segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Afastamento ou abandono?




“Boa tarde, amor! Quero te dizer o quanto é bom te ter pertinho. Ter o afago, o beijo, o abraço, o olhar, o toque... Mas, sei lá porquê, hoje me deu vontade de te escrever, como fazia antes... Amor, obrigada pelo que tem me dado. Obrigada, principalmente, pelo que você é. Obrigada por esses dezessete dias, nos quais tenho vivido simplesmente um sonho... Um sonho do qual não quero acordar. Nunca se esqueça que te amo, da forma mais sincera e intensa. Te amo como nunca pensei ser capaz de amar... E estou com você, meu amor, para o que der e vier... Sempre! Obrigada por me fazer tão feliz! Puxa, em 17 dias, já fomos à igreja juntinhos, você já me deu aulas de direção, já nos acabamos de dançar na Ocean Drive, já participamos de confraternizações com amigos, já vivemos o mais lindo entardecer numa praia, já nos lambuzamos com sorvete e cobertura de chocolate, já andamos abraçadinhos ou de mãos dadas pelas ruas de Virginia, já demos muitos risos vendo filmes de comédia, já cantamos ao som de Daniel, Kim e Legião na nossa "preta" (nosso carro). Enfim, já nos amamos muito, muito! Amor, com toda a sinceridade do meu coração, eu digo que esses 17 dias, ou seja, esse "momento de amor", pra mim, já valeu uma vida... Obrigada! Eu te amo! Agora preciso ir, para preparar a sua comidinha... Risos. Poly." Em 27/12/2006.


Boa tarde, queridas(os)!

Nesse fim de semana, dando uma “faxina” em meus e-mails pessoais, encontrei essa preciosidade aí. Esse foi o primeiro e-mail que enviei ao meu esposo, após o nosso casamento. Dezessete dias havia se passado, e eu estava radiante de felicidade. Ele estava no trabalho, e resolvi escrever.

Nesse tempo, eu pensava que o assunto drogas era coisa do passado, e que apenas o nosso amor e felicidade eram suficientes para ele nunca mais recair.

Eu não sabia nada sobre dependência química, mesmo sendo filha de um dependente. E sabia muito menos sobre a codependência.

Se eu tivesse esse conhecimento antes, certamente teria sofrido muito menos. E teria feito menos escolhas erradas no decorrer da minha vida ao lado do meu esposo.

Quando falo em escolhas erradas, falo em facilitação, em abrir mão da minha vida, em esquecer de mim mesma, dos meus planos, em cometer insanidades, em pensar que eu era a culpada pela doença do meu amado e a responsável por sua cura.

Entretanto, quando releio esse e-mail hoje, quase sete anos depois, percebo os mesmos sentimentos em relação ao meu esposo: amor, gratidão, paixão e cumplicidade. Mas, claro que tudo isso teve que passar por muitos “fornos”, até chegar à maturidade, e confesso que ainda não chegaram onde devem chegar.

Se eu pudesse mudar o texto desse e-mail eu mudaria apenas uma frase: “estou com você para o que der e vier”. Não que eu mudaria essa frase, mas faria uma ressalva. “Amor, se você quiser se recuperar, estarei contigo para o que der e vier, sempre!”




Só por hoje, ele está limpo há 6 meses e 4 dias. E por isso estou aqui, para o der e vier. Amo ao meu esposo. O admiro. Gosto do respeito e cuidado que ele tem comigo. E agradeço a Deus por ter conseguido passar pelos momentos de vale, sem deixar de amá-lo, e sem abandoná-lo.

Agora fica a questão: o que é abandonar?

Segundo o dicionário é deixar, é largar, é desprezar. E digo mais: é o sentimento de "não acredito mais em você. Você não tem jeito.” É perder a esperança e o amor pelo próximo. É negar ajuda a quem quer ser ajudado. E, às vezes, é desejar o mal.

Nunca abandonei ao meu esposo. Nunca deixei de amá-lo ou de orar por ele. E acho muito doloroso isso, porque por mais que a dependência química de alguém nos machuque, ela ainda é uma doença.

Mas, há um porém muito importante, eu nunca o abandonei, mas algumas vezes, precisei me afastar.




Conseguem perceber a diferença entre abandonar e se afastar?

Neste fim de semana, postei a seguinte frase em meu facebook: Que Deus multiplique as nossas forças e esperanças para que nunca os abandonemos... E que Ele também nos dê a sensatez para discernir a hora de nos afastarmos, e como nos desligarmos... Isso não é abandono, é apenas amor saudável.

