sábado, 29 de junho de 2013

Luto!


Bom dia, queridas(os)!

Tudo bem com vocês?

Meu esposo segue limpo há 95 dias.

E, a cada dia, vejo o quanto tenho crescido, e principalmente o quanto tenho aprendido a enxergar a delimitação de onde termina a minha vida, e onde começa a dele.

Nesta semana, fiquei triste diante de três notícias arrasadoras, e queria partilhar com vocês.

Uma companheira, participante do nosso grupo virtual, estava à procura do seu filho, adicto, há mais de um mês. E, antes de ontem, ela nos relatou:

“Minha luta contra as drogas foi perdida. Meu filho foi assassinado. Tiraram ele de mim como se fosse um cachorro. Sumiram com o corpo para esconder as provas. Mas, Deus tem tanto amor que ouve nossas orações. Os assassinos foram presos, por roubo. E a polícia está terminando as investigações para ter provas que foram eles, e relatarem onde enterraram o corpo... Peço que orem para que esses assassinos falem, e paguem pelos vários crimes cometidos. Meu coração está sangrando, é uma dor que parece sem fim. Quero pelo menos enterrar meu filho e poder saber que agora ele está sob os cuidados do Senhor!”

Como não chorar diante da dor dessa mãe?! Querida E.T., que Deus conforte esse coração de mãe, enchendo de paz e de força, e que tudo se encaminhe bem ao menos para que justiça seja feita. Nem tenho palavras, mas deixo o meu abraço sincero...

Ontem, uma companheira (A.L.S.) me chamou no inbox do face, para me dar a notícia que ela havia recebido a pouco: seu ex-marido morreu na madrugada de ontem, supostamente por overdose de cocaína.

A jornalista Roberta Trindade postou o seguinte sobre o caso:

“Instrumentista (saxofonista e flautista), luthier e professor, o músico R.S., 53 anos, morreu esta madrugada no Motel Calypso, na Estrada do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio.

Funcionários do motel contaram que ele chegou ao estabelecimento por volta das 2h desta sexta-feira, dia 28 de junho, e que pediu a conta cerca de 40 minutos depois.

O gerente administrativo do motel contou que ele saiu do apartamento totalmente transtornado e alterado, chegando a quebrar alguns objetos e que precisou ser contido por prestadores de serviço.

O músico ainda arrombou a porta do almoxarifado, caindo em seguida e permanecendo desacordado. Bombeiros foram chamados e quando chegaram ao endereço constataram que ele estava morto. Registro na 42ªDP.

Além de ser um profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de corda, R.S., como instrumentista, participou da trilha sonora das novelas "Direito de amar" e "Chocolate com pimenta" (Rede Globo).

Ele também assinou a direção e a produção musical do CD do espetáculo "Nos embalos da fama", de Milton Prado e atuou como diretor musical, músico e arranjador, no espetáculo "Rio Jazz", do coreógrafo José Roberto Ferreira.

Além disso, participou como solista convidado da inauguração do Memorial Tom Jobim, em 25 de janeiro de 1997, no horto do Jardim Botânico, no Rio.

Ao longo de sua carreira atuou com vários artistas - entre eles, Cidade Negra, Marvio Ciribelli, Paralamas do Sucesso, Elza Soares - e foi professor de música no Colégio São Paulo Apóstolo e professor de educação musical e regente de coral na Escola Técnica Ferreira Viana (Faetec). Foi coordenador e professor do curso para músicos profissionais realizado no centro cultural Lugar Comum Arte e Cultura e lecionou no Centro Musical Antonio Adolfo.”

Ele não era apenas um músico de sucesso. Ele era mais uma pessoa adoecida pelas drogas. E ele era o herói de uma garota de 14, sua filha, M.E.S. Vejam o relato da menina:

“Ta sendo horrível saber que perdi a pessoa que eu mais amava, a pessoa que eu mais ouvia os melhores conselhos. Como vai ser acordar e saber que não vou poder mais te ligar, meu pai? Saber que você não vai estar mais aqui comigo... Cuida de mim até mesmo aí de cima, eu não vou te esquecer, meu rei..."

Oh, querida, conheço a sua dor...

Estou relatando tudo isso, para que vejam que a dependência química mata sim. É grave. E ela não escolhe classe social, nem religião, nem idade... Qualquer um pode ser sua vítima, basta experimentar uma droga, e acionar o gatilho dessa doença terrível.

Mas, estou relatando tudo isso, principalmente para que vejam que, nós familiares, sempre expostos à ansiedade, medos e preocupações diárias, precisamos nos cuidar, pois adoecemos!

Esse ultimo caso, que relatarei abaixo, mexeu demais comigo.

Na quarta, outra companheira do grupo virtual, V.V.V., deixou o seguinte relato:

“Fui em uma reunião, e tive a noticia desagradável. Uma mãe cometeu o suicídio. Seu filho de 32 anos, adicto, casado, com 3 filhos pequenos, nunca parou de usar.
A mãe sempre facilitando, dando abrigo, comida, dinheiro, a chave da casa, o carro... Às vezes lembrava que tinha reuniões, mas, quando ia, não compartilhava. As companheiras sempre amorosas tentavam deixá-la mais tranqüila. Hoje de manhã seu filho foi fazer o que sempre faz, a esposa também facilitando, enfim... Ela não agüentou. Tomou uma caixa inteira de calmantes, o coração não agüentou... E morreu de overdose.”

Amigos, a família adoece. Por vezes ficamos mais doentes do que o próprio adicto. Vejo pessoas se afundando na codependência, na depressão, na síndrome do pânico, e em disfunções alimentares (bulimia, anorexia e compulsão), e muitas delas não percebem que precisam de ajuda, e que não são tão fortes quanto imaginam.

Familiares, vamos nos cuidar?

Por que carregar um fardo tão pesado sozinha(o), se temos pessoas dispostas a nos ajudar?

