quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vamos multiplicar!


Participei ontem da primeira aula do curso de Formação de Multiplicadores Sociais em Prevenção do Uso e Abuso de Substâncias Psicoativas, ministrado pelo Psiquiatra Leonardo Moreira, Especialista em Dependência Química e um dos nomes mais conceituados em Brasília, na área.
 
Eu já sabia que a dependência química é uma doença, mas nunca havia visto essa doença de forma tão detalhada. As drogas afetam o cérebro em sua região frontal (responsável pelo ponderamento), na região central (responsável pelo prazer), e também na área responsável pela memória.
 
A maioria dos nossos familiares dependentes químicos começou o uso na adolescência, então quando usaram a droga pela primeira vez, foi jogado um balde de dopamina (prazer) que não sentimos nas coisas boas (comida, sexo, lazer, etc) do dia a dia. Um prazer que somente a droga proporciona. Com o uso, o cérebro foi criando receptores que ficam dentro dos neurônios, e que passaram a “pedir” novamente aquele prazer. Isso é a dependência química. E por isso o comportamento deles muda, passando a viver para que essa “necessidade” seja satisfeita. Infelizmente, essa área interna do cérebro, que fica desregulada com o uso das drogas, foge do nosso domínio, não temos acesso a ela.
 
“Quando o dependente químico diz que nunca mais quer usar drogas, é verdade. Ele está usando a região externa do cérebro quando afirma isso. Mas, quando ele recai é porque involuntariamente, a região central, que está desregulada, pede pela droga.” Disse o professor.
 
Os principais sintomas da dependência química são: compulsão (desejo com perda de controle), tolerância (aumento progressivo das doses usadas para obter o mesmo efeito) e abstinência (conjunto de sintomas desagradáveis quando para ou diminui o uso da droga).
 
O que faz alguém deixar de ser usuário e passar a ser dependente? Genética, resiliência, vulnerabilidade, outros transtornos, cenário em que está inserido, enfim, um conjunto de fatores.
 
Os sete primeiros anos de vida do ser humano são fundamentais. É nesse período que muita coisa se define, e que o cérebro está em um processo acelerado de perdas de neurônios. Fiquei pasma quando ele afirmou que “o impacto emocional causado em uma criança que convive com uma mãe depressiva é o mesmo de uma criança que foi abusada sexualmente.” Isso o tornará vulnerável a qualquer transtorno (depressão, pânico, etc) ou mesmo ao uso de substâncias.
 
Quando ele falou isso, me lembrei de nós, codependentes, e do quanto é importante que nos tratemos.
 
Graças a Deus, hoje consigo separar bem as coisas. Meu marido recaiu, mas não houve nenhuma cena traumática em casa. Eu me sento com meus filhos, converso, brinco, faço tarefas, enfim, consigo olhar para eles, amá-los, entrar no mundo deles. Isso é fundamental! Ainda assim, marquei Psicóloga para mim e meu filho do meio, a fim de buscar mais orientações de quem entende.
 
Minha filha mais velha, de treze anos, ama o padastro, apesar de saber de sua enfermidade e internação. E ela não quer que nos separemos.
 
Isso porque, apesar da dor e das dificuldades que essa doença traz a uma família, aquela loucura gerada pela codependência, graças a Deus, não acontece mais.
 
Segundo o Dr. Leonardo, há cura para a dependência química, mas isso é assunto da próxima aula... Ele mostrou muitos tratamentos que estão sendo estudados, e deu muitas esperanças de progressos nessa área. Tomara!
 
Mas, enquanto um remédio milagroso não chega, temos o tratamento psiquiátrico, o tratamento psicológico, o grupo de apoio e a religiosidade, que dão resultados positivos!
 
Segundo Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos (NIDA): “assim como a hipertensão, o vício é uma doença crônica que exige cuidados contínuos. As taxas de recaídas de dependentes químicos são similares a outras doenças crônicas, como diabetes do tipo 1, hipertensão e asma, que também são caracterizadas por um grande número de recaídas pós-tratamento”.
 