Precisei me afastar para proteger aos membros da nossa família. Precisei me afastar, em uma tentativa desesperada de que ele buscasse ajuda. Precisei me afastar, mesmo querendo estar junto.

Entretanto, eu só consegui me afastar, quando foi necessário, por não me sentir culpada pela doença dele, e por perceber, por meio dos grupos de apoio, que me afundar junto, não salvaria ninguém; e que eu não tinha o controle sobre o outro.

Recebo muitos e-mails, muitas mensagens recheadas de culpa. 

Muitas de nós perdemos a noção de onde termina a nossa vida e onde começa a vida do outro. É uma confusão dentro de nós. Essa é a nossa doença. E precisamos nos cuidar, nos tratar e nos sarar, para então ajudarmos ao outro.

Meu maridão hoje está bem. Ele tem algumas características que não gosto, e tem um milhão de outras que gosto, e eu o amo. Entretanto, se hoje estamos vivendo isso, não pensem que 100% é resultado do que eu plantei, não não.

50% é mérito meu, mas 50% é mérito dele.

Achei muito bacana algo que li no face de uma amiga: “O amor tudo suporta, mas não aceita tudo.”

É verdade. O meu amor pelo meu esposo suportou tanta coisa, e o amor dele por mim também. Mas, nós não aceitamos tudo um do outro.

Aceitamos tudo do outro quando não amamos a nós mesmos. E quando não amamos a nós mesmos é muito difícil ser feliz em um relacionamento, seja com um adicto ou com um não-adicto.




Então a lição nº 01 que aprendi nesses quase sete anos é “amor próprio”. E, claro, amando a mim mesma, tenho aprendido a amar na medida certa ao homem mais lindo desse mundo: meu maridão!

Beijos, queridas(os)! Cuidem-se!


P.S: Amigas(os), hoje respondi aos últimos e-mails que constavam sem resposta. Se, porventura, não respondi ao seu e-mail, me reenvie. E peço que evitem me enviar mensagens inbox no facebook, pois aproveito o horário de almoço para responder aos e-mails, e no meu trabalho o facebook é parcialmente bloqueado. Então, a melhor forma de entrar em contato é pelo e-mail polyp.escritos@gmail.com.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

As Quatro Estações!



Nesta semana chegou a primavera. Estação associada às flores, cores e amores. Ela está entre o inverno e o verão.

Sinto saudades das estações climáticas dos Estados Unidos. Estações bem definidas, e cada uma mais linda que a outra: o inverno bem frio com muita neve; a primavera cheia de flores, pólen no ar e clima agradável; o verão com muito sol e calor; e o outono, com folhas coloridas caídas pelas ruas...

A vida também é assim.
Fases, momentos... estações.

Que estação você está vivendo agora?
Talvez seja um inverno, tão frio, escuro e solitário. Doloroso.
Ou quem sabe seja uma primavera. Um momento de beleza, serenidade, amor e paz.
Pode ser que esteja vivendo um verão. Extrema alegria, conquistas e euforia.
Ou, quem sabe, esteja passando pelo outono, momentos de reflexão, de “troca de folhas”, de renovação.

Não importa muito a estação em que você está. O que importa mesmo é o aprendizado que você levará dela. Afinal, em alguns dias ela terá passado, e a oportunidade do aprendizado também.

Com o tempo, percebi que...
Não dá pra fazer um boneco de neve, a não ser no inverno.
Não dá pra sentir o cheiro das flores nas ruas, a não ser na primavera.
Não dá pra curtir a praia, a não ser no verão.
E não dá pra namorar em meio ao perfeito cenário de folhas e galhos secos, a não ser no outono.

Queridos, não permitam que suas vidas passem em branco, distraídos com a estação alheia.

Que tal parar com essa saudade de estações passadas? 
Que tal parar com essa ansiedade, e com esse medo da estação que virá?

Viva o HOJE.

Falando de mim, os dias em que mais aprendi a ter fé e esperança, foram naqueles mais difíceis e dolorosos.
Nos momentos de extrema saudade, foi construído um amor mais sólido.
Nas adversidades, fortaleceu-se a compreensão.

Bom, hoje estou vivendo uma mistura de primavera com outono...

Meu esposo está limpo há 5 meses e 29 dias. Não sei exatamente a estação em que ele está. Ele oscila de humor, em alguns dias está chato, em outros está um fofo. E eu o amo, exatamente assim. E o admiro por sua luta e conquista.