Deixo, abaixo, alguns links de onde poderá obter ajuda.

http://www.naranon.org.br/ (para familiares).


Disque saúde: 136, nesse número poderão te informar o CAPS mais perto da sua casa (para familiares e adictos).

http://www.na.org.br/ (para adictos).

Bom sábado!

E vamos orar a Deus pelos familiares desses que se foram, para que Ele lhes traga o conforto e a paz.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A causa é de todos!

Jefferson Ribeiro, Mário Gil, Alírio Neto e Adriano Marrocos


Hoje, pela manhã, fui ouvinte no Encontro de entidades de assistência a usuários de drogas, promovido pela Secretaria de Justiça do Distrito Federal.

Um encontro entre comunidades terapêuticas, centros de recuperação e grupos de apoio, para trocas de informações entre si, e também para obterem informações sobre o programa de credenciamento ao GDF, publicado hoje no DODF.

Fiquei feliz ao assistir o evento, neste dia mundial de combate às drogas, onde líderes do governo, representantes de instituições, e companheiros do N.A, A.A. e Amor-Exigente também estavam presentes.

O Secretário de Justiça começou relatando alguns números, como: 80 Comunidades no Distrito Federal, das quais 20 são registradas no CONEN; 250 formandos no curso de Multiplicadores Sociais e Líderes de Comunidades; 2.062 internações, das quais 217 foram concluídas.

A idéia do Governo é subsidiar melhorias na estrutura das entidades credenciadas no CONEN. E, para isso, foram colocados postos de atendimento do CRC, da ANVISA, da SUBAD, dentre outros para que as comunidades pudessem dar início ao seu processo de credenciamento.

Achei essa iniciativa muito bacana!

Adriano Marrocos, presidente do CRC-DF, que por acaso foi meu professor na faculdade (mundo pequeno!), disse que "o órgão estava ali para auxiliar no processo de regularização das entidades, visando a recuperação de vidas".

Dr. Michel, Deputado Distrital, disse que “uma coisa que assola o nosso país é a droga. Podem fazer todos os movimentos, mas se não olharem para a questão das drogas, uma questão de saúde pública, do Estado e de todos nós, a mudança será insuficiente. Acorda Brasil também para um país sem drogas!”

O Pr. Ramalho, do CONEN, disse que hoje o CONEN está mostrando quem é e o que veio fazer, e que o governo está facilitando, fazendo parcerias. Disse, ainda, que o Conselho de Psicologia, infelizmente, não reconhece as Comunidades Terapêuticas. E, finalizou, com “nosso objetivo comum é ajudar pessoas. Vamos nos unir mais, vamos nos respeitar, aprender uns com os outros. Essa causa é mais que política, é mais que dinheiro, é amor ao próximo.”

O Pr. Edmilson, da Missão Resgate, disse que “precisamos ver que estamos lidando com pessoas, precisamos de menos burocracia e mais atenção.”

O Secretário Adjunto Jefferson Ribeiro disse que “ainda há vários passos a dar, mas já tivemos vários avanços!”

Mário Gil, Subscretário de Políticas sobre Drogas, disse que “as portas da Subsecretaria estão abertas, e que a parceria é fundamental.”

O Secretário Alirio Neto finalizou dizendo que “a responsabilidade de enfrentamento às drogas não pode ser do governo, não pode ser das comunidades, não pode ser da polícia, nem das famílias... Mas, de todos!”

No intervalo, tive a oportunidade de conhecer o Pr. Valdelar, que cuidou do meu esposo em sua ultima recaída. Dei-lhe um forte abraço, e conforme combinado, neste ano, 10% dos meus direitos autorais com os livros serão doados à sua instituição, Filho Pródigo, que abriga pessoas, sem custo. Tudo lá é muito simples, mas há um grande amor no coração daquele senhor.

Ainda tive a oportunidade de conhecer e abraçar os companheiros do Amor Exigente, Terezinha e João Rita, da foto abaixo. 


Ai, como é bom, né?!

Por fim, troquei ideia com os companheiros de N.A. que estavam ali, no intuito de divulgar o trabalho que o N.A. oferece às instituições, levando as reuniões para quem não pode ir até elas. Aproveito para divulgar aqui a linha de ajuda do N.A., em Brasília, (61) 9245-9422, 9238-9606 e 8582-5282. E, para quem deseja grupos do N.A. em sua instituição, entre em contato pelo e-mail infocsapc@na.org.br.

Gente, quanto amor!

Fiquei muito feliz com tudo o que está acontecendo, e peço a Deus para que essa parceria dê muito certo, e ajude muitas vidas a se recuperarem!

Fiquei um pouco triste apenas pelo fato de não citarem as famílias, e a importância do cuidado das mesmas para que os dependentes químicos tenham mais chances de recuperação. Mas, aos poucos eles vão nos enxergar... Sei que vão.

No mais, estou feliz! Acredito que essa parceria trará mais seriedade às comunidades terapêuticas, e consequentemente, mais tranquilidade para quem deseja internar um familiar, e sofre com os medos (de maus tratos, de efetividade no tratamento, etc), uma vez que, credenciadas ao governo, há uma fiscalização bem maior.

Em uma entrevista, hoje pela manhã, a repórter perguntou ao Secretário se esse trabalho vale a pena, diante dos baixos índices de retorno (10%) nas internações dos dependentes químicos.

Lanço a minha pergunta: Se nesses 10% estivesse um filho, um marido, um pai, ou outro familiar ou amigo dela, será que ela faria essa pergunta?

Bom, é isso aí. 

Grande abraço. Feliz dia internacional de combate ao uso e tráfico de drogas!

Sigamos juntos, e esperança sempre!

Só por hoje, maridão limpo há 92 dias!

Só por hoje, fiz a minha parte...

terça-feira, 25 de junho de 2013

26 de junho: Dia internacional contra as drogas!