Se ela que é pesquisadora do assunto, e foi considerada pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo disse isso, quem sou eu para contradizer.
 
Apesar disso tudo, meu marido luta contra a sua doença. Sempre. E conseguiu se manter limpo por um ano e cinco dias, além de outros períodos. Mais que isso, ele quer continuar limpo. Se eu me separar dele, é porque decidi que minha vida será melhor sozinha com meus filhos, mas não porque deixei de acreditar em sua recuperação.
 
Conheço muitas histórias de pessoas recuperadas, e acredito que um dia ele conseguirá se manter em seu ponto de equilíbrio, porque esse é o seu desejo, apesar da sua dificuldade física.
 
Com o tempo em abstinência, e com a ajuda de medicações, o cérebro se restabelece. 
 
Além disso, confio em um Deus muito maior do que eu, do que meu esposo, e do que a sua enfermidade. E enquanto ele quiser sua recuperação, estarei ao seu lado, como esposa ou como amiga, porque o amo. E, pra mim, amar é isso...
 
Nós, familiares, não somos culpados pelo uso de drogas do nosso amado dependente químico, e se não buscarmos ajuda, podemos chegar sim à exaustão emocional, física e até financeira. Mas, uma família em recuperação e conhecedora do assunto, aumenta em muito as chances de recuperação do adicto, porque aprende a lidar melhor com o problema, além de sofrer menos.
 
Queridas, pra terminar, gostaria de sugerir que os comentários postados fossem apenas sobre nós mesmos, nossa experiência, nossa vida. Ou então, mensagens com carinho. Não temos o direito de julgar o sentimento do outro, e isso não ajuda em nada. Quase todas(os) que chegam aqui, chegam machucadas, tímidas, inseguras, querendo apenas compreensão e amor incondicional. Portanto, a partir de hoje, vou moderar os comentários. Coisas do tipo “ridícula” e “criançona” só machucam, e todas nós já estamos machucadas demais. Vamos nos dar as mãos. Se não concordamos com a decisão da outra, oremos. Não somos donas da razão. Não podemos “salvar” ninguém de seus atos. Então vamos nos centrar mais em nós mesmos, e com nossas partilhas certamente ajudaremos bem mais!
 
 
Beijos.

8 comentários:

  1. Adorei Polly...muito esclarecedor mesmo....vou mostrar pro meu marido hoje à noite!
    Eu só venho aqui relatar minha dor, sofrimento.....hoje quero partilhar o que está acontecendo de bom na nossa casa!
    Meu marido começou o tratamento no CAP's, usando alguns medicações pra controlar a ansiedade e abstinência, indo no NA, TRABALHANDO....e tudo isso porque ele quis, partiu dele....não adiantava eu ficar gastando minha saliva...por mais que ele tentasse ficar limpo...não passava de dois dias....foi muito sofrimento....mas, graças á Deus e seu padrinho do NA que falou umas boas verdades pra ele e creio eu que abriu sua mente, está limpo há 14 dias, tomando algumas medicações, seguindo na sua produtiva rotina.
    Ele tinha pedido pra ser internado no CAP's....está aguardando uma vaga, mas sua determinação em parar está tão grande, que ele acredita que não precisa mais...ele diz preferir trabalhar que isso está ocupando sua mente....ele me disse que pegou nojo da sua droga preferida, viu a rasteira devastadora que a mesma causou em sua vida e na nossa! Relembra às vezes, as coisas erradas que fez e hoje ele vê com mais clareza e amadurecimento.
    Está sendo muito bom, Polly...é maravilhosa essa fase da recuperação....hoje compreendo seu sentimento em relação á isso. E Eu estou torcendo demais aqui por vocês, sempre conto da sua história pro meu marido e ele ficou chateado quando soube que seu marido tinha recaído depois de um ano...ele se sentiu impotente perante a isso....diz ter medo disso acontecer...mas, é uma doença...tem que seguir o tratamento e eu vou ficar de olho, caso ele dê algum sinal de recaída....
    Eu continuo com depressão, co-dependência....mas aos poucos, dia a dia, estou conseguindo fazer algo diferente por mim, pela minha casa, meu filho. Quero muito voltar a trabalhar, mas não me sinto preparada ainda, continuo insegurança.
    Não dá pra eu ir nas reuniões do naranon...é longe aqui de casa, tem nosso filho, não tem onde deixar...queria muito ir, mas não dá!!
    Essa minha co-dependência é gritante...eu levava e buscava meu marido todo dia no Cap's até ele começar a trabalhar, trazia comida pra ele na cama, os remédios...fiz muito por ele nesse início de recuperação...agora tenho que concentrar essas energias na minha recuperação!
    Polly....obrigada por tudo que partilha com a gente...é sempre positivo estar aqui! Beijos amore! ;)