Mas, como disse acima, quanto a mim, estou vivendo uma mistura de primavera e outono: fase de mudanças, de novos projetos, de alegrias, de sonhos, de muito trabalho... de vida normal.

Já passei por muitas tempestades e por muitas noites escuras, bem como por muitos momentos de céu azul e de paz. 

E hoje percebo que cresci com tudo isso.

E cresci inclusive no aprendizado do amor. De um amor equilibrado, de um amor sóbrio, que envolve ao meu esposo, a mim mesma, e aos demais membros da família.

E cresci também na fé, na confiança e na gratidão a Deus, que esteve e está comigo em todas as estações, sempre.

Ainda há muito a aprender, e muitas estações a viver, mas prefiro me concentrar no hoje, no que acontece agora, por isso sigo vivendo intensamente cada 24 horas...

Grande beijo a todos!
Poly


Inverno de 2007. Maryland, EUA.

Dá pra ser feliz, mesmo no inverno!!!






sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sobre a Dependência Química!



Boa tarde, queridos!

Como disse anteriormente, estou participando do curso de Prevenção do Uso de Drogas promovido pela UFSC e SENAD.

Vi um assunto interessante que poderá ajudar a outros, então estou aqui para repassar a informação recebida.

Vamos entender um pouco sobre a oscilação de pensamentos/sentimentos do nosso amado dependente químico?

O dependente químico passa por estágios de motivação, não necessariamente sequenciais, podendo passar por eles várias vezes durante o tratamento.

Fiz um resuminho abaixo, das características, com as ações sugeridas a quem quer ajudar ao dependente químico.

Os estágios são:

Pré-contemplação – Nesse estágio ele não percebe os prejuízos relacionados ao uso de drogas. Segue com o uso e não pensa em parar. O que fazer? Convidá-lo à reflexão, evitar confrontação, tentar remover barreiras ao tratamento.

Contemplação – Nesse estágio ele percebe os problemas relacionados ao uso de drogas, mas não toma nenhuma atitude para parar, embora pense em parar. O que fazer? Discutir os prós e os contras do uso. Mostrar a impossibilidade entre o uso de drogas e os objetivos de vida, fazendo-o refletir.

Preparação – Nesse estágio ele ainda usa drogas, mas já fez tentativa de parar por pelo menos 24 horas, no último ano. Pensa em entrar em abstinência nos próximos 30 dias. O que fazer? Remover barreiras ao tratamento, ajudar ativamente e demonstrar interesse e apoio à sua atitude.

Ação – Nesse estágio ele conseguiu parar completamente com o uso nos últimos seis meses. O que fazer? Implementar um plano terapêutico.

Manutenção – Nesse estágio o dependente está sem uso de drogas há mais de seis meses. O que fazer? Colaborar na construção de um novo estilo de vida, mais responsável e autônomo.

Recaída – Retornou à utilização da droga. O que fazer? Reavaliar o estágio motivacional, para verificar para qual estágio ele foi.

Lembrando sempre de usar a empatia e a assertividade nos diálogos. Ok?


Além disso, como saber se nosso familiar precisa ou não ser internado?

A internação é indicada quando:

- Apresentar estados psicóticos graves, ideias suicidas ou homicidas, debilitação ou abstinência grave;
- Em caso de complicações orgânicas devido ao uso ou à abstinência de drogas;
- Dificuldade para cessar o uso de drogas, apesar dos esforços;
- Ausência de adequado apoio psicossocial que possa facilitar o início da abstinência;
- Necessidade de interromper uma situação externa que reforça o uso da droga.

Outras formas de tratamento/ajuda:

- Grupos de autoajuda: Narcóticos Anônimos e/ou Alcoólicos Anônimos: Pesquisas comprovam que os programas de recuperação desses grupos costumam ser bem-sucedidos.

- Comunidades terapêuticas

- Medicações (prescritos por Psiquiatra)

- Tratamentos Psicossociais – Procure o CAPSad da sua cidade para mais informações.

- Terapias


Bom, amigos, este blog continua tendo como foco os familiares de dependentes químicos, e a nossa própria recuperação. Entretanto, minha intenção com esse Post é trazer um pouco mais de informação sobre a dependência química, de forma técnica, e não na forma emocional que nós, familiares, enxergamos.

Sabemos que a chave para o dependente químico se recuperar é o querer dele. Mas, se queremos ajuda-lo, precisamos conhecer um pouco sobre essa doença.