A ONU designou o dia 26 de junho como o Dia Internacional da Luta contra o Uso e o Tráfico de Drogas.

Algumas escolas tem incluído esse assunto nas programações da semana.

Mas, sabemos que, diante da gravidade do assunto, apenas um dia ou uma semana é muito pouco.

Precisamos de um trabalho árduo, todos os dias, envolvendo governo, igrejas, polícia, comunidades terapêuticas, clínicas, grupos de apoio, famílias, ONGs, profissionais de saúde, e outros, se quisermos tentar reverter o crescente índice das drogas.

Nós, familiares de dependentes químicos, depois dos próprios dependentes, somos quem mais conhece os malefícios trazidos pelas drogas.

As drogas, tão atraentes pelo prazer que proporcionam, são ilusão, e cobram um preço muito alto, tirando do usuário o poder de decisão e de controle sobre a própria vida.

Assistimos nos nossos lares a luta diária de quem amamos na tentativa de vencer o vício, de se manter longe das drogas, e de recuperar a dignidade, a alegria... a vida.

A dependência química é uma doença crônica e progressiva, que maltrata o corpo, a mente e a alma. E é uma doença que atinge também aos familiares, que acabam se tornando codependentes, perdendo o controle da própria vida, na tentativa de salvar a pessoa amada das drogas.

Onde a droga está presente, não há nada de bom que cresça. Ela só traz dor e destruição.




Como vencer esse mal?

É preciso repressão ao tráfico, ainda que haja gente importante interessada no lucro que o narcotráfico gera. É preciso muita informação sobre o assunto às nossas crianças e adolescentes, e também aos pais. É preciso muito diálogo em casa. É preciso que os jovens tenham ocupações saudáveis. É preciso princípios e valores.

Para os dependentes químicos, é preciso tratamento. Ainda que os índices de recuperação sejam baixos, e os de recaída sejam elevados, estamos falando de seres humanos adoecidos. Existe recuperação, existe esperança, então precisa de cuidados!

Aos poucos vamos atraindo os olhares, mas a codependência ainda é um assunto pouco divulgado, bem como as formas de tratamento existentes para as famílias.

Se não cuidarem dos familiares de dependentes químicos, os índices de recuperação dos dependentes dificilmente crescerão. A família adoece. A família não sabe como se portar ao ver o seu ente se destruindo nas drogas. A família está perdida. A família sente vergonha. A família se sente sozinha e desamparada.

Graças a Deus, existem os grupos de apoio aos familiares. Mas, é preciso um olhar mais atento das organizações governamentais para as famílias, e tenho esperança que um dia verei isso acontecer.

Elaborei um pequeno projeto sobre o assunto, no semestre passado, mas infelizmente ele não foi aceito. Há a previsão de inclusão de algumas ideias do meu projeto em outro já existente, contra as drogas, no âmbito do Distrito Federal. Tomara que realmente aconteça.

Hoje, convido a você, que sofre em razão do vício pelas drogas, e a você que sabe o quanto as drogas trazem dor às famílias, erga a sua bandeira. Faça a sua parte. Converse com seu filho, sobrinho, vizinho, sobre o assunto. Indique um grupo de apoio. Indique um CAPS. Dialogue. Participe das reuniões governamentais e não-governamentais para debates sobre esse assunto.

Cada um fazendo um pouco, se torna muito. Não deixemos de acreditar!

Perdi meu pai para as drogas. Acompanho a luta do meu esposo contra as drogas. E trago no coração uma grande esperança, de deixar para os meus filhos um mundo livre dessa maldição. Utopia? Talvez. Mas, incansavelmente, tenho feito a minha parte nessa luta.

Faça a sua também.

Amanhã, milhares de pessoas (inclusive eu) estarão unidas contra a PEC 37...

Que amanhã, nós familiares, também estejamos unidos nessa causa: a luta contra as drogas.




“Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco.” (Edmund Burke)

“Eu seguro a minha mão na sua, e uno meu coração ao seu, para que juntos possamos fazer aquilo que eu não posso fazer sozinho".


Abraços.
Polyanna. 

sábado, 22 de junho de 2013

Felicidade: Uma questão de escolha!



Por Polyanna P.


