sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Familiares de dependentes químicos, quem somos nós?


Vocês viram o Levantamento Nacional de Famílias de Dependentes Químicos, feito pelo UNIAD, INPAD e UNIFESP?

Essa pesquisa, considerada a maior do mundo sobre o assunto, foi divulgada no dia 03 deste mês, e veio para mostrar o impacto das drogas nas famílias brasileiras.

O estudo mostra que existem cerca de 8 milhões de dependentes de álcool e/ou outras drogas em nosso país, e que pelo menos 28 milhões de pessoas vivem com um dependente químico em casa.

E eu que pensava que era apenas eu...

Apesar do grande número de familiares de dependentes químicos, pouco se fala, se vê ou se estuda sobre as experiências vividas por esses familiares.

Os mais próximos (geralmente pais, cônjuges e filhos), em sua maioria, adoecem também. Afinal, sabemos que não é fácil viver na expectativa, na ansiedade, na dor, na desilusão, no medo... E isso acaba nos causando sintomas físicos e psicológicos. Portanto, precisamos sim de cuidados e de atenção!

Vamos aos números mais interessantes?

Dos familiares entrevistados, 80% são mulheres, e dessas, 46% são mães. E dessas mães, mais da metade são “chefe de família”. Cá pra nós, essa força só nós mulheres mesmo que temos, né?

Então 46,5% são mães, 13,2% pais, 12,6% irmãos, 11,2% esposas, 3% filhos, 1,6% avós, 0,8% maridos e 0,1% outros.

Muitas vezes me perguntaram se eu conhecia algum marido codependente. Conheci apenas dois, nesses anos. Mas, eles existem, estão aí na proporção de 0,8%...

57,6% das famílias entrevistadas possuem algum outro familiar usuário de substâncias (além do "seu" dependente químico próximo).

Os familiares acham que o uso de drogas se deu por más companhias (46,8%) e por autoestima baixa (26,1%).

Pra quem pensa que as drogas estão apenas nas favelas, veja esse índice: 26% dos adictos das famílias entrevistadas têm ensino superior completo ou incompleto, e 26,9% possuem ensino médio completo.

Dos dependentes que estão em tratamento, 73% usa mais de um tipo de droga, e 42% são usuários de crack. A média de tempo de uso é de 13 anos.

68% relataram usar maconha com outras substâncias.

Como sabemos a doença é progressiva. O jovem que começa no álcool e maconha, achando que nunca perderá o controle, é só uma questão de tempo... Se liga, jovem!

Gente, após a família saber que o jovem está usando drogas, leva em média 02 anos para buscar tratamento, no caso de cocaína e/ou crack; e 7,3 anos para buscar tratamento aos dependentes de álcool.

Triste essa estatística. É muito tempo pra tomar uma atitude! Infelizmente nossa sociedade ainda não entende que dependência química é doença (independente se a droga é lícita ou ilícita), e quanto antes iniciar o tratamento, melhor. Principalmente no caso do álcool que é uma droga aceita (e até estimulada) no nosso país, cabe aos pais estarem atentos. Se estão ocorrendo prejuízos em razão do uso (atraso no retorno para casa, falta ou atraso ao trabalho, gastos excessivos, mudanças de comportamento), busque ajuda de um profissional urgente! Na minha opinião, não deveriam nem usar, mas cada família tem sua forma de pensar.

As famílias entrevistadas buscaram ajuda em: 21,5% internação, 13,9% grupos de apoio, 11% igrejas, 7% parentes e amigos, 6,7% Psiquiatras, 2,6% CAPS AD, 2,2% hospitais, 1,9% médico clínico e 1% Psicólogos e terapeutas.

Metade dos entrevistados não sabe o que é CAPS AD, e dos que sabem, 46% nunca optou por esse serviço.

Sinceramente, não entendo. O atendimento no CAPS tem sim suas limitações, mas lá é o lugar que encontraremos Psiquiatra, Psicólogo, Assistentes Socias e outros, gratuitamente, para atenderem ao dependente químico e a família também.