Por outro lado, não nos esqueçamos que nós, familiares, podemos apenas AJUDAR, APOIAR, ESTIMULAR, e só. O papel principal cabe ao dependente. O querer parar deve ser dele, e a responsabilidade também.

Além disso, vale frisar que se queremos realmente uma família saudável, precisamos buscar ajuda para nós mesmos, para vencermos a codependência.

Somente assim poderemos oferecer uma ajuda eficaz a quem nos solicita, sem esquecermos de viver a nossa própria vida.

Fonte das informações: Adaptadas do Manual de Prevenção do Uso de Drogas – Capacitação para Conselheiros e Lideranças Comunitárias – 5ª Edição.


Bom fim de semana!





O peso da culpa!



Bom dia!

Tudo bem com vocês?

Por aqui, as coisas estão entrando nos eixos. Tive uma semana difícil em razão de uma virose que o meu bebê pegou, mas já está passando, graças a Deus.

Hoje eu gostaria de falar um pouco sobre uma vilã perigosa: a culpa.

Ontem fiz um comentário em outro blog, em tom de brincadeira, dizendo que sou filha de adicto, mas que mesmo assim agradeço muito o fato de ter nascido. Então, duas leitoras responderam ao comentário, fazendo perguntas sobre o meu pai, ou afirmativas.

Diante disso, fiquei pensativa, me lembrando dele e de sua história.

Meu pai conheceu as drogas aos 17 anos, por curiosidade, “coisa de adolescente”. Começou com a maconha (como a grande maioria), mas ele nunca mais conseguiu parar. Seu grau de dependência era enorme, e à época, as internações eram feitas em sanatórios psiquiátricos. Muito triste.

Por fim, ele já havia usado de tudo, misturado à bebida, e acabou ficando de vez fora da realidade, falava coisas sem sentido, e até mesmo meus remédios de asma ou cólica, ou frascos de perfume precisavam ser escondidos para que ele não os usasse.  

Ele era um homem doce. Manso. Carinhoso... Mas, infelizmente não me lembro dele sem o efeito do uso de drogas.

Minha família nunca o abandonou. Entretanto, todos estavam adoecidos demais. Principalmente os meus avós, que conviviam com ele diariamente. Meus avós eram codependentes, mas nem sabíamos o que isso significava. Eles se sentiam extremamente culpados pela doença do meu pai.

Quando o meu pai faleceu, de overdose, aos 51 anos, meus avós já eram velhinhos, e foi tudo muito doloroso. Minha avó não conseguia enxergar a realidade, e se perguntava por que tinha ido o seu filho, e não ela.

Após a partida do meu pai, eles se tornaram cabisbaixos, introspectivos, e adoeceram, vindo a falecer poucos anos depois.

Quando estava doente, minha avó, em seus delírios, perguntava por que meu pai não estava indo visitá-la, pois ela sentia saudades.

Eles se sentiam culpados.

Doze anos depois, me casei com um adicto. E só então passei a ter consciência do que é a dependência química realmente. E pude sentir na pele essa culpa que meus avós sentiam.

Essa culpa é uma característica da doença da família: a codependência.

Quantos de nós somos levados pela culpa?

“O que eu fiz de errado para que ele recaísse?” “O que eu deixei de fazer para que ele ficasse bem?” “Por que não consigo fazê-lo parar com as drogas?”

Quantos de nós já tivemos esses tipos de pensamentos?

Queridos, a dependência química é uma doença. Se é uma doença, não existem culpados. Ponto!

Por outro lado, cabe ao dependente químico adotar medidas e atitudes para sair disso, e ter uma vida normal. Mas, a responsabilidade é dele!

Qual é o nosso papel? Apoiá-los na decisão de deixar as drogas. Compreendê-los. Impor limites. E, sobretudo, viver nossa própria vida, nos amar, e mostrar na prática como é possível viver feliz sem drogas.

Quando eu me sentia culpada pelas recaídas do meu esposo, era aberta uma brecha para que a doença dele me manipulasse. Eu fazia verdadeiras insanidades, e hoje sei que não era para ajudar ao meu esposo, mas sim para me livrar dessa culpa que eu sentia. Era difícil dizer-lhe não. Não conseguia focar em mim. Não conseguia seguir adiante com a minha vida. Não conseguia ser assertiva.

É, eu também não me permitia ser feliz, por me sentir culpada pelo uso de drogas do meu esposo.

Nos grupos de apoio e nas terapias, fui me livrando desse peso.

Eu repetia para mim mesma, diariamente: "não sou culpada, não tenho o controle, e não posso curar". São os três Cs que aprendi no Nar-anon, e que demoraram um pouco até fazerem parte da minha realidade.