A vida é simples, e é gostosa de ser vivida. E ser feliz é algo que está ao alcance de todos. Não importa a classe social, a idade, a profissão, nem mesmo importa se há um dependente químico em sua família, você pode (e deve) ser feliz.
Felicidade é uma questão de escolha. Essa frase até parece um clichê, mas é real. Tenho aprendido, a cada dia, a fazer essa escolha para a minha vida, buscando essa felicidade dentro de mim, e não no que se passa ao redor, esse é o segredo.
Passei um tempo da minha vida pensando que a felicidade era somente para os outros, afinal, eu era uma filha de dependente químico, havia perdido meu pai para as drogas numa overdose, e vivia afundada nas dores de ser casada com um dependente químico. Eu havia escolhido a autopiedade para a minha vida, e havia descartado a possibilidade de ser feliz.
Eu atribuía a minha felicidade aos outros, e principalmente, ao meu esposo. “Se ele ficasse limpo, eu seria feliz”. Minha relação codependente com ele, fazia com que eu sempre estivesse procurando fora de mim razões para ser feliz ou infeliz. Na verdade, eu havia colocado toda a responsabilidade da minha felicidade sobre ele. Se ele recaía, eu me sentia triste. Se ele voltava feliz do trabalho, eu ficava feliz. Se ele estava mal humorado por sua abstinência, eu me sentia triste de novo. Se ele estava carinhoso, novamente me sentia feliz.
Ele faltava ao trabalho por causa das drogas, eu faltava por causa dele. Ele não estudava, eu também não. Alguns dias ele não levantava da cama, outros dias era eu quem o fazia. Ele era impaciente, e eu mais ainda. E na minha ignorância, eu sempre pensava: “Se ele mudasse, tudo seria diferente”.
Não conseguíamos sair desse círculo. E não era possível saber quem estava mais doente, ele ou eu.
Diante da inconstância de um dependente químico, eu vivia em um sobe e desce desgastante. E ainda o culpava por minha oscilação de humor e pela raiva que eu sentia.
Queridos leitores, não somos sombras e tampouco somos termômetros para vivermos de acordo com o que se passa ao redor. Não precisamos condicionar nossa felicidade à felicidade do outro. Isso não é egoísmo, claro que não!
Um dia dei o meu grito de independência. Vi que minhas emoções e felicidade são responsabilidades somente minhas.
Se meu esposo não está bem, ofereço ajuda e só, mas não quer dizer que eu tenha que ficar de luto com ele.
A vida passa tão depressa. E compartilhar das dores e conflitos de um adicto nos deixa fragilizados e incapazes de lhe ajudar quando necessário.
            Um dia, em um grupo de apoio a familiares, ouvi uma frase tão simples, mas que me fez refletir, acordar e mudar de atitude: Que comece por mim!  Por meio dessa frase percebi que eu só poderia mudar a mim mesma, e que o primeiro passo para a ação deveria ser meu. A partir daí, pude saltar do banco do carona e assumir a direção da minha vida. Era muito angustiante viver esperando uma ação do meu esposo, para então reagir. Agora eu poderia sim agir.
E consegui ser feliz, mesmo quando ele não estava bem. Não era fácil, mas era possível, e era a melhor forma de viver ao lado de alguém amado na adicção ativa.
E foi assim que consegui reconhecimento profissional, concluí minha Pós-Graduação, curti os meus filhos e escrevi dois livros. Sobretudo, foi assim que trouxe alegria para o meu coração e paz para a nossa casa, mesmo em períodos de crise.
Percebi que não era sensato esperar uma mudança de atitude de alguém que estava doente, para então mudar minha vida ou meu estado de espírito. Tentei fazer o contrário. Mudei primeiro minha vida e meu estado de espírito, e conseqüentemente, tudo mudou ao meu redor.

“... Me recordo com detalhes do quanto a codependência me consumia. Eu estava totalmente mergulhada no desespero. Quanto mais eu tentava mudar o comportamento destrutivo do meu dependente químico, mais eu me destruía. Eu buscava manipulá-lo, controlá-lo, ignorá-lo, magoá-lo com palavras. Os gritos, choros e chantagens emocionais eram freqüentes. Nada dava certo. Eu não conseguia fazê-lo parar. Eu estava me perdendo. A dor, o medo, a raiva, a pena e a insanidade estavam a me consumir. Hoje, ao olhar para a minha casa, embora meu esposo esteja limpo há apenas dez dias, vejo um cenário de paz. Certamente me tornei uma pessoa melhor. Estou aprendendo e buscando minha própria recuperação a cada dia. Hoje ainda sofro, mas sou eu quem controlo a dor. Ela não me controla mais. Aquela vida infernal criada por mim mesma deixou de existir. Hoje minha felicidade não é responsabilidade do meu marido, mas sim, minha. Somente minha.” (Amando um Dependente Químico – Dias de Dor)

