sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Deixe alguns sonhos partirem...



Sonhos, sonhos... São eles que nos movem. Não é mesmo?

Eu sou uma sonhadora incorrigível. Sonho mesmo. Acredito mesmo. Luto mesmo.

Mas, mesmo assim, nem todos os meus sonhos podem ser realizados.

Eu tinha o sonho de ter um pai presente, que fosse às minhas reuniões de escola, que sentisse ciúmes quando os garotos me cortejavam, com quem eu pudesse conversar às vezes, e pedir colo quando sentisse essa necessidade. E por muito tempo me agarrei a esse sonho. Mas, quanto mais eu fantasiava, mais a realidade tentava me mostrar que aquele sonho estava falido. Eu visitava meu pai, às vezes, em sanatórios. E muitas vezes quando íamos passar as férias na casa dos meus avós, onde ele morava, ele não se importava com nossa presença, em razão da obsessão pelas drogas. A distância entre a realidade e o meu sonho era tão enorme, que eu tentava mascarar a realidade, até o dia em que meu pai foi embora de vez, em razão de uma overdose.

E agora? O que fazer quando temos um sonho esmagado? O que fazer com a dor que isso nos traz?

Bom, o tempo passou. Conheci ao meu esposo, me apaixonei, e novamente vieram os sonhos. Sonho de um casamento perfeito. Sonho da felicidade constante. Sonho de que não houvesse a droga entre nós. E, pouco a pouco, a cada recaída, esses sonhos também iam se desfazendo. E como era doloroso deixar esses sonhos partirem. Eu estava tão agarrada a eles.

Mas, um dia percebi que alguns dos sonhos que eu cultivava não eram reais, ou ao menos não faziam parte da MINHA realidade.

Negar a realidade me impedia de crescer, e me gerava muitas frustrações.

Entretanto, deixar de sonhar, em razão das perdas que tive na vida, em consequência do uso de drogas de quem amo, não seria justo comigo mesma. E eu não consigo viver sem sonhar!

Há quatro anos atrás, vocês sabem que eu era? Eu era uma esposa desesperada, mãe de um bebezinho e de uma pré-adolescente, tentando me adaptar novamente no Brasil, no novo trabalho, na nova cidade, e com meu esposo na ativa.

Eu não conseguia sonhar, pois os sonhos cultivados tinham sempre como referência “o outro”, e não eu mesma. Todos os sonhos haviam partido, e só tinha ficado a dor e a desilusão.

E agora? Como continuar vivendo?

Eu precisei abandonar aqueles sonhos irreais, os sonhos fictícios, e substituí-los por objetivos concretos, pelos quais eu pudesse lutar, e correr atrás.

Nesses quatro anos, o primeiro passo que dei, foi em direção a um grupo de apoio a familiares de dependentes químicos. E desde então, um passo de cada vez, fui traçando a minha jornada.

Posso dizer que comecei penteando os cabelos e escovando os dentes, pois eu não tinha mais ânimo nem mesmo para isso.

E, pouco a pouco, me tratando da codependência, fui descobrindo um novo jeito de viver: aceitando a minha realidade, e construindo sonhos sobre a minha própria vida.

E, hoje, queridas(os), confesso que me assusto com a quantidade de frutos que estou colhendo, simplesmente por ter me aberto a esse novo tipo de vida.

No primeiro ano, as mudanças ocorreram internamente. No segundo ano, consegui forças para dar início a um projeto que já vivia no meu coração: o Blog Amando um Dependente Químico (hoje com mais de 218.600 visualizações). Do blog, nasceram dois livros (que já atingiram, em média, 450 pessoas). Agora estou escrevendo o terceiro livro, que será lançado em março, e com uma linha bem diferente dos outros dois. Também foi criada a página no Facebook (hoje com mais de 1.600 curtidas). Daí, portas se abriram para entrevistas, e para que eu palestrasse em comunidades, faculdades, órgãos públicos, etc. E, sobretudo, o que me deixa mais realizada: os relatos diários que recebo por mensagens e e-mails.

Sabe, quando olho para aquela Polyanna de quatro anos atrás, entrando naquela reunião, vestindo uma calça jeans e uma camiseta branca, com um bebezinho no colo, e muita vontade de chorar, chorar e chorar, e quando olho para a Polyanna de hoje, eu só tenho vontade de gritar aos quatro cantos: Obrigada, meu Deus, pela oportunidade da mudança!

Não bastasse tudo isso, Deus me surpreendeu mais uma vez. O Secretário de Justiça do DF leu o meu livro, e se comoveu bastante com a história. Na ocasião, ele me chamou para uma reunião, e me solicitou um projeto sobre o assunto codependência. Tentei fazer algo, o mais rápido possível, e o entreguei. O tempo passou, e por motivos externos, o projeto estava parado. Mas, há menos de um mês atrás, o novo Subsecretário de Políticas sobre Drogas me chamou para implantarmos o projeto. A SUBAD alterou o projeto, o fez maior, juntos elaboramos as ações, e o resultado é que o projeto será implantado na próxima semana, dia 17/10/2013.

Será um projeto voltado para as famílias. Acessem e sigam o site http://amemasnaosofra.blogspot.com.br/ e conheçam as ações. Estou ansiosa, e muito muito feliz.

Dentre as ações, há a realização de um seminário (curso) multidisciplinar, com a presença de Autoridades, Psiquiatras, Representantes dos grupos de apoio, Profissionais especializados, e eu, uma codependente em recuperação.