A responsabilidade sobre a vida do outro, a culpa pelas decisões do outro são fardos pesados demais para levarmos nas costas. Livre-se desse peso.

O seu familiar dependente químico não deve ser levado em suas costas, mas apenas no seu coração.

E foi esse lugar que reservei ao meu esposo: o meu coração. Mas, a responsabilidade pela vida dele, e por suas escolhas cabe a ele. Isso eu não levo mais.

“A culpa embaça a nossa visão e nos impede de ter uma real percepção da realidade, e assim, é impossível ajudar quem quer que seja.” (livro Amando um Dependente Químico)

Grande beijo!

domingo, 15 de setembro de 2013

A sexta-feira, 13!


Bom diaaa!

Vou aproveitar que acordei antes das crianças para contar a vocês o que aconteceu na ultima sexta, porque foi muito engraçado.

O maridão estava de folga do trabalho, e passou na hora do meu almoço, para darmos uma “escapadinha”.

Almoçamos juntos. Namoramos. Passamos momentos bem agradáveis.

Às 14 horas, estávamos de volta. Ele me disse que ficaria por ali, em um comércio perto do meu trabalho, me aguardando sair, para irmos juntos para casa.

Ok. Voltei para o trabalho feliz da vida. Foi uma tarde bem corrida, cheia de afazeres.

No horário da minha saída, desliguei o computador, tranquei as gavetas, peguei minhas tralhas (livros, biscoitos, cereais, vasilhas, etc), me despedi dos colegas, e saí.

Olhei para um lado. Olhei para o outro. Cadê?

Nem sinal.

Esperei por dez minutos. Liguei, mas deu na caixa de mensagens. E nada.

Ao olhar novamente no relógio, já eram 17:15 horas, ele sempre chega antes do horário e me espera na porta. E o celular está sempre ligado. Ou seja, pensei que fosse uma recaída.

Sabe, amigos, abrindo um parêntese na história, ultimamente tenho levado uma vida verdadeiramente normal. Não tenho pensado em recaídas. Não tenho me lembrado de drogas, a não ser para fazer o meu trabalho. Mas, no dia a dia, estou tranquila. Acredito que isso tem se dado pelo fato de estar com a cabeça bem ocupada com coisas minhas: estudando para concurso, fazendo dois cursos, trabalhando, projetando o terceiro livro que será lançado em março, esperando o resultado da Editora, desenvolvendo um projeto no trabalho (ansiosa, reunião na segunda-feira!), preparando palestra para o dia 05, cuidando dos meus filhotes, minha casa... Ah, e uma coisa bacana também é a reeducação alimentar que estou fazendo: a cada três horas preparo algo saudável, com carinho, pra mim. Ou seja, enfim, estou vivendo a MINHA VIDA, e não sobra tempo. Então, quando penso em meu marido é com saudade e carinho, só.

Mas, na sexta, diante da situação, pensei mesmo que fosse uma recaída.

Em um primeiro momento, veio aquela sensação estranha, turbilhão de emoções, tentando confundir meus pensamentos.

Respirei. E me lembrei da oração da serenidade. Naquele momento, eu não poderia mudar nada em relação ao meu esposo. Então o que eu poderia mudar?

Voltei para o trabalho. Guardei minhas bugigangas no armário, para facilitar de pegar o ônibus, aliás, seriam dois ônibus.

Fiquei no ponto, aguardando. Claro que bateu uma tristeza. Eu o amo. E sei que as recaídas impedem a realização dos seus sonhos. Ele fará uma prova de concurso no mês que vem, está super animado. Ele está forte, bonito, saudável. Está se desempenhando bem no trabalho. Enfim, não queria que ele perdesse tudo isso novamente.

Mas, por outro lado, dessa vez, aquele desespero que parecia me dizer que a vida tinha acabado, eu não senti.

Peguei o ônibus. Sentei-me. E fiquei ali, conversando comigo mesma.

- Puxa, tivemos momentos tão agradáveis hoje, por que ele fez isso? – A Poly codependente dizia.

- Poly, não cabe a você saber disso. Ele fez a escolha dele, e só. – A Poly razão respondia.

- Acho que vou chorar. – A Poly codependente pensou.

- Nada de choro. Pegue o celular e avise à babá que você se atrasará. E chegue bem em casa, seus filhos te esperam. – A Poly razão disse.