Se meu marido se deprime em seu aniversário, se algumas vezes ele recorre às drogas, se a adicção o domina, se minha mãe é ausente, se meu pai morreu no vício, se a violência cresce no mundo, se as coisas ao redor não são como eu gostaria, vejo minha impotência diante de tudo isso, e simplesmente aceito. Não há nada que eu possa fazer para mudar o que se passa ao redor. Não tem como dar um "jeitinho". Somente posso entregar Àquele que é Superior a mim: Deus. Então me solto dos problemas e entrego a Ele, e me sinto mais leve.
Não sou a responsável pelo vício do meu esposo, assim como não sou eu quem tem a fórmula para fazê-lo parar. Não tenho a solução para os problemas dos outros e do mundo. É doloroso aceitar isso, mas é necessário.
O que posso fazer é viver a minha vida, controlá-la, ser feliz, independente do que está ao meu redor. Porque, se tentar controlar a vida do outro, certamente a minha se desgovernará.
Posso amar verdadeiramente. Posso rezar por ele. E só. Mas, não dá pra deixar minha felicidade congelada, esperando o momento certo de ser feliz, quando tudo for perfeito. Enquanto isso, tem muita vida acontecendo.
Houve um tempo em que eu sonhava com nossa renovação de votos matrimoniais. Sonhava que quando fizéssemos nossas bodas, faríamos uma linda festa, na beira de um lago. Sonhava até mesmo com as flores naturais em meus cabelos, vestido branco simples, pés descalços. Sonhava que cantaríamos juntos a música Entre Eu e Você, do Kim. Sonhava que ele concluiria sua faculdade, seguiria carreira como Enfermeiro. Que ele passaria em um bom concurso público. Sobretudo, sonhava que ele nunca mais se drogaria e seria o marido mais carinhoso, presente e responsável do mundo. "E viveram felizes para sempre"!
Tudo isso se parece mais com um conto de fadas ou roteiro de novela. Hoje tento me livrar das expectativas fantasiosas, pois, com certeza, essas só nos trazem frustração. Não tenho o direito de fazer sonhos sobre a vida de outra pessoa. Tenho tentado ver a vida com os olhos da razão, de uma forma mais racional e real.
Meu marido é um adicto e sempre vai ser. Talvez ele nunca mais use drogas. Ou talvez volte a usá-las. Mas, independente disso, eu também tenho uma vida e é sobre essa vida que devem estar os meus sonhos e os meus desejos de conquista.
Hoje não rejeito mais a possibilidade de ser feliz. Na verdade, tenho guerreado bravamente por minha felicidade, lutando a cada dia contra a minha codependência.
Muitos familiares de adictos me perguntam, por meio do blog, o que podem fazer para ajudá-los a se recuperar. Digo que podemos amá-los e aceitá-los como eles são. Podemos apoiá-los na busca de um tratamento. Podemos impor limites à sua doença e permitir que eles arquem com as conseqüências dos seus atos insanos. Podemos trocar a raiva por compaixão, e as insanidades por serenidade. E, principalmente, podemos amar a nós mesmos, fazer coisas que gostamos, e ser felizes. Isso é verdadeiramente colaborar para o bem dos nossos amados dependentes químicos.
Então o que é preciso para ser feliz? Escolher a felicidade! E se permitir essa felicidade! Simples assim.
Por que alguns reclamam por causa da chuva que cai, enquanto outros a aproveitam para dançar pelas ruas molhadas? Uma questão de escolha. Felicidade vem de dentro. Quem escolhe ser feliz não se deixa contaminar pelas circunstâncias.
Há onze anos, sofri de depressão, e digo a vocês que não foram médicos, nem medicações, nem tratamentos que me fizeram sair dela, mas sim minha decisão. Escolhi a vida e a felicidade.
Não estou aqui para falar de teorias cheias de complexidade e longe da realidade. Estou aqui para relatar o que vivo. Amo um dependente químico, mas isso não me impede de ser feliz porque essa é a minha escolha a cada amanhecer.
A felicidade não está fora, mas dentro. Não está no que acontece ao redor, mas na mente e no coração.
Se você pegar um sapo e colocar em um caldeirão de água quente, ele vai pular rapidamente para fora. Entretanto, se você o colocar em um caldeirão com água fria, e for aquecendo a água aos poucos, o pobre sapinho ficará quietinho e morrerá cozido.
Conforme escrito no livro Sapos Fervidos ou Ossos Dançantes, de Antonio Braga, "a infelicidade simplesmente vai acontecendo, e sem que a gente perceba, isto vai se tornando um estilo de vida.”
Por favor, não se acostume com a infelicidade. Não se permita ser “cozido” pela codependência. Pule para fora! Reaja. Se permita ser feliz. Faça algo por você mesmo. Acredite, é possível.
Por que escolher viver na mágoa, no ressentimento, na dor, na autopiedade, ou seja, nos sentimentos negativos, quando é possível viver no perdão, na gratidão, no amor, na esperança e na felicidade?
Meu esposo é um adicto que em momentos de crises faz coisas inacreditáveis. Tenho o direito de ser infeliz, certo? Errado.
Tenho o direito e a obrigação de ser feliz mesmo assim. Sabem por quê? Porque seria muita ingratidão da minha parte fechar os olhos para tudo de bom que tenho em minha vida. E felicidade é simplesmente isso, gratidão pelas coisas boas e a certeza de que Deus está cuidando daquelas que não são tão boas.
Não se esqueça de que a felicidade é um presente que você merece, mas que somente você pode dar a si mesmo, ninguém mais.

“Se você espera que a outra pessoa "conserte" sua
vida, ou seja a sua "melhor metade", está preparando um
fracasso. Precisa estar feliz com o que você é, antes de entrar
num relacionamento. Precisa ser tão feliz que nem precise de
um relacionamento para ser feliz."

(Dr. Wayne Dyer)




O texto acima foi publicado na Revista Anônimos, Ed. 18, deste mês.

Clique aqui, e acesse o site da revista. Existem muitas edições online, e principalmente muita ajuda para adictos e familiares!

Beijos.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Relato de uma mãe que mudou!




Poly, é difícil transmitir em palavras, todo o bem que a leitura do seu livro Amando um Dependente Químico - Dias de Dor, trouxe à minha vida.

É incrível o que as palavras escritas com o coração são capazes de fazer!

Um livro de linguagem acessível, simples, mas, nunca simplório, me fez enxergar tanta coisa importante...

Suas experiências me ajudaram a descobrir novas formas de lidar com o problema com drogas, que enfrentei na família. 

Quando conheci seu livro, eu estava saindo de uma depressão. Tomava remédios, me sentia fragilizada por que as drogas haviam atingido meu lar. Achava isso uma derrota terrível. Estava envergonhada, perdida, me sentido culpada. A pior pessoa do mundo. E não sabia como agir com meu querido, que estava, infelizmente, dando seus primeiros passos neste caminho maldito. 

Então, ouvi uma palestra sua Poly... Naquele momento, eu disse em meu coração: Deus, o Senhor sempre nos coloca no lugar certo! Na palestra, ouvi falar do seu livro. Comprei e li. E como foi bom ter lido!

Sabe aquela coisa de querer ajudar e acabar agindo de forma a facilitar o vício dos nossos queridos? Então, essa verdade caiu em cima da minha cabeça. 

Ao ler, percebi que estava fazendo isso, comecei por aí, a pensar que cada um deve “sofrer” as consequências de seus atos. A partir de então, parei de ser boazinha, parei de facilitar o vício alheio. Em nome do amor, comecei a dizer muitos “nãos”. Não foi fácil, mas, era possível.

Sabe o que você relata a respeito das loucuras que fazemos, quando temos um adicto em casa? Das insanidades? Se ele grita, a gente grita mais alto... Pois é, achando que isso iria resolver, eu gritava, chorava, tentava impedir suas saídas, fiquei desiquilibrada. Hoje eu sei, não preciso fazer nada disso. Não posso fazer isso comigo! E não faço mais. Nem vontade eu sinto. 

Palavras e expressões marcantes do livro Amando um dependente químico: serenidade, desligamento, “Viva e deixe viver!”, amor exigente, escolha... A grande descoberta: o adicto fez uma escolha, e eu não posso parar de viver por isso!

Durante a leitura pensei muito no conceito do amor que cuida, mas que não se anula. Comecei a ser mais assertiva, olhar nos olhos do meu amado filho e não aceitar culpas que não eram minhas.  Passei a observar a “folha” da minha vida e ver tudo o que havia de bom nela, apesar das drogas.

