segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Afastamento ou abandono?




“Boa tarde, amor! Quero te dizer o quanto é bom te ter pertinho. Ter o afago, o beijo, o abraço, o olhar, o toque... Mas, sei lá porquê, hoje me deu vontade de te escrever, como fazia antes... Amor, obrigada pelo que tem me dado. Obrigada, principalmente, pelo que você é. Obrigada por esses dezessete dias, nos quais tenho vivido simplesmente um sonho... Um sonho do qual não quero acordar. Nunca se esqueça que te amo, da forma mais sincera e intensa. Te amo como nunca pensei ser capaz de amar... E estou com você, meu amor, para o que der e vier... Sempre! Obrigada por me fazer tão feliz! Puxa, em 17 dias, já fomos à igreja juntinhos, você já me deu aulas de direção, já nos acabamos de dançar na Ocean Drive, já participamos de confraternizações com amigos, já vivemos o mais lindo entardecer numa praia, já nos lambuzamos com sorvete e cobertura de chocolate, já andamos abraçadinhos ou de mãos dadas pelas ruas de Virginia, já demos muitos risos vendo filmes de comédia, já cantamos ao som de Daniel, Kim e Legião na nossa "preta" (nosso carro). Enfim, já nos amamos muito, muito! Amor, com toda a sinceridade do meu coração, eu digo que esses 17 dias, ou seja, esse "momento de amor", pra mim, já valeu uma vida... Obrigada! Eu te amo! Agora preciso ir, para preparar a sua comidinha... Risos. Poly." Em 27/12/2006.


Boa tarde, queridas(os)!

Nesse fim de semana, dando uma “faxina” em meus e-mails pessoais, encontrei essa preciosidade aí. Esse foi o primeiro e-mail que enviei ao meu esposo, após o nosso casamento. Dezessete dias havia se passado, e eu estava radiante de felicidade. Ele estava no trabalho, e resolvi escrever.

Nesse tempo, eu pensava que o assunto drogas era coisa do passado, e que apenas o nosso amor e felicidade eram suficientes para ele nunca mais recair.

Eu não sabia nada sobre dependência química, mesmo sendo filha de um dependente. E sabia muito menos sobre a codependência.

Se eu tivesse esse conhecimento antes, certamente teria sofrido muito menos. E teria feito menos escolhas erradas no decorrer da minha vida ao lado do meu esposo.

Quando falo em escolhas erradas, falo em facilitação, em abrir mão da minha vida, em esquecer de mim mesma, dos meus planos, em cometer insanidades, em pensar que eu era a culpada pela doença do meu amado e a responsável por sua cura.

Entretanto, quando releio esse e-mail hoje, quase sete anos depois, percebo os mesmos sentimentos em relação ao meu esposo: amor, gratidão, paixão e cumplicidade. Mas, claro que tudo isso teve que passar por muitos “fornos”, até chegar à maturidade, e confesso que ainda não chegaram onde devem chegar.

Se eu pudesse mudar o texto desse e-mail eu mudaria apenas uma frase: “estou com você para o que der e vier”. Não que eu mudaria essa frase, mas faria uma ressalva. “Amor, se você quiser se recuperar, estarei contigo para o que der e vier, sempre!”




Só por hoje, ele está limpo há 6 meses e 4 dias. E por isso estou aqui, para o der e vier. Amo ao meu esposo. O admiro. Gosto do respeito e cuidado que ele tem comigo. E agradeço a Deus por ter conseguido passar pelos momentos de vale, sem deixar de amá-lo, e sem abandoná-lo.

Agora fica a questão: o que é abandonar?

Segundo o dicionário é deixar, é largar, é desprezar. E digo mais: é o sentimento de "não acredito mais em você. Você não tem jeito.” É perder a esperança e o amor pelo próximo. É negar ajuda a quem quer ser ajudado. E, às vezes, é desejar o mal.

Nunca abandonei ao meu esposo. Nunca deixei de amá-lo ou de orar por ele. E acho muito doloroso isso, porque por mais que a dependência química de alguém nos machuque, ela ainda é uma doença.

Mas, há um porém muito importante, eu nunca o abandonei, mas algumas vezes, precisei me afastar.




Conseguem perceber a diferença entre abandonar e se afastar?

Neste fim de semana, postei a seguinte frase em meu facebook: Que Deus multiplique as nossas forças e esperanças para que nunca os abandonemos... E que Ele também nos dê a sensatez para discernir a hora de nos afastarmos, e como nos desligarmos... Isso não é abandono, é apenas amor saudável.

Precisei me afastar para proteger aos membros da nossa família. Precisei me afastar, em uma tentativa desesperada de que ele buscasse ajuda. Precisei me afastar, mesmo querendo estar junto.

