sábado, 22 de junho de 2013

Felicidade: Uma questão de escolha!



Por Polyanna P.


A vida é simples, e é gostosa de ser vivida. E ser feliz é algo que está ao alcance de todos. Não importa a classe social, a idade, a profissão, nem mesmo importa se há um dependente químico em sua família, você pode (e deve) ser feliz.
Felicidade é uma questão de escolha. Essa frase até parece um clichê, mas é real. Tenho aprendido, a cada dia, a fazer essa escolha para a minha vida, buscando essa felicidade dentro de mim, e não no que se passa ao redor, esse é o segredo.
Passei um tempo da minha vida pensando que a felicidade era somente para os outros, afinal, eu era uma filha de dependente químico, havia perdido meu pai para as drogas numa overdose, e vivia afundada nas dores de ser casada com um dependente químico. Eu havia escolhido a autopiedade para a minha vida, e havia descartado a possibilidade de ser feliz.
Eu atribuía a minha felicidade aos outros, e principalmente, ao meu esposo. “Se ele ficasse limpo, eu seria feliz”. Minha relação codependente com ele, fazia com que eu sempre estivesse procurando fora de mim razões para ser feliz ou infeliz. Na verdade, eu havia colocado toda a responsabilidade da minha felicidade sobre ele. Se ele recaía, eu me sentia triste. Se ele voltava feliz do trabalho, eu ficava feliz. Se ele estava mal humorado por sua abstinência, eu me sentia triste de novo. Se ele estava carinhoso, novamente me sentia feliz.
Ele faltava ao trabalho por causa das drogas, eu faltava por causa dele. Ele não estudava, eu também não. Alguns dias ele não levantava da cama, outros dias era eu quem o fazia. Ele era impaciente, e eu mais ainda. E na minha ignorância, eu sempre pensava: “Se ele mudasse, tudo seria diferente”.
Não conseguíamos sair desse círculo. E não era possível saber quem estava mais doente, ele ou eu.
Diante da inconstância de um dependente químico, eu vivia em um sobe e desce desgastante. E ainda o culpava por minha oscilação de humor e pela raiva que eu sentia.
Queridos leitores, não somos sombras e tampouco somos termômetros para vivermos de acordo com o que se passa ao redor. Não precisamos condicionar nossa felicidade à felicidade do outro. Isso não é egoísmo, claro que não!
Um dia dei o meu grito de independência. Vi que minhas emoções e felicidade são responsabilidades somente minhas.
Se meu esposo não está bem, ofereço ajuda e só, mas não quer dizer que eu tenha que ficar de luto com ele.
A vida passa tão depressa. E compartilhar das dores e conflitos de um adicto nos deixa fragilizados e incapazes de lhe ajudar quando necessário.
            Um dia, em um grupo de apoio a familiares, ouvi uma frase tão simples, mas que me fez refletir, acordar e mudar de atitude: Que comece por mim!  Por meio dessa frase percebi que eu só poderia mudar a mim mesma, e que o primeiro passo para a ação deveria ser meu. A partir daí, pude saltar do banco do carona e assumir a direção da minha vida. Era muito angustiante viver esperando uma ação do meu esposo, para então reagir. Agora eu poderia sim agir.
E consegui ser feliz, mesmo quando ele não estava bem. Não era fácil, mas era possível, e era a melhor forma de viver ao lado de alguém amado na adicção ativa.
E foi assim que consegui reconhecimento profissional, concluí minha Pós-Graduação, curti os meus filhos e escrevi dois livros. Sobretudo, foi assim que trouxe alegria para o meu coração e paz para a nossa casa, mesmo em períodos de crise.
Percebi que não era sensato esperar uma mudança de atitude de alguém que estava doente, para então mudar minha vida ou meu estado de espírito. Tentei fazer o contrário. Mudei primeiro minha vida e meu estado de espírito, e conseqüentemente, tudo mudou ao meu redor.