A informação de que a dependência química é uma doença, foi valiosa para abandonar preconceitos. Não é delinquência ou safadeza como muitos pensam, como eu mesma pensava. E ainda, a constatação de que as drogas não estão tão distantes dos nossos lares. Não é um mal de poucos. Infelizmente!

Estudei, sublinhei, tirei lições dos seus acertos e dos seus ‘erros’. Como você foi corajosa em relatá-los! Pensei: nossa, somos humanas, erramos!

Poly, te conhecer e ler sobre sua vida, mudou a nossa trajetória aqui em casa. 

Fui me tratar. Antes pensava que terapias de grupo não ajudavam. Hoje frequento uma no CAPS da minha cidade. Tenho aprendido muita coisa relevante com eles também.

Depois de uma licença sem vencimento, refleti e voltei a trabalhar. Disse a mim mesma: o problema da Poly é muito mais grave que o meu, e ela trabalha sorrindo todos os dias. Eu também posso fazer isso! Foi a mensagem que você me transmitiu, com sua coragem e resiliência.

Tirei uma licença por que queria vigiá-lo 24h por dia. Tinha a ilusão de que se fosse sua “babá”, ele nunca mais procuraria as drogas. Ilusão mesmo. Aprendi, a vida é uma escolha. Não posso impedi-lo se ele quiser se afundar nisso. Mas, o que preciso é estar bem para orientá-lo, o resto é com ele. Essa foi uma das lições mais preciosas.

Hoje não paro a minha vida por causa das besteiras que meu querido faz. Aliás, ele tem feito poucas bobagens depois que mudei de postura. Todos os dias, melhora um pouco mais!

Diante de tantos relatos de dor, o capítulo que me fez chorar foi aquele em que vc descreve alguns dos momentos felizes que passou ao lado do seu amado esposo. Como eu chorei!! Como vi espaços em branco em torno da mancha da sua codependência. Que linda história! Depois desse capítulo, adivinha? Comecei a fazer o mesmo com a minha vida. Passei a olhar tudo de bom que havia em mim e em tudo que Deus havia me propiciado de bom, até aquele dia.

Presenteei algumas pessoas com seu livro que, tanto quanto eu, precisavam de orientação. Uma delas foi uma cunhada. Ela largou seus afazeres e leu a obra em tempo recorde para uma dona de casa atarefada, em três dias. Fiquei feliz! Ela me contou que leu rapidamente por que queria saber como terminava a história... não via a hora de acabar, estava ansiosa! (risos)

Logo vi mudança nela e no esposo. Não como em um milagre ou por meio de fórmula mágica, isso não existe. Seu livro não é um amuleto. É uma experiência de vida. 

Preciso contar a minha cunhada que o segundo livro foi lançado, acho que vai querer “devorá-lo”. “Quando o outro for lançado, me avise, eu quero ler também!”, disse.

Quanto a mim, não comecei a ler o segundo livro: Amando um dependente químico – Dias de recuperação – quero parar para fazer isso. Livro bom a gente não lê, a gente degusta!

Olha, Poly, peço que o Senhor Deus te abençoe. Você é uma pessoa que alcançou a resiliência, mesmo sendo um ser humano, sem fórmulas mágicas para oferecer.

Obrigada Deus por ter nos dado a Poly!

Obrigada Poly por sua generosidade em dividir sua experiência conosco. Isso me ajudou, e com certeza ajuda muita gente, esteja certa disso!

Ao chegar na casa do Pai, terás um galardão reservado para ti.  Mais uma vez, muito obrigada!

Bjs!!

A.M, mãe de um rapaz lindo, que um dia experimentou drogas... e, por pouco, não se afundou.


Queridos, ler esse relato me deixou muito emocionada e grata a Deus pela oportunidade de ajudar pessoas com minha história. Já dei um abraço bem apertado nessa mãe, e já lhe disse que o mérito da mudança é dela, afinal, ela escolheu mudar, e mudou... Sempre podemos escolher!

Quem desejar ler os livros, acesse o site do Clube de Autores, CLIQUE AQUI.

Beijo no coração!
Poly.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Verás que um filho teu não foge à luta!





Bom dia! 

Me emocionei com a união do povo brasileiro... 

É uma pena que uma minoria ainda age com violência e desrespeito ao país. 

Vejo que os R$ 0,20 foram a "gota d'agua" que entornou o copo. 

Gente, o estádio Mané Garrincha custou aos cofres públicos 1,566 bilhões de reais! A saúde é precária. A educação é precária. A segurança é precária. Nossos dependentes químicos não são vistos... 

Imaginem se eu pegasse meu salário e gastasse no shopping ou parque com meus filhos, e não lhes desse comida e moradia. Infelizmente, é isso que o governo está fazendo... 

E ainda querem nos enganar com essa PEC 37, que será votada no próximo dia 26, onde a corrupção terá ainda mais liberdade pra agir no nosso país. 

Ontem senti orgulho da união do povo brasileiro. Só falta um pouco mais de foco, organização e consciência política... Mas, foi lindo!

Aqui em casa, tá tudo bem. Aliás, mais ou menos. Meu esposo passou por uma frustração profissional ontem, e está muito deprimido com isso. Adictos têm muita dificuldade em lidar com "nãos". Ele está se sentindo o último dos últimos. Quando o vejo assim, bate aquele "medinho" por dentro, mas apenas peço a Deus para lhe dar serenidade para que ele faça as melhores escolhas, e também peço que Deus me dê serenidade para que eu possa viver o meu dia tranquilamente.

Só por hoje, 84 dias limpo!

Só por hoje, não preciso ficar mal porque ele está mal...

Beijos, queridos!

Feliz terça!

domingo, 16 de junho de 2013

Seres invisíveis!



