tem que estar convencido que não tem o controle das drogas e que a sua vida se tornou incontrolável. Ele começa a perceber que está prestes a chegar ao fim, e que seu desespero já basta. Muitos precisam passar por prisões, instituições e bem próximos a morte para terem um despertar que os impulsionará a buscar ajuda. 

Obrigada, Poder Superior, que concebo como Deus, pelo que tenho e principalmente, pelo que sou!

Aos familiares, digo que sempre vale à pena ter esperança. Um homem sem esperança está morto. Mas a família também fica adoecida e precisa procurar ajuda e recuperação. Muitas vezes ela pode estar contribuindo para que seu “familiar problema” se afunde cada vez mais. Se tornam facilitadores. Enquanto o adicto não quiser parar ele não vai parar. Isso tem que partir dele próprio. A maior ajuda que a família faz é se tratar e continuar orando pelo adicto que ainda sofre. Deus pode ir aonde não podemos.

Perdi muito tempo da minha vida, e isso é algo que não tem como ser modificado, momentos que jamais poderão ser compartilhados novamente, idade, meus filhos crescendo, mais tempo com meus pais.

Comecei a usar drogas aos 12 anos, após a separação dos meus pais. Comecei com o álcool e maconha, e junto com eles uma coleção de remédios que eu comprava na farmácia (até mesmo usava os da minha mãe que ficou depressiva, chegando a ser internada e precisando de medicações). Depois vieram os solventes como cola de sapateiro, benzina, éter, clorofórmio. Não foi difícil chegar à cocaína e logo em seguida à minha droga de preferência – a merla. Foi amor à primeira sensação. Era aquilo que eu queria. Foi como uma explosão nuclear. Realmente passei a viver em função daquela droga. Acordava pensando nela, e dormia pensando nela (quando conseguia dormir). Tentei usar o crack ao final da adicção, mas eu não gostava do cheiro, e tinha muito medo, pois tive amigos bem próximos que se tornaram mendigos, ficaram desfigurados, irreconhecíveis. Eu não queria aquilo pra mim, mas sabia que se continuasse teria o mesmo fim.

Por fim, gostaria de dizer a quem é dependente químico, que o que quer que tenha passado na vida, o que quer que tenha ouvido em toda a tua existência, tudo o que você tem de mais valioso, é o dia de hoje. Temos 24 horas para ser felizes. Busque conhecimento e valorize a sua própria história, pois ela é tudo o que você é. Isso o ajudará a ter crenças valorosas e que realmente funcionam, pois são suas opiniões, e não mais opiniões alheias. Escute o que os outros têm a lhe dizer com atenção, guarde aquilo que é bom e que lhe ajudará a crescer, o que for para diminuí-lo, deixe que o vento leve para longe. Não se preocupe, pois não é para você. A mudança é possível na vida de todos, basta acreditar e fazer o melhor que puder, no dia de hoje.

“Tamo Junto!”


Amigas(os), espero que tenham gostado!

Recuperação é possível, tanto para os adictos, como para nós, familiares... Basta querer de verdade.

E, queridos(as) leitores(as), lembrem-se de que “para ser capaz de ajudar qualquer outra pessoa,  preciso primeiramente aprender a cuidar de mim mesma...” (CEFE de hoje).



9 comentários:

  1. pois é..precisa querer..ter medo e achar que pode controlar...infelizmente...to vendo..que esse laço que nos une só evita o fundo de poço..pra ai talvezzz se render...e olha que eu deixei de ser facilitadora há anos...porém ainda não perdeu o suficiente...q merda...q o PS..me de serenidade, sabedoria e coragem...pra fazer o que eu preciso...e que mesmo que pareça o contrário um dia esse contrário possa ser compreendido...que tudo que eu preciso fazer...é por amor a mim e a ele....ta foda hoje

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  2. ainda se entrasse na compulsão seria mais "fácil" era simplesmente abrir mão...mais não fica nesse bendito ciclo de auto-engano......passa dias as vezes meses limpo...pq a cocaína não é tão compulsiva quando o crack...ai fica com a falsa impressão de que controla..."óia" que o PS me de discernimento..pq o barato é doido e o processo é lento

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  3. Alguns dias são dificeis mesmo ne Polly. Meus sentimentos por tudo o que ta vivendo e obrigada por vim aqui trazer esperança para nós mesmo com dor. Beijos. Flora.

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  4. Adorei a ideia da serie, a gente ta precisando disso. Parabensssssssss pra LM!

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    1. Que bom que gostou, "anonimo"! Mais histórias virão! Beijos. ♥

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  5. Eu namorei um dependente químico na adolescência, ficamos tres anos juntos e passei por sua primeira internação. Nos separamos, constituímos outras famílias e nosso amor cresceu junto com nós, porém escondido. No final do ano passado decidimos nos reencontrar, eu larguei meu casamento de 5 anos e fui com meus dois filhos viver com ele.
    Após três meses juntos, ele recaiu.... está internado. É sua 36 internação....
    eu estou sofrendo com a codependência..... sofrendo, me culpando e me achando idiota, pq acreditei nele, esperei a separação sair e fui viver um amor qur guardei durante 11 anos dentro de mim.
    Como essa vida é difícil

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  6. "Ainda que de luto, eu luto."
    Meus sentimentos.

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