terça-feira, 16 de abril de 2013

Egoístas?

Pertinho dos dois anos do Blog, estou republicando alguns Posts, esse é de maio de 2012, e fala sobre o egoísmo dos D.Qs e sobre o nosso!


Eu sempre pensava que o maior mal do meu marido era o egoísmo, e chegava a generalizar: “todo dependente químico é egoísta”.

Um dia me deparei com a seguinte frase de Oscar Wilde: “Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos.”

Eu queria conduzir a vida do meu esposo, de alguma forma, sempre. Independente de ele estar limpo ou na ativa, eu queria ter o controle, queria guiá-lo do meu jeito. Não seria isso um egoísmo também?

Era muito fácil pensar que meus atos eram todos para ajudá-lo. Eu escondia os meus próprios defeitos para não ter que encará-los, e mirava sempre na dependência química do meu amado.

Assim como ele, que em dias de ativa já acordava planejando artimanhas para conseguir drogar-se; eu, do meu lado, também já abria os olhos pela manhã pensando em como controlaria o meu esposo, em como o manteria longe das drogas, em como o salvaria de seus problemas, como se eu não tivesse os meus próprios.

Isso não é amor, é doença, é adicção, é dependência, é obsessão. E viver assim é muito doloroso.

Eu chorava, gritava, chantageava, sabendo que não daria resultado nenhum. Então, por que o fazia? No fundo, eu já havia me acostumado com isso, com a dor. Era um ciclo doentio onde dependente químico e codependente tinha cada um o seu papel: Ele me enganava, eu me deixava ser enganada, entrava em seu jogo, ele vivia para a droga, eu vivia para ele, eu o culpava, ele se culpava, eu tentava pará-lo, ele não conseguia, e nós dois não vivíamos mais.

Hoje, passo a passo, dia a dia, tento desligar-me do meu esposo. Desligar não é deixar de amar. Ao contrário, o amo cada vez mais. Mas, aprendi que amar nada tem a ver com controlar. Hoje ele tem o direito de acertar ou de errar, e de arcar com as consequências das suas escolhas. 

Minha mente ocupa-se das minhas atividades, dos meus sonhos, do que me faz bem, e não mais da rotina dele.

Sim, tenho muito medo do que ainda está por vir. Não quero que ele recaia nunca mais. Entretanto, entrego isso nas mãos de Deus e busco descansar, confiar. Hoje sei que nada do que eu fizer irá interferir na decisão dele. Por isso resolvi deixar a decisão de ficar longe das drogas a quem cabe: a ele, somente a ele.

Minha participação é apenas ouvi-lo quando ele me procura, amá-lo, aceitá-lo, tentar entendê-lo e auxiliá-lo. Ele é meu esposo, não é uma criança e nem um incapaz para que eu tome as rédeas de sua vida. Isso não seria justo com ele, nem comigo.

Voltei atrás quanto àquela ideia que eu tinha de que dependentes químicos são egoístas, afinal, alguém egoísta pensa em si próprio, e eles, ao contrário, não pensam em nada além da droga. Eles sofrem de uma doença. Uma doença que os faz esquecer de tudo e de todos, inclusive deles mesmos.

Eventualmente vou às reuniões abertas de NA. São tantas histórias. 

Vi um lindo jovem que era terapeuta em uma instituição, recair. Ficar nas ruas. Se acabar. Até voltar para a mesma instituição onde trabalhava, mas agora como residente.

Vi uma pessoa muito querida recair após alguns anos limpa, quase não a reconheci. Muitos quilos mais magra. Sofrida. Dias atrás ela sumiu, tentou fazer um empréstimo de valor alto, e só não usou tudo em crack porque o gerente do banco ligou para a sua família para confirmar a transação.

O que é isso? Pessoas boas como eu e você. Pessoas queridas que se transformam em monstros ou em loucos? Você acha que alguém escolhe isso para a sua vida? Eu tenho certeza que não. Ninguém escolhe isso.

Acompanho vários blogs de histórias como a minha. São mulheres que amam dependentes químicos. Que ouvem suas promessas diárias de que nunca mais irão usar, e assistem às suas loucuras para usar só mais uma vez. Uma dose é muito para eles, e todas as doses do mundo serão insuficientes. Eles são adictos. E isso é uma doença. Não tem nada a ver com falta de amor, nem com egoísmo.