“... Me recordo com detalhes do quanto a codependência me consumia. Eu estava totalmente mergulhada no desespero. Quanto mais eu tentava mudar o comportamento destrutivo do meu dependente químico, mais eu me destruía. Eu buscava manipulá-lo, controlá-lo, ignorá-lo, magoá-lo com palavras. Os gritos, choros e chantagens emocionais eram freqüentes. Nada dava certo. Eu não conseguia fazê-lo parar. Eu estava me perdendo. A dor, o medo, a raiva, a pena e a insanidade estavam a me consumir. Hoje, ao olhar para a minha casa, embora meu esposo esteja limpo há apenas dez dias, vejo um cenário de paz. Certamente me tornei uma pessoa melhor. Estou aprendendo e buscando minha própria recuperação a cada dia. Hoje ainda sofro, mas sou eu quem controlo a dor. Ela não me controla mais. Aquela vida infernal criada por mim mesma deixou de existir. Hoje minha felicidade não é responsabilidade do meu marido, mas sim, minha. Somente minha.” (Amando um Dependente Químico – Dias de Dor)

Se meu marido se deprime em seu aniversário, se algumas vezes ele recorre às drogas, se a adicção o domina, se minha mãe é ausente, se meu pai morreu no vício, se a violência cresce no mundo, se as coisas ao redor não são como eu gostaria, vejo minha impotência diante de tudo isso, e simplesmente aceito. Não há nada que eu possa fazer para mudar o que se passa ao redor. Não tem como dar um "jeitinho". Somente posso entregar Àquele que é Superior a mim: Deus. Então me solto dos problemas e entrego a Ele, e me sinto mais leve.
Não sou a responsável pelo vício do meu esposo, assim como não sou eu quem tem a fórmula para fazê-lo parar. Não tenho a solução para os problemas dos outros e do mundo. É doloroso aceitar isso, mas é necessário.
O que posso fazer é viver a minha vida, controlá-la, ser feliz, independente do que está ao meu redor. Porque, se tentar controlar a vida do outro, certamente a minha se desgovernará.
Posso amar verdadeiramente. Posso rezar por ele. E só. Mas, não dá pra deixar minha felicidade congelada, esperando o momento certo de ser feliz, quando tudo for perfeito. Enquanto isso, tem muita vida acontecendo.
Houve um tempo em que eu sonhava com nossa renovação de votos matrimoniais. Sonhava que quando fizéssemos nossas bodas, faríamos uma linda festa, na beira de um lago. Sonhava até mesmo com as flores naturais em meus cabelos, vestido branco simples, pés descalços. Sonhava que cantaríamos juntos a música Entre Eu e Você, do Kim. Sonhava que ele concluiria sua faculdade, seguiria carreira como Enfermeiro. Que ele passaria em um bom concurso público. Sobretudo, sonhava que ele nunca mais se drogaria e seria o marido mais carinhoso, presente e responsável do mundo. "E viveram felizes para sempre"!
Tudo isso se parece mais com um conto de fadas ou roteiro de novela. Hoje tento me livrar das expectativas fantasiosas, pois, com certeza, essas só nos trazem frustração. Não tenho o direito de fazer sonhos sobre a vida de outra pessoa. Tenho tentado ver a vida com os olhos da razão, de uma forma mais racional e real.
Meu marido é um adicto e sempre vai ser. Talvez ele nunca mais use drogas. Ou talvez volte a usá-las. Mas, independente disso, eu também tenho uma vida e é sobre essa vida que devem estar os meus sonhos e os meus desejos de conquista.
Hoje não rejeito mais a possibilidade de ser feliz. Na verdade, tenho guerreado bravamente por minha felicidade, lutando a cada dia contra a minha codependência.
Muitos familiares de adictos me perguntam, por meio do blog, o que podem fazer para ajudá-los a se recuperar. Digo que podemos amá-los e aceitá-los como eles são. Podemos apoiá-los na busca de um tratamento. Podemos impor limites à sua doença e permitir que eles arquem com as conseqüências dos seus atos insanos. Podemos trocar a raiva por compaixão, e as insanidades por serenidade. E, principalmente, podemos amar a nós mesmos, fazer coisas que gostamos, e ser felizes. Isso é verdadeiramente colaborar para o bem dos nossos amados dependentes químicos.
Então o que é preciso para ser feliz? Escolher a felicidade! E se permitir essa felicidade! Simples assim.
Por que alguns reclamam por causa da chuva que cai, enquanto outros a aproveitam para dançar pelas ruas molhadas? Uma questão de escolha. Felicidade vem de dentro. Quem escolhe ser feliz não se deixa contaminar pelas circunstâncias.
Há onze anos, sofri de depressão, e digo a vocês que não foram médicos, nem medicações, nem tratamentos que me fizeram sair dela, mas sim minha decisão. Escolhi a vida e a felicidade.
Não estou aqui para falar de teorias cheias de complexidade e longe da realidade. Estou aqui para relatar o que vivo. Amo um dependente químico, mas isso não me impede de ser feliz porque essa é a minha escolha a cada amanhecer.
A felicidade não está fora, mas dentro. Não está no que acontece ao redor, mas na mente e no coração.
Se você pegar um sapo e colocar em um caldeirão de água quente, ele vai pular rapidamente para fora. Entretanto, se você o colocar em um caldeirão com água fria, e for aquecendo a água aos poucos, o pobre sapinho ficará quietinho e morrerá cozido.
Conforme escrito no livro Sapos Fervidos ou Ossos Dançantes, de Antonio Braga, "a infelicidade simplesmente vai acontecendo, e sem que a gente perceba, isto vai se tornando um estilo de vida.”
Por favor, não se acostume com a infelicidade. Não se permita ser “cozido” pela codependência. Pule para fora! Reaja. Se permita ser feliz. Faça algo por você mesmo. Acredite, é possível.
Por que escolher viver na mágoa, no ressentimento, na dor, na autopiedade, ou seja, nos sentimentos negativos, quando é possível viver no perdão, na gratidão, no amor, na esperança e na felicidade?
Meu esposo é um adicto que em momentos de crises faz coisas inacreditáveis. Tenho o direito de ser infeliz, certo? Errado.
Tenho o direito e a obrigação de ser feliz mesmo assim. Sabem por quê? Porque seria muita ingratidão da minha parte fechar os olhos para tudo de bom que tenho em minha vida. E felicidade é simplesmente isso, gratidão pelas coisas boas e a certeza de que Deus está cuidando daquelas que não são tão boas.
Não se esqueça de que a felicidade é um presente que você merece, mas que somente você pode dar a si mesmo, ninguém mais.