Meu esposo já se tratou pelo CAPS daqui, e ficou uns bons meses limpo com esse acompanhamento. O pessoal de lá ligava até em nossa casa para saber se eu estava bem, se já havia ganhado o bebê, se meu marido seguia limpo, e tal. Tem furos nesse serviço? Sabemos que sim. Mas, o que não podemos é permitir que nosso familiar se afunde, sem buscar nenhum tipo de ajuda.

58% tiveram que se virar para pagar a internação do familiar, estou dentro desse número aí...

45% dos entrevistados tiveram sua vida financeira grandemente comprometida em razão do pagamento do tratamento. Olha eu aí de novo!

Na verdade, no meu caso, além de ter que pagar as mensalidades da Comunidade Terapêutica, pagava também Psiquiatra uma vez por mês, e precisava levar cesta básica e carnes. Além disso, de uma hora pra outra, me via tendo que pagar as contas sozinha, porque ele havia recaído. Ou mesmo repondo objetos que haviam sido levados por ele. Então, essa falta de cumprimento dos orçamentos previstos me fez entrar em uma grande dívida com o banco. Esse assunto me angustia muito... L

Queridos, o estudo mostrou que familiares de dependentes químicos apresentam muito mais sintomas físicos e psicológicos do que o restante da população. Por favor, cuidem de sua saúde! Olhem para si mesmos! Principalmente as mães de adictos, cuidem-se. Ok? Nós não somos de ferro... Não somos super-heroínas!

58% dos familiares tiveram sua habilidade de trabalhar ou estudar afetada.

47% tem sua vida social incomodada pelo adicto.

29% está pessimista quanto ao futuro imediato.

26% teve bens ou dinheiro furtados pelo adicto ou fez empréstimos a ele, sem devolução.

21% tem medo que o familiar adicto se drogue até o fim.

12% sofreram ameaça pelo dependente.

Bom, queridas(os) leitoras(es), posso dizer que me senti dentro dessa estatística do início ao fim, exceto na questão de sofrer ameaças do adicto.

E agora? O que fazer com esse sofrimento? O que fazer com o nosso adoecimento?

Temos um familiar dependente químico que precisa da nossa ajuda, mas por vezes não temos forças nem para nos mantermos de pé.

Entretanto, tenho certeza que se a pesquisa mostrasse o índice de ajuda buscada para a própria família, seria baixíssimo.

É hora de mudar isso. Precisamos nos conscientizar que viver com um dependente químico não é fácil, e nos adoece, e que sozinhos é muito difícil vencermos essa batalha. O que me tirou do vale profundo da codependência foi: o grupo de apoio a familiares, terapia com psicólogo, fé (religião), e a busca de conhecimento sobre o assunto.

Meu esposo continua sendo um adicto, embora esteja limpo graças a Deus. Eu continuo sendo sua esposa, e codependente (em recuperação!). Entretanto, a minha vida mudou completamente quando passei a cuidar de mim.

Recuperei minha habilidade para trabalhar e estudar, voltei a ter uma vida social normal, ressuscitei o otimismo em mim, e substitui o medo pela fé! Sim, eu mudei muito... Meus pensamentos mudaram. Minhas atitudes também. E é incrível, quando mudamos a nós mesmos, tudo muda ao nosso redor...

Então que tal parar de querer mudar o seu familiar, e começar a mudança por você?

Ele não quer se tratar? Trate de você!

Acredite, isso traz resultados positivos para você e para a sua família!

Escolha um grupo de ajuda, e vá hoje mesmo, se possível.

Amor Exigente (http://www.amorexigente.org.br/)
Codependentes Anônimos (http://www.codabrasil.org/)
Grupos familiares Al-Anon do Brasil (http://www.al-anon.org.br/)
Grupos familiares Nar-Anon do Brasil (http://www.naranon.org.br/)
Pastoral da Sobriedade (http://www.sobriedade.org.br/)


Para acessar a pesquisa, na íntegra, CLIQUE AQUI.


