quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pena? Só se for de galinha!



Queridas mães, queridas esposas, queridos familiares, por favor, não sintam pena dos seus entes dependentes químicos.

Senti pena do meu esposo por tantos anos, e eu pensava que isso era algo bom, que demonstrava a minha generosidade, mas descobri que a pena é um sentimento ruim, e que só faz mal, tanto a quem sente, como a quem é o alvo.

Quando sentia pena ao ver a situação dolorosa em que meu amado adicto estava, eram gerados em mim sentimentos de pesar, tristeza e sofrimento. E movida por esses sentimentos, eu tinha uma tendência a tomar decisões equivocadas para me aliviar, e atrapalhava o seu processo de recuperação.

Muitas vezes, por trás dessa pena, existe a culpa. Sim, mais uma vez a culpa. Eu me sentia culpada por estar bem, e meu esposo não. Culpada por ter um celular, um par de tênis, e ele não, por ter trocado por drogas. Então, por meio da pena, eu acabava sendo facilitadora da sua doença. Eu restituía os bens trocados, dava dinheiro, passava a mão na cabeça, mesmo quando as atitudes dele eram as piores.

Percebi que a pena esconde muita coisa ruim atrás de si. Por um lado, ela indicava que eu me considerava superior, melhor que o meu esposo, afinal, eu o considerava incapaz de resolver seus próprios problemas e de superar seus obstáculos, então, somente eu, a grande Polyanna era a responsável capaz de lhe levar a solução. E assim eu me sentia importante. E era disso que a minha codependência se alimentava, dessa relação de dependência, e por isso, por vezes, inconscientemente eu sabotava a recuperação do meu esposo.

Hoje percebo que meu esposo é capaz sim. E que ele pode se recuperar, e se virar sem mim, em todas as áreas da sua vida. Hoje não preciso que ele dependa de mim, para me sentir importante, porque me sinto importante.

Entendi que os dependentes químicos são sim capazes. Ainda que eles precisem passar por um tempo de sofrimento (causado por eles mesmos), encaro isso como parte do seu crescimento.

Queridas, vamos parar de atrasar o crescimento do outro?

Engraçado que eu achava que a pena era baseada na bondade e na generosidade, mas percebi que sua base era egoísmo. Eu facilitava as coisas para o meu marido, por acha-lo incapaz de conseguir por suas próprias pernas, e para que ele dependesse de mim, e assim, eu me sentisse amada e importante... É, eu o impedia de crescer.

Graças a Deus, meu esposo se mantém limpo há 6 meses e 28 dias. E quando olho para ele, vejo alguém totalmente capaz de viver sem mim. E isso é bom! E mesmo que ele um dia recaia (vivo na esperança de que isso não volte a acontecer), ainda assim, sei que ele é capaz de encontrar suas próprias saídas.

Hoje em dia, quando olho para dependentes químicos na ativa, não sinto pena, não mesmo. Sinto apenas compaixão.

Sentir compaixão é reconhecer o sofrimento alheio, mas sem culpa, e sem considera-los incapazes de sair da situação atual.

Não sinta pena, mas não deixe de sentir compaixão pelo próximo. 

Se ele, sinceramente, pedir ajuda, se ele quer se tratar, se ele quer mudar, faça o que você pode. Nessa hora, a ajuda baseada na compaixão será muito válida, sem aquela intenção inicial da pena de se sentir importante.

Se tenho como ajudar, ajudo, e fico em paz. Se não tenho como ajudar, ou se o outro não quer minha ajuda, não ajudo, e também fico em paz.

Quando agimos na compaixão, nossas ações são assertivas, e nossas decisões são melhores. Ainda que nossas atitudes impliquem em limites, e até mesmo em um “sofrimento” ao outro.

Se lembram do sofrimento da lagarta para se tornar uma borboleta? Pois é, se tentarmos ajudar no processo de metamorfose, a borboletinha poderá sair defeituosa. Ela não precisa de nós para isso.

Só pra constar, meu esposo acabou de ser aprovado com uma ótima nota em um concurso público daqui... E não é que ele não precisou de mim para isso?! (Risos).

É muito bom vê-lo crescer. É muito bom não ser necessária ou imprescindível na vida do outro.

Me sinto mais leve. E ele se sente mais livre.

8 comentários:

  1. na verdade, nao sei o que estou sentindo: pena, raiva, compaixao...
    isso é tudo novo para mim.