Sabe, queridas(os), todos nós temos habilidades. Todos, inclusive você! E o seu papel no mundo cabe somente a você realizar. Hoje tenho sonhos novos! Sonhos reais! Sonhos nos quais eu sou a protagonista!

Talvez você ache que minha história é muito diferente da sua, mas não é não. Se você falasse para a Polyanna, naquela reunião de grupo, há quatro anos, que tudo isso aconteceria na vida dela, ela jamais acreditaria...

Pra finalizar, queridas(os) leitoras(es) de Brasília e região, vocês estão convidados para a solenidade de lançamento do Projeto Ame, mas não sofra!, em 17/10/2013, às 10 horas, que se realizará na sede da SEJUS-DF, em seu hall de entrada, localizada no SAIN Estação Rodoferroviária, Ala Central.

Conto com a presença de vocês! É uma grande conquista de todos nós, familiares. Afinal, é o primeiro projeto governamental voltado para nós. E agora sonho que esse projeto se expanda por todo o país. Talvez isso possa acontecer, na sua cidade, por meio de você, leitora (né?!)...

Gostaria de agradecer ao Secretário de Justiça Alírio Neto, e ao Subsecretário de Políticas sobre Drogas Leonardo Moreira, pela sensibilidade, por terem acreditado nesse projeto, e investido nesse sonho, afinal, boas ideias surgem todos os dias, mas pessoas dispostas a acreditar nessas ideias são bem mais difíceis de achar...

E que venham os novos sonhos!


Aproveitem bem o dia das crianças!

Beijos no ♥!


Queridos, por questões institucionais, as atualizações do Projeto serão feitas na própria página da SEJUS, link (http://www.sejus.df.gov.br/projetos/ame-mas-nao-sofra.html), portanto, o site Ame, mas não sofra! do blogger será desativado, mas quem desejar continuar seguindo o Projeto basta enviar um e-mail para amemasnaosofra@sejus.df.gov.br . Abraços!

9 comentários:

  1. Nossa, seu texto foi pra mim!! me tocou fundo, me emocionei....tb estou abrindo mão de alguns sonhos, sonhos irreais, sonhos perfeitos, que sei que não existirão.....é mais etapa, dolorida, mas com o AE, sei que chegarei lá e, um dia, vou estar como vc, olhando pra trás e vendo quantas coisas conquistei e realizei, a partir do momento que coloquei EU em primeiro lugar. Parabéns pela vitõria, pelo belo projeto e por suas mensagens, que ajuda tantas pessoas.

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  2. parabéns pelas conquistas e por aprender a realizar o que a cabe a você realizar...somos peças diferentes de uma gigante máquina, mas sem nossas diferenças fica impossivel fazer essa máquina funcionar...bjus e lembra de um email q te mandei a um tempo atrás sobre como implantar um projeto..kkk dicas please...bjus

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  3. Nossa Poly!!! tudo isso que você escreveu foi para mim também, assistir um vídeo hoje na faculdade falando mais ou menos isso que você escreveu. Que não devemos ser só um observador neste mundo, devemos agir e fazer a diferença e todos nós somos capazes de fazer a diferença.Uma visão e uma ação podem mudar o mundo e você teve essa visão sobre os familiares dos dependentes químicos. Parabéns pela sua atitude.

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  4. Parabens guerreira, vc merece isso e mto mais.Bjs

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  5. Há muito procuro sobre algum blog na internet sobre esse assunto, como não encontrava nada, me sentia ainda mais oprimida, pois, a sensação que dá é que a esposa de um dependente químico é como aquela mulher que gosta de apanhar, logo é vergonhoso falar sobre isso. Me sinto feliz por ter encontrado esse blog, talvez me ajude bastante... Dor é pouco o que sinto em meu coração, só de pensar o quanto já fui ferida e magoada pelas palavras do meu esposo é de matar! Mas, estou aqui... Na luta (agora por mim), tentando renascer como pessoa está difícil, é difícil ter que deixar muitos sonhos de lado (quase todos ligados à ele e, à família que achei que teria com ele). Não consigo fazê-lo compreender o quanto essa dependência já arrancou da vida dele e o amor também já está naquele limite de se sentir fraca. Desculpa o desabafo, mas, meu coração fala mais alto que os meus pensamentos neste momento. Pena não ter algo como este projeto aqui em São Paulo, se souber de algo, por favor, me diga, ok? Parabéns, por sua garra!!!

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  6. E que venham os novos sonhos!!!!!!!!!!!
    Estamos juntas!!

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  7. quanto tempo né anjo???
    Chegamos num tempo em que isso aqui era um deserto só... em que escrevíamos e de retorno só ouvíamos nossa própria voz!
    Um viva as dinossauras eu, vc, Giu e pessoal do Blog "só por hoje" kkkkk

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  8. Bom Dia pessoal.....só estou aqui pra compartilhar com vocês um pouquinho da minha dor.....25/10/2013, são 08:20, faz exatamente 40 horas que meu esposo está "sumido", 40 horas que não tenho notícias, que não sei como está, se está vivo ou não....quanta dor que sinto nesse momento, e saber que a única coisa que vai acabar com essa dor é ver meu esposo chegando em casa, isso é o que eu mais desejo nesse momento....não consigo entender como a pessoa que mais amo nesse mundo pode me fazer sofrer tanto assim.....Grazi - Cosmorama - SP

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