Entretanto, eu só consegui me afastar, quando foi necessário, por não me sentir culpada pela doença dele, e por perceber, por meio dos grupos de apoio, que me afundar junto, não salvaria ninguém; e que eu não tinha o controle sobre o outro.

Recebo muitos e-mails, muitas mensagens recheadas de culpa. 

Muitas de nós perdemos a noção de onde termina a nossa vida e onde começa a vida do outro. É uma confusão dentro de nós. Essa é a nossa doença. E precisamos nos cuidar, nos tratar e nos sarar, para então ajudarmos ao outro.

Meu maridão hoje está bem. Ele tem algumas características que não gosto, e tem um milhão de outras que gosto, e eu o amo. Entretanto, se hoje estamos vivendo isso, não pensem que 100% é resultado do que eu plantei, não não.

50% é mérito meu, mas 50% é mérito dele.

Achei muito bacana algo que li no face de uma amiga: “O amor tudo suporta, mas não aceita tudo.”

É verdade. O meu amor pelo meu esposo suportou tanta coisa, e o amor dele por mim também. Mas, nós não aceitamos tudo um do outro.

Aceitamos tudo do outro quando não amamos a nós mesmos. E quando não amamos a nós mesmos é muito difícil ser feliz em um relacionamento, seja com um adicto ou com um não-adicto.




Então a lição nº 01 que aprendi nesses quase sete anos é “amor próprio”. E, claro, amando a mim mesma, tenho aprendido a amar na medida certa ao homem mais lindo desse mundo: meu maridão!

Beijos, queridas(os)! Cuidem-se!


P.S: Amigas(os), hoje respondi aos últimos e-mails que constavam sem resposta. Se, porventura, não respondi ao seu e-mail, me reenvie. E peço que evitem me enviar mensagens inbox no facebook, pois aproveito o horário de almoço para responder aos e-mails, e no meu trabalho o facebook é parcialmente bloqueado. Então, a melhor forma de entrar em contato é pelo e-mail polyp.escritos@gmail.com.

8 comentários:

  1. Olá Poly! Tbm acredito que o afastamento é positivo, o dq muitas vezes tem que sentir a perda pra amadurecer e buscar ajuda a sim mesmo. Eu apesar de estar na mesma casa estou afastada do meu marido, ele esta limpo, mas precisa rever o seu comportamento, não sei se ele vai lutar, mas eu estou lutando por mim!!! Muitas felicidades a vcs, que Deus abençoe cada dia mais esse amor lindo! bjs no core !

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  2. Olá minha querida, adorei receber a resposta em meu e-mail fico muito grata....A sua postagem de hj foi tudo o que eu precisa para esse momento...Obrigada, que Deus o Abençõe, força, pois é ele que fortalece.

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  3. Obrigada Poly por suas postagens...por seu blog...obrigada por compartilhar conosco suas experiências, dores e vitórias...posso lhe assegurar que estas me ajudaram d +, num momento de muita dor...é bom perceber que não estamos sozinhas nesta guerra. Confesso que ainda não tenho conseguido viver muito bem essa questão do desligamento, mas me sinto muito encorajada pelo seu exemplo. Q Deus continue te abençoando e derramando graça para a continuidade deste trabalho!

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  4. Polly...meu comentário virou um post...rs..http://dependenciaecodependencia.blogspot.com.br/2013/10/afastamento-ou-abandono.html#comment-form (não é nada pessoal contigo não...)...bjus

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  5. Poly a tua leveza me encanta. WLL.

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  6. Passando aqui pra dizer que, mais uma vez, me encanto com suas postagens.
    A maneira pela qual consegues nos transmitir a mensagem é, simplesmente, fantástica.
    Abração, minha companheira.
    Bons momentos e felicidades ao casal e toda família.
    TAMUJUNTU.

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  7. Poli, obrigada por responder meu email, e saiba que suas palavras me motivam, vejo esperança após ler o que escreve, e isso me dá forças para mudar.Obrigada!!bjs

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  8. Poli sou nova no seu espaço, mas como muitas,também amo um DQ. Sou casada, e no momento ele está internado a 15 dias. Precisei me afastar também e sabendo da grande importancia e também da grande dificuldade que isso nos causa (codependentes nem sempre em recuperação kkk), pois nos momentos de recaídas dos nossos amadas, quem nos segura? Me mantenho confiando em Deus, mantenho a minha grande fé e esperança nele, pois o meu socorro vem do Senhor. Hoje eu estou bem, mas tenho ainda muito medo de voltar a pensar no que vou fazer daqui pra frente. A quantidade e a gravidade das insanidades praticadas foram enormes, e eu quase me esqueci do homem maravilhoso que existe,e disso eu tenho certeza, por traz do meu adicto que só por hoje, eu creio que está bem e em recuperação.

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