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  2. Polly parabéns ao seu marido! Que notícia boa! Fico muito feliz com notícias boas! Principalmente quando ela vem de pessoas que são recriminadas pela sociedade. Isso mostra que preconceito e não está com nada pois todos são capazes indepe dente de suas escolhas! E mais parabéns tbm por esses seis meses... e muito bom ter bons exemplos para quem esta na ativa e para quem busca a recuperação. E se hoje ele e capaz e pq se sente feliz e motivado e ao su lado caminha uma vitoriosa. Bjs

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  3. Olá Polyanna, faz alguns dias que descobri seu blog, realmente é muito bom....Seus relatos são emocionantes, e assim como você eu amo um dependente químico, mas é muito doloroso suas recaídas, me sinto culpada, inútil.....não sei como posso me sentir bem e tranquila, meu único conforto é Jesus, procuro buscá-lo sempre.....GRAZI - Cosmorama - SP

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  4. Leio, e até começo a entender..mas por em prática..isso que ainda não consigo.
    Meu esposo está recaído....usou domingo...e ontem desapareceu..até agora nada....
    com certeza gastou os 300 reais que ganhou trabalhando ontem, dinheiro que ele sabia que eu teria qu pagar uma conta amanhã...e tá lá..sabe Deus onde , usando..e eu aqui...sem saber o que fazer.Mas atrás dele não vou...mas to mal com tud isso.

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  5. pois é o Du recaiu 9 meses limpo porém não em recuperação...agora nego levanta e corre atrás..kkk só que infelizmente continua na negação...ainda não sofreu o bastante sei lá...e eu como disse a minha madrinha, não arrepiei nem um pelinho do braço...to tranquila normal...GRAÇAS A DEUS.....dessa vez, sem gritos, sem culpas, sem desespero sem magoas apenas deixei bem claro, faça como quiser mais saiba que seu comportamento afetar os meus limites eu em afasto...se quiser ajuda sabe aonde encontrar...bjus

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    1. Kel, comecei lendo o seu blog e depois vim parar aqui, em 2 semanas li os 2 livros da Poly e os 2 blogs rs.. , meu tablet ficou na tomada rs... Tenho feito muitas anotaçoes, para ate conversar em terapia, é muito bom poder compartilhar e ler as histórias, me encorajei e comecei escrever o meu para desabafar.

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  6. Meu marido recaiu,apos 1 ano e 2 meses limpo,esta internado e mas uma vez estou no chão.Não durmo,dores em todo o corpo,e não sei lidar com a situação.Suas mensagens são de grande valia,mas devido a codepencia estou mt mal,parece que este texto foi escrito pr mim...bjs

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  7. Olá Polyanna!
    Achei seu face através de uma postagem que li em seu blog, que me foi indicado, e que tem me ajudado muito sobre todas a dúvidas que adquiri ao ser "apresentada" a tão indesejada adicção!
    Bom, o meu caso não é nada diferente das suas postagens, nem tão pouco dos comentários que leio, só que antes de ler sobre o assunto, assim como todos os co depentes (descobri que me incluo nessa lista, hoje, tão ampla - infelizmente), eu acreditava que era sozinha no mundo, vivendo em função de alguém egoísta e insensível, que não tinha capacidade para enxergar a dor e os sofrimentos causados pelo consulto das drogas. Sim, eu sou noiva de um adicto, de um cara jovem, bonito, inteligente, com seus 31 anos de idade, pai de uma menina de 14 anos, fruto de um relacionamento no auge da sua adolescência e de um meninão de 4 aninhos, do ultimo relacionamento sério que teve antes de mim. Aaaah, como é fortalecedor ver que assim como eu, existem outras pessoas lutando nesse momento para tentar viverem o melhor de tudo a cada dia, com altos e baixos, entretanto, sempre acreditando que é possível ser feliz só por hoje! Sei lá, me sinto mais lucida, mais sensata, e talvez eu não seja nem uma coisa ou outra, todavia, ao ver que assim como eu, existe vc e tantas outras pessoas que amam esses adictos apesar de todos os pesares, me dá a certeza de que é possível sim, ser feliz só por hoje, e quem sabe amanhã e depois e depois, rs. Hoje, o meu Zanzão (é um apelido que nos demos, durante um período que a doença esteve "ausente" em nossas vidas, que quer dizer: AMORZÃO - rs), está internado, ele esteve limpo por quase 5 meses, e agora está na clínica a 8 dias. Essa foi sua primeira internação, desde que estamos juntos, tendo em vista que o nosso relacionamento tem apenas 7 meses e meio. E oq eu poderia relatar nesse momento? Que dói sentir saudades dele, não vê-lo pela casa, não receber suas ligações ou não planejar o nosso final de semana, porém, lendo o seu blog, eu cai em mim, e percebi, que dói muito mais não saber onde ele está, pq desligou o telefone ou até mesmo, se ele voltará pra casa. Agora pelo menos, eu sei que ele está bem, limpo e longe de todo mal que essa poderosa doença pode causar, e isso já é o maior de todos o motivos, pra me deixar feliz. De qualquer forma, eu só queria relatar aqui, o meu MUITO OBRIGADA pela criação do blog Amando um Dependente Químico. Através das suas palavras experiências relatadas, ficam a certeza de que juntos podemos sim, fazer aquilo que não conseguimos fazer sozinhos! Mais uma vez, muito obrigada! Um grande abraço, fica com Deus, em paz e feliz, só por hoje!
    P.S.: Estou anônima aqui, mas te ADD no face ;) Bjux!

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