Bom dia!

Tudo bem?

Meu esposo segue limpo há 82 dias. E nossa convivência diária tem sido muito agradável.

Estamos passando por uma maré de problemas, nada relacionado a drogas ou entre nós dois, coisas externas, mas sei que se Deus nos deu força pra chegar até aqui, nos levará adiante!

Queridos, eu gostaria de falar hoje sobre a triste invisibilidade social dos dependentes químicos, que acabam se tornando moradores de rua.

No início deste mês, eu estava ao lado do prédio da Codhab, no Setor Comercial Sul, aqui em Brasília, e me senti muito mal com o que vi.

Entrei em uma fila de mais ou menos cinqüenta pessoas. E enquanto cada um se preocupava em organizar os documentos a serem apresentados no órgão, logo ao lado, no chão, havia uma moça.

Ela aparentava menos de 30 anos. Traços bonitos. Com aquela magreza do crack. Seus pés e pernas estavam cheios de feridas. Pés descalços. E, como estava frio, ela colocava os braços dentro das mangas da camiseta.

Ali, sentada, ela olhava para as pessoas, com um olhar distante, em silêncio, apenas observando quem estava ao redor.

Mas, o mais incrível é que ninguém a via. Era como se fosse realmente invisível. Como isso doeu em meu coração!

Talvez por saber que meu pai por vezes dormiu exatamente como ela. Talvez por ter um dependente químico em casa e saber que essa doença, se não tratada, pode levá-los a um estágio que nunca imaginamos.

O fato é que a indiferença das pessoas doeu em mim. Na minha concepção, indiferença também é preconceito.

Aquela moça é um ser-humano, mas parece ter se tornado invisível...


Quem se lembra do “mendigo gato” de Curitiba?

Rafael Nunes, 30 anos, dependente de crack, afastou-se da família, e havia se tornado um morador de rua. Uma moça, a seu pedido, tirou uma foto sua e postou no facebook, e em razão do sucesso de sua história, ele teve a oportunidade de se tratar, e de recomeçar.

Clique aqui, e veja como está o Rafael. Fico na torcida por ele!

Mas, fico pensando, será que é preciso ser lindo e ter olhos verdes para ter uma oportunidade?

Ontem me deparei com uma mensagem em rede social, do adolescente Richard Coatio, em busca de sua mãe, desaparecida há mais de três meses, aqui no Distrito Federal. Sua mensagem diz:

“Essa é minha mãe, ela era linda né? E  ainda é. Mas sabe, aconteceu algumas coisas que fez mudar nossa vida completamente, ela se perdeu no mundo das drogas. Eu queria pedir pra vcs compartilharem por favor pra descobrir se alguém sabe onde está o seu paradeiro. Ela tá desaparecida faz 3 meses e exatamente 11 dias, vista pela ultima vez em gama DF.”



Ele deixou os seguintes contatos: 61 3393-6435, 61 93320539, 61 95417685.

Richard desabafa: "eu vim fazer um apelo. Sabe eu cansei de pedir pra pessoas ''famosinhas'' do facebook compartilharem pra ver se as pessoas compartilham, mas elas dão de ombros. Eu vou tentar."

E assim seguimos. Invisíveis à sociedade.

Enquanto são gastos bilhões em estádios, enquanto se grita gol, enquanto só enxergamos as tendências impostas pela mídia, milhares de pessoas vão se tornando cada vez mais invisíveis.

Triste demais isso!

#sóumdesabafo!

Sei que não posso mudar isso. Sei que não posso fazer muito. Então estou fazendo o meu pouco...

Parabéns a todas as ONGs e pessoas que conseguem enxergar esses seres humanos, oferecendo-lhes a oportunidade de voltar a viver, de se recuperar, de recomeçar!


quarta-feira, 12 de junho de 2013

VONTADE: aqui começa e aqui termina!



Bom dia!

Hummm, hoje o dia acordou com cheirinho apaixonado no ar... Parabéns a todos os enamorados!

Queridos, quero partilhar com vocês algo que me ajudou muito a enfrentar a doença do meu esposo, e a minha: a descoberta de que a chave de tudo está na VONTADE.

Como assim?

Bom, primeiramente, vamos ver alguns conceitos de vontade:

1. Vontade é a principal das potências da alma, que inclina ou move a querer, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.

2. Nome dado à capacidade de uma pessoa agir com intencionalidade definida.

3. É instinto de praticar algo, a entrega de fazer algo que deseja.

No ano passado, durante uma sessão com minha Psicóloga (querida Patrícia, saudades suas!), eu lhe disse que queria entender o porquê do meu esposo ter passado 1 ano e 2 meses limpo das drogas, sem nenhum tipo de tratamento ou apoio de grupos e/ou instituições.

E a resposta dela foi: “uai, porque ele quis ficar limpo.”

Durante muito tempo me culpei por essa recaída do meu esposo. Morávamos fora do país, e foi um período muito gostoso. Trabalhávamos muito, mas sempre em sintonia, ele limpo, com comportamentos bacanas, eu grávida do nosso filho do meio, tudo perfeito. Vez ou outra, ele tinha suas crises de humor, mas quem não tem? Não era nada preocupante ou que me fizesse um mal exagerado. Tudo normal.

Eu ainda não sabia sobre codependência, nunca havia lido nada a respeito, nem ido a um grupo de apoio, então continuava adoecida, mas diante da paz exterior, minha doença estava adormecida.

Mas, quando regressamos ao Brasil, o caos começou. Nos dois primeiros meses, deu tudo certo pra nós: tomei posse em meu cargo público e entrei na licença-maternidade (nosso filhinho tinha menos de dois meses quando regressamos), e ele conseguiu emprego em dois hospitais, e retomou seus estudos.