5 comentários:

  1. Ótima tarde Polyanna!
    Amo um adicto e já fazem 7 anos que estamos juntos, sofro demais e só me abro com uma amiga, pois tenho muita vergonha de viver tão infeliz, sou independente, tenho minha casa e um filho já adulto, mas vivo para esse homem.até já mudei um pouco e passei a pensar mais em mim,mas tem sido muito difícil...

    AMEI A SUGESTÃO...
    Então que tal parar de querer mudar o seu familiar, e começar a mudança por você?
    Ele não quer se tratar? Trate de você!
    Acredite, isso traz resultados positivos para você e para a sua família!

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    1. Querida Rose, boa noite!
      Já que você disse "tenho muita vergonha de viver tão infeliz", que tal substituir a vergonha por atitude para mudar o que não está bom?
      Força, minha querida! Cuide-se!
      Um grande beijo.
      Poly.

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  2. Saudações, minha querida companheira!
    Interessante esses dados do Levantamento, mas ainda o acho pouco rico de informações que verdadeiramente poderiam ajudar às famílias.
    Os números apontam estatísticas que muito ouvimos falar. Acredito ser interessante ser dado mais ênfase aos números pertinentes aos resultados, bem como levantado o índice de ajuda buscado para a própria família.
    Já que o Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos - LENAD FAMÍLIA, trabalha esses índices de familiares, deveriam trazer essas e outras informações, até mesmo para que possa ser dado mais destaque a codependência, pois abordam-se muito a dependência e deixa-se de lado a codependência. Portanto, por tratar-se de um Levantamento voltado para a família, acredito que esse também deveria ser o foco.
    Aliás, quando eu digo isso falando em minha pessoa, é simplesmente por querer falar apenas o meu ponto de vista. Entretanto, afirmo que participei recentemente de um Fórum de Debates Sobre Políticas Públicas Sobre Drogas, onde foi abordado (mesmo que por longe) a questão dos familiares, e foi tocado nesse aspecto de sempre ter sido deixado de lado os familiares codependentes.
    Abração, Polyanna!
    Obrigado por mais uma belíssima postagem!
    TAMUJUNTU.

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    1. Boa noite, meu amigo!
      Que bom te ver por aqui!
      Concordo totalmente com a sua colocação. Ainda ontem estava comentando sobre isso com algumas companheiras no grupo virtual.
      Penso que se essa pesquisa perguntasse quantas famílias estão buscando ajuda para si, talvez não chegasse a 2%, infelizmente.
      Meu foco de trabalho é esse: a família. Já tem muita gente olhando para os adictos e criando políticas para recuperação, ou ao menos tentando criá-las. Mas, e a família, onde está? Quem a vê? Ao menos aqui no DF, isso está mudando... É um trabalho árduo e lento, mas estou feliz por fazer parte disso.
      Grande abraço!
      TMJ!

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  3. Oi Poly

    tenho comentado aqui eventualmente como "anônimo", vc já até respondeu um email meu...em fim, hj resolvi me identificar, sou a Jô, veterinária, namorida de um adicto, tenho um filho de 08 anos que está passando abençoadas férias com a vovó em Barretos, interior de SP...após alguma luta, hj consegui a internação do Ju*, custeada pelo município...é uma boa clínica na Chapada dos Guimarães, MT, sexta feira um carro da prefeitura vai busca-lo em casa, pois moramos a 200 km de distância...em fim...estou feliz, confiante,com medo,triste de ter q ficar sozinha,esperançosa, ansiosa por dias melhores...e devo dizer que seu blog está me ajudando demais a enfrentar tudo isso...gostaria de sua permissão pra vir aqui de vez em qd escrever sobre a evolução dele, sobre esses dias...aqui me sinto segura...

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