    ResponderExcluir
  2. Oi companheira!
    Seu filho é sempre bem vindo nas reuniões do Nar-ANON, toda criança faz barulho, não consegue ficar parada durante duas horas, mas todo final de reunião nos reunimos e fazemos um momento de silencio : "A TODO FAMILIAR QUE AINDA SOFRE, POSSA ENCONTRAR UMA SALA COMO ESTA!"
    Não especificamos que esse familiar venha sem filhos! rsrsrsrs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aii Cici...mas eu morri de vergonha quando eu fui e ele foi junto....só atrapalhou...o tempo todo..rsrs...ele não pára quieto mesmo...e cada dia que passa ele fica mais terrível...um pentelho mesmo!! rsrsrs
      Vou me preparar psicologicamente...vou tentar sozinha e com vocês.....agora que estou conseguindo me desligar do meu marido aos poucos, creio que consigo me levantar novamente! Ele está ocupado em sua recuperação e eu até estou ociosa aqui....sem ter que ficar mais preocupada tanto como eu ficava...rsrs...é normal isso né? Obrigada pela força de sempre!

      Excluir
  3. por favor leiam
    http://modificaramimmesma.blogspot.com.br/2012/10/um-mal-chamado-retorno.html

    ResponderExcluir
  4. estou ansiosa pelo proximo post, continue compartilhando estas novas descobertas!

    ResponderExcluir
  5. Oi..seu blog é muito importante, e é importante também que nós separemos nossa vida, e como disse, como amiga ou esposa vai estar ao lado dele...Meu namorado também é uma pessoa muito boa quando não esta em recaída, ele recaiu depois de 3 meses limpo(um dos vários períodos limpo, essa foi semana passada)...e tem sido difícil, mas a minha vida continua cheia de projetos e coisas novas, ainda para mostrar pra ele que vale a pena viver...Eu acredito na recuperação dele..e na do seu marido também!Fica com Deus! Grande abraço! Ansiosa também pelo proximo post! =)

    ResponderExcluir
  6. Concordo plenamente com você Poly, acredito fielmente na recuperação do meu namorado, mas não sei se aguento recaídas depois de tudo que aguentei sozinha sem que a família dele ou a minha soubessem. Se um dia, Deus me livre, nós terminarmos não é porque eu deixei de acreditar, mas é porque as perdas sobrepuseram aos ganhos e minha vida vale mais. Mas eu sei, ele vai se recuperar, todos vão, eu acredito em milagres!

    ResponderExcluir
  7. Essa doença é mesmo muito complexa qto mais se busca mais se descobre e claro que é de suma importância sabermos com quem estamos lutando sempre falo isso para minha mãe,irmãs e a noiva do meu mano temos que conhecer para convivermos melhor com ela com o nosso amado...Sigua em frente querida força...Beijos

    ResponderExcluir