“Se você espera que a outra pessoa "conserte" sua
vida, ou seja a sua "melhor metade", está preparando um
fracasso. Precisa estar feliz com o que você é, antes de entrar
num relacionamento. Precisa ser tão feliz que nem precise de
um relacionamento para ser feliz."

(Dr. Wayne Dyer)




O texto acima foi publicado na Revista Anônimos, Ed. 18, deste mês.

Clique aqui, e acesse o site da revista. Existem muitas edições online, e principalmente muita ajuda para adictos e familiares!

Beijos.

5 comentários:

  1. Oi Polly, cada vez que leio o seu blog tenho mas forças pra lutar contra a adicçao do meu marido.....

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  2. nossa... o que dizer?! Deus lhe abençoe e lhe dê forças! Aqui fico sem palavras...........

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  3. Meu Deus, como é difícil vencer a codependência! Mas suas palavras me fortalecem, me estimulam, me enchem de esperança! Vc é abençoada! Bj

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  4. Sou esposa de um dependente quimico. Todas as coisas relatada acima eu estou vivendo . Só me sinto feliz quando ele está limpo mas hoje quero dá o passo pra minha mudanças . Poly vc é uma vencedora e é espelhando na sua história q eu também vou vencer . Bjs Ivanete

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  5. Ontem descobri seu blog, li várias postagens e achei ótimo... Sou casada há 19 anos com um dependente quimico e acho que incrivelmente passamos pelas mesmas situações de desespero e desconforto com as nossas vidas. Pura insanidade mesmo. Ficamos co dependentes e queremos de todo jeito mudar e controlar nossos parceiros, e claro que não conseguimos. Isso nos causa uma dor insuportável e nos gera uma grande sensação de impotência. Meus dois primeiros anos de casamento foi muito bom. Viviamos bem, trabalhavamos e tinhamos de certa forma uma vida saudavel. Até que engravidei, e aí a vida rolou ladeira. Foram anos de total inferno, até que consegui adquirir um cancer de mama, que graças a Deus, hoje curada. E foi aí a minha hora de transformação e libertação, pois, percebi que se não fizesse por mim, ele também não iria fazer..Mudei radicalmente, porque compreendi que a minha vida não dependia dele pra nada. Eu tinha que fazer por mim e comecei a me tratar com mais carinho, mais amor, sem culpa e sem medo de ser feliz. Fiz todo meu tratamento com a ajuda da minha familia e amigos e claro sem a ajuda dele, que estava se afundando cada vez mais na droga. E hoje vivo assim, feliz a minha maneira, fazendo meu trabalho, cuidando daquilo que me cabe e me valorizando cada vez mais como pessoa. Se ele está no uso, vivemos cada um no seu "quadrado"....se precisar de mim, " tamu juntos ". Hoje ele está internado, já fazem 2 meses e continuo torcendo para que ele consiga se recuperar, mas não me agarro mais a expectativa da recuperação. Se der certo, bom pra ele, se não der a minha vida vai continuar em paz. E que assim seja. Só por hoje

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