“Deus, dá-me serenidade para aceitar o que não posso mudar, coragem para mudar o que posso, e sabedoria para distinguir o que devo aceitar e o que devo mudar. Senhor, e proteja ao meu esposo onde ele estiver...” Orei.

Segui em paz, apesar de triste, olhando o caminho pela janela.

Celular tocou.

- Amor. – Era ele.

- Ei, vamos pra casa? – Eu disse.

Ouvi muitos risos do outro lado, seguidos de um: - Amor, mil perdões! Onde você está?

Percebi que a voz dele estava normal, sem alterações.

Desci na rodoviária, onde ele me buscou.

Gente, foi o seguinte: meu amadíssimo esposo, após me deixar no trabalho, tomou dois copos de caldo de cana (que ele ama!). Após um plantão de 12 horas, mais a nossa saidinha, mais a glicose do caldo de cana, não deu outra, ele dormiu, apagou! O carro havia ficado do outro lado do estacionamento, e eu não vi. E o celular dele tinha acabado a bateria.


Acho que era um teste pra mim... Risos.

Quando ele acordou, já eram 17:40 hs! Num sobressalto, ele foi até o banheiro do comércio, conectou o celular no carregador, e me ligou.

Quando ele chegou na rodoviária, com aquele cabelo em pé, e rosto marcado, de tanto dormir, eu não sabia se brigava, ou se beijava...

Pegamos um engarrafamento enorme até chegar em casa. Rimos muito.

“Ô, minha macaquinha, me desculpe...” (é, ele me chama de macaquinha, mas essa é outra história, depois eu conto... risos).

Deu tudo certo, graças a Deus. Voltamos para casa. Cuidamos dos nossos filhos. E dormimos em paz.

Nossa felicidade é resultado 50% das minhas atitudes, e 50% das atitudes dele... E 100% do cuidado de Deus sobre nós.

E assim chegou ao fim essa assustadora sexta-feira, 13! haha

Nossa vida não é perfeita. Ele tem defeitos. Eu tenho defeitos. Temos desafios diários, como qualquer casal. Mas, com compreensão e amor, temos construído a nossa felicidade. E em dezembro, se Deus permitir, completaremos 7 anos de casados!

Estou orgulhosa das vitórias dele. E estou feliz com as minhas vitórias.

Beijão, amigos!



Feliz domingo a todos!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O primeiro passo para ser/fazer diferente!



Todos nós temos sonhos, sempre.

Algumas temos o sonho da maternidade, o sonho de ver o filho crescer e se desenvolver saudável, concluir sua faculdade... ser feliz.

Outras temos o sonho do matrimônio. De encontrar aquele que nos faça companhia, nos entenda e ame, enfim, aquele para compartilhar dos nossos momentos, até o fim.

Claro que nos nossos sonhos não estão incluídas as possibilidades do nosso familiar se envolver com drogas, e se tornar um dependente químico.

Então, quando tomamos conhecimento dessa realidade, leva tempo para a “ficha cair”.

Vemos nosso familiar se afundando na insanidade, totalmente controlado pelo desejo de usar drogas, mas ainda assim, “mascaramos” essa realidade, e continuamos agarradas aos nossos sonhos iniciais.

Enxergar a realidade como ela é, dói, mas traz benefícios. Por outro lado, viver de sonhos irreais, e de consequentes frustrações acaba nos adoecendo.

A realidade é que a dependência química é uma doença crônica, e temos alguém amado portador dessa doença. E agora?

Vamos ficar na negação? Vamos viver de ilusões? Vamos nos entregar ao desespero? Vamos desistir da vida?

Não. Temos caminhos a trilhar. Embora não seja fácil, podemos sim ter uma vida normal, e feliz, apesar dessa dor.

E, na minha experiência, isso tem se dado por meio do “desligamento com amor”.

Amo ao meu esposo, quero o seu bem, me preocupo e me importo com ele. Vivemos muitas coisas juntos, e ele é o pai dos meus filhos, o homem que escolhi para amar e para compartilhar minha vida.

Entretanto, diante da sua doença, acabei adoecendo também. Eu estava doente de um amor desmedido para ele, e de falta de amor para mim mesma. Eu estava enlouquecendo na tentativa de salvá-lo da dependência química. Eu estava me perdendo, morrendo pouco a pouco.

Um dia, em uma sala de grupo de apoio, ouvi falar pela primeira vez sobre o Desligamento. Posteriormente, li sobre esse assunto em alguns livros e artigos. E, pouco a pouco, dia a dia, tenho me desligado.