Embora estivesse tudo bem, o comportamento dele mudou, ele não estava bem, e eu não entendia o porquê. É por que voltamos para o Brasil? É por causa do bebê? É por causa da cidade? É por causa de mim? O que está acontecendo? E eu me sentia muito culpada por termos voltado.

Dois meses depois, ele recaiu, e deu início a um período que considero um dos piores de nossa vida. Ele não conseguia se manter limpo. Eu com um bebê recém-nascido. Estávamos nos adaptando ao país e às novas rotinas. Sem familiares e sem amigos por perto. E nenhum de nós dois em recuperação. É um período que não gosto nem de me lembrar. Muita dor! Seis meses de dor, até que encontrássemos cada um o seu próprio lugar de recuperação.

E, naquela sessão com a Psicóloga, eu realmente pude me livrar dessa culpa. Ele recaiu porque a vontade de usar foi mais forte do que a vontade de ficar limpo. E isso não tem nada a ver comigo. E ele ficou limpo por esse tempo porque a vontade de ficar limpo era mais forte que a vontade de usar.

A gente complica demais. Diz que é porque eles não amam a família. Ou por isso e por aquilo. Mas, a chave de tudo está na VONTADE!

Hoje ele está limpo há 78 dias, graças a Deus! Não está indo a grupos, ou coisas assim, apenas levando sua vida normal com a família, no trabalho, e estudando. Sinceramente, quem sou eu para dizer que isso não vai dar certo?

Um dia, quando meu esposo havia desistido da sua segunda internação, após dois meses, eu estava chorando, quando a Psicóloga veio, me abraçou, e me olhando firme, disse: Acredite! Não é o fim. Isso não quer dizer que ele vai recair. Cada um é cada um! Na ocasião, ele se manteve limpo por mais três meses, e só voltou a usar quando quis.

Só por hoje, sua vontade de estar limpo tem sido maior. E é muito bom vê-lo centrado em seus novos sonhos, e novamente com comportamentos saudáveis. Deu certo hoje, e é o que importa. Internações, grupos, igreja, família, tudo isso serve apenas para alimentar o desejo do adicto de ficar limpo, e para lhe dar ferramentas para lutar contra o desejo de usar, mas se ele não quiser, nada adiantará. A realidade é essa, queridos.

Claro que, quando o adicto está em período de ativa, afundado na obsessão e compulsão pela droga, é preciso uma intervenção, até que ele tenha condições de decidir por si novamente. Mas, depois é com ele.

Agora, vamos falar um pouco de nós?

Nós também só iremos nos recuperar da nossa codependência, se tivermos VONTADE.

Já nos acostumamos a viver a vida do outro. A passar 24 horas tramando a melhor forma de fazê-lo ficar limpo ou entrar em recuperação.  A viver ‘fazendo cafuné’ em nossas culpas, medos e dores. E pra mudar esse estilo de vida, é necessária muita VONTADE.

Quem disse que olhar para si mesmo é fácil? Não é. Mas, nisso consiste o nosso desafio. A vontade de nos cuidar tem que estar acima de qualquer outra vontade. E precisamos lutar, todos os dias, para não nos entregarmos a uma culpa que não nos pertence, e a um desejo de controle sobre o outro, que não dá bons resultados.

Como você fará a sua recuperação, eu não sei. Afinal, ‘cada um é cada um’! Posso dizer aqui o que tem dado certo pra mim: grupo Nar-Anon (foi o diferencial em minha vida), grupo Amor Exigente (me ensinou sobre limites), leitura de muitos livros sobre codependência, fé em Deus (acho que esse deveria vir em primeiro), partilhar com outros codependentes que estão em recuperação.

Saber onde está a nossa recuperação, e onde está a recuperação do adicto é fundamental. Precisamos ter a percepção de onde começa e onde termina o nosso papel na vida do adicto.

Infelizmente, em sites científicos podemos ver que uma das características da dependência química é a recaída. Entretanto, após a recaída, nosso papel é o de ajudar o adicto a encontrar novamente o desejo de parar de usar, levando-o a pessoas capacitadas para essa ajuda.

Dependência química é doença. Não é falta de caráter, de vergonha na cara, ou de amor. Então é preciso sim tratamento. Mas, como é uma doença complexa, ainda não há um tratamento pré-definido como há para o tratamento de um vírus, por exemplo. O que o adicto precisa é de algo que desperte nele essa vontade de estar limpo, e de viver em recuperação!

Tem dado certo para muitos no N.A.. Fica a dica. Mas, lembre-se ‘cada um é cada um’. O nosso papel, enquanto familiar, é o de apoiar o desejo do adicto de ficar limpo, e não o de tentar impor o que julgamos ser o melhor para a vida do outro.

Aqui em casa, digo para o meu esposo: “quero de você o resultado (que fique limpo), mas o meio para conseguir esse resultado, é com você!”

Deixo essa dica para quem está com o familiar em recuperação. Mas, para quem está com o familiar na ativa, imponha limites!

É, queridos, amar um dependente químico não é fácil. Mas, Deus nos dá a força necessária, e precisamos buscar a sabedoria necessária para ajudar sem se perder.

Hoje meu esposo saiu logo cedo, com suas roupas brancas, para o trabalho. Deixou meu leitinho com café sobre a bancada da cozinha. Me deu um beijo na testa (eu ainda estava dormindo), disse que me ama, (te amo, minha namorada linda!), e foi.

Muitos dizem: Parabéns por manter o seu casamento! Mas, gente, o mérito por estar limpo é dele! O meu mérito é apenas por buscar, a cada dia, me recuperar da codependência, que também corrói qualquer relacionamento.

Cada um “no seu quadrado”. Cada um na sua própria recuperação. E, graças a Deus, com um amor que não morreu, apesar das grandes dificuldades, no mês que vem completaremos sete anos de relacionamento...

Feliz dia dos namorados! Feliz dia do amor!

Muito amor a Deus, ao próximo, e a si mesmo para todos nós!

Beijos.