Por outro lado, não somos culpadas pela doença deles. E nesse cenário, muitas vezes, vamos ficando de lado, nossa vida vai ficando de lado, enquanto enlouquecemos na tentativa de curá-los.

Por isso é tão importante cuidarmos de nós mesmas. Enxergarmos a dependência química à luz da razão. E principalmente mantermos o foco em nossas próprias vidas. Sempre com a responsabilidade por nossas escolhas, sem dar lugar à autopiedade ou à culpa.

5 comentários:

  1. lembro desse post...e vejo como cresci em minha recuperação, lembro que falei sim q eles eram egoistas mais não falei de mim...hoje mudei um pouco a forma de pensar e RECOMENTO...rs..vamos la, pra vc ver que como quando ambos dependentes e codependentes quando não estão em recuperação, agem de forma egoista com o mundo, nós querendo que eles vivam a nossa maneira e eles querendo manter o consumo da droga a qualquer custo sem pensar em mais ninguém e em nada comentem insanidades extremamente EGOISTAS pensando somente em satisfazer sua propria vontade, as duas doenças por se tratar de doenças COMPORTAMENTAIS tem como caracteristica o EGOISMO..eles agem com EGOISMO nós agimos com EGOISMO, impulsionados por uma doença sim mais não deixa de mudar o nome e ser EGOISMO...rs...quando entramos em recuperação passamos a aceitar nossos defeitos e um dos primeiros a serem identificados é o EGOISMO de ambas as partes...mais que em recuperação pode se transformar em caridade em aceitação,acho q é isso...rs

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  2. Poly, lendo seu post e o comentário d kel, vejo como eu sou egoista e em em todos os momentos com meu amado.
    Mesmo ele estando internado, hoje fazem 30 dias limpo, eu creio ainda tento manipulá-lo em algumas coisas, quando ele cita sobre quando vai sair, oque quer fazer...etc.
    Faço terapia com uma pscóloga, mas estou cuidando de assuntos meus, minha rotina cotidiano, anseios etc... nada voltado a adicção e deveria ir às reuniões do Nar-anon, porém nesse período está sendo inviável para mim... tens alguns livros que vc possa me indicar que eu possa estar lendo...
    E muito bom ver os posts de vcs... ver a fé que vcs tem e a confiança em Deus, realemente me dá força para tbm lutar.
    Obrigada...
    bjs

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  3. Olá Polly ,dps que descobri o seu blog.tenho que dar uma passadinha aqui todos os dias..adorei conhecer sua historia , me indentiquei bastante ..ja me sinto intima de vc .. hehehehe..
    Te mandei um email contando um poquinho da minha historia pra vc, dps vc dá uma olhadinha.
    Mas hoje qdo cheguei ao trabalho,a primeira coisa que fiz foi abrir a pagina dou me email.E o documentario que estava lá na primeira pagina era:"Filha de Dependente do Crack".
    Fiquei mto feliz.. que o assunto da codependencia esta sendo muito debatido.E qdo estava lendo .. olha lá vc de novo.. um pouquinho da sua historia!!! Adoreii

    Fikei mto feliz.. sou uma fiel leitora de seu blog!!!

    Beijos !!!!

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  4. Olá Poly conheci seu blog a mais ou menos 1 semana, ele já me ajudou a reconhecer quem eu sou nessa história, nunca imaginei que poderia estar doente junto com ele mais lendou seus posts me vejo em cada um deles. Obrigada por compartilha de tudo isso e me ajudar!

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  5. Poly, lendo o seu post vejo o quanto precisamos nos conhecer...julgar o outro é fácil, agora reconhecer os nossos próprios erros é que é difícil...Eu agradeço a Deus por eles (irmão e namorado) pois sem eles eu nunca teria me conhecido e continuar me conhecendo...hoje percebo claramente o quanto preciso de ajuda, o quanto preciso aprender e mudar...mas eu só consigo mudar a mim mesma e aos outros só posso amar, amar sem egoísmo, sem julgamentos, sem receios, simplesmente amar.
    Beijos, TMJ!!!
    Tatiana M. Lopes

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