Desligar-se não é deixar de se importar com o outro. Mas, é aprender a amar na medida certa. É aprender a se envolver, com limites, nos assuntos alheios.

Quando consigo me desligar dos assuntos que dizem respeito ao meu esposo, permito que ele se motive a resolver seus próprios problemas, e o deixo livre para fazer suas escolhas, ou seja, para viver.

Enquanto nós, familiares, estivermos nos ocupando com a vida do outro, e fazendo planos de cuidado para a vida dele, ele mesmo não precisará ter responsabilidades.

Cada um é responsável por si mesmo. Cada um tem sua própria vida. Podemos ajudar ao outro, claro, se ele pedir, mas deixar de viver nossas vidas, para viver a vida do adicto, é “matar” duas vidas ao mesmo tempo.

O desligamento é o início da mudança, o primeiro passo. Quando conseguimos nos desligar, passamos a olhar mais para nós mesmos, e para as nossas próprias questões. E é assim que estou conseguindo, um dia de cada vez, dar passos na minha própria recuperação, e cultivar progressos positivos em minha vida.

Desligar-se não é fácil, pois, após anos ao lado de um adicto, adquirimos o hábito de viver tentando controlá-lo. Então, para conseguirmos uma nova maneira de vida, precisamos cultivar novos hábitos.

Está pensando demais no outro?

Ocupe sua mente com algo novo. Se não consegue pensar em você, pense em outras coisas, até conseguir se concentrar em você mesmo. Programe-se com atividades suas, e que te façam bem.

E antes de decidir fazer alguma coisa (como um telefonema, por exemplo), sonde seu coração e mente: “estou fazendo isso por amor, ou para ter o controle?” “Isso é responsabilidade minha ou do outro?” “Quero fazer isso, ou não?”

É hora de nos lembrarmos do que foi dito pela Melody Beattie: “perceba a sua mais importante e, possivelmente, mais negligenciada responsabilidade: cuidar de si.”

Quanto ao outro, podemos amar, aceitar, e orar por ele. Só.

Quanto a nós, é hora de nos cuidarmos, e percebermos que não somos eternos, nem super-heróis.

Meu esposo está limpo há 5 meses e 17 dias, e a regra do desligamento continua valendo... Aliás, sempre vai valer!

Quando nos desligamos, duas vidas (ou mais) voltam a exercer os seus papéis...

Desligar-se é a maior prova de amor que você pode dar ao outro e a si mesma!









quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O herói sem nome!

Essa história mexeu tanto comigo, que mesmo tendo acontecido há 12 dias, vale a pena relatar...


Felipe, um jovem de 22 anos, portador de problemas psiquiátricos, desapareceu no dia 09 de agosto. Seria o seu primeiro dia de aula na faculdade de Educação Física, mas ele não voltou para casa. A família estava em desespero, pois o jovem precisava tomar seus remédios controlados. Era possível ver em todos os pontos de Brasília cartazes com a foto do rapaz e o telefone para contato.

O caso comoveu a cidade. Onde estaria Felipe?

No dia 22 de agosto, Felipe foi encontrado. A primeira reportagem que li sobre o caso dizia que ele havia sido encontrado por um “morador de rua”.

"Gente, mas por que não falaram o nome do rapaz, afinal, ele é um herói!” Indaguei.

Quem seria esse herói sem nome que encontrou Felipe?

Esse “morador de rua”, foi pedir uma informação para Felipe, que dormia em uma caixa de papelão, e o reconheceu. Então ele avisou aos funcionários de uma autoescola, próxima ao local, para que o rapaz não fugisse.

Ele foi até uma feira próxima, olhou a foto do rapaz no cartaz, e não teve dúvidas, era mesmo ele. Então, por meio de uma funcionária da autoescola, avisou à polícia e à família.

O final da história de Felipe havia sido feliz...


Felipe, ao lado da família.

Mas, quem era esse herói sem nome?

Seu nome é Adeilson Mota de Carvalho. Dependente químico.

Se a mãe de Felipe passou tristes noites sem notícias do filho por doze dias, a mãe de Adeilson, do Pará, já não sabia mais o que pensar, sem notícias do filho há cinco meses...

Adeilson não quis receber recompensa em dinheiro da família de Felipe, mas recebeu um presente muito mais valoroso: a oportunidade de se tratar.

Ele foi internado em uma Clínica, e está recebendo o apoio da família de Felipe para se recuperar.


O seu nome é Adeilson!

No telefonema à sua mãe, Adeilson, o herói, pergunta: “mãe, você está orgulhosa de mim?”

“Sim, filho, estou muito orgulhosa.”

Adeilson encontrou Felipe.

E a família de Felipe encontrou Adeilson.


E torço para que esse final seja feliz para todos. E que Adeilson nunca mais perca o seu nome, e nem se esqueça do que ele é capaz...

Escolhas e renúncias!



O despertador toca.

Podemos escolher dormir mais cinco minutinhos, e chegar atrasados, ou levantar na hora, apesar do sono.

Vamos tomar o café da manhã.

Podemos escolher o mamão com granola, ou dois pães com ovos e bacon, com as consequências para a nossa saúde e peso.

Quando pequenos, a mamãe nos coloca para escolher o brinquedo que queremos ganhar no Natal: a boneca X ou a boneca Y.

E vamos crescendo, e as escolhas vão aumentando.

Escolhemos a roupa a vestir, o estilo, o curso da faculdade, a cor do cabelo, a profissão, os amigos, o namorado...

Vamos a um restaurante e lá está o cardápio, cheio de opções.

Escolhas. Escolhas.

Sempre tive uma grande dificuldade em escolher. Indecisa. Confusa. Medrosa.

Se olharmos bem, escolher tem o seu lado bom, afinal, é o indício de liberdade. Somos livres para optar por um ou por outro. Ou seja, não há imposição.

Mas, pelo lado ruim, a escolha acaba gerando ansiedade, porque existe uma renúncia por trás de cada escolha. Não dá pra se ter tudo na vida. Então vem o medo de escolher errado.

O dependente químico pode escolher o prazer momentâneo proporcionado pela droga, e arcar com as drásticas consequências.

Ou ele pode escolher o caminho da recuperação, renunciando o prazer da droga, mas vivendo a vida normalmente com seus sabores e dissabores.

E nós, familiares?

Vejo muitos relatos de familiares que se sentem como vítimas da vida, como se não lhes fosse permitido fazer escolhas. Mas, ainda que você não faça escolhas para a sua vida, isso já é uma escolha: a escolha de não escolher.

Podemos escolher deixar de viver, abandonar nossas vidas, e passarmos a ser apenas “sombras” do adicto. Podemos escolher nos entregar à codependência, não buscar ajuda, viver na tentativa de controlar o uso de drogas do nosso familiar. Podemos escolher abrir mão do amor próprio, e viver como mártires. Sim, podemos escolher viver assim, é um estilo de vida.

Mas, eu, particularmente, não era feliz vivendo assim.

Então fiz novas escolhas para mim. Veja bem, só podemos fazer escolhas para nós mesmos, e não para o outro. Ok?

Escolhi a felicidade e a paz de espírito. Escolhi frequentar grupos de apoio, e ler muitos livros que falavam sobre a minha doença: a codependência. Escolhi voltar a viver. Mas, engana-se quem pensa que essa escolha foi fácil, afinal, tive que fazer renúncias.

Renunciei a autopiedade. Renunciei a vontade de viver a vida do outro, de sarar o outro, enquanto escondia meus próprios defeitos embaixo do tapete. Renunciei o desejo de não fazer nada, de me entregar à dor, de desistir de mim mesma. Renunciei o título de coitadinha, que por vezes era tão confortável. Enfim, foram muitas as renúncias. Mas, não me arrependo das escolhas que fiz.

Escolho viver um dia de cada vez, escolho o só por hoje, escolho olhar para mim mesma...

Lembre-se: não existem escolhas sem renúncias. Mas, sempre existem escolhas, e claro, também existem as consequências que acompanham cada escolha.

E você, que escolhas fará para a sua vida hoje?





Alguns leitores me enviaram mensagens, preocupados por minha ausência... Está tudo bem, queridos! Meu esposo segue limpo há 5 meses e 9 dias, graças a Deus, e essa tem sido a escolha dele. E a minha escolha tem sido a de viver uma vida normal, independente dele...

Aconteceram tantas coisas nesses dias... Ontem, por exemplo, minha filha mais velha fez 14 anos. Fizemos uma festinha surpresa na aula de Ginástica Rítmica, e ela ficou radiante de felicidade... Tenho estudado muito, trabalhado muito, cuidado dos meus filhos... Além de estar cuidando mais da minha saúde. Iniciei uma reeducação alimentar no dia 11 de agosto, e o resultado tem sido muito positivo, não só no meu corpo, mas também na minha disposição.

É isso... Vida normal, só por hoje.

Grande beijo!
Poly.

P.S.: Vocês gostaram da "nova cara" do Blog???