quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Você me acolhe?



Boa noite, queridas!

Muito obrigada pelo carinho de vocês por email e facebook!

Hoje eu estava meio entristecida com o que aconteceu nos comentários do post “meu luto”. Confesso que estava pensando em parar com o blog.

Parar porque esse é o cantinho onde, desde o início, me sinto a vontade para falar dos meus sentimentos, dos meus erros, dos meus acertos, sem ter medo de ser rejeitada ou julgada. Um lugar onde me sinto a vontade para ser eu mesma, sem medo de não ser amada.

É assim que me sinto no grupo de apoio. E é assim que quero que todas se sintam aqui também.

Amigas, sou uma mulher adoecida. Meu pai foi adicto a vida toda. O perdi quando tinha dezesseis anos, de overdose. Minha mãe sempre teve dificuldade em nos ouvir, e em entender o que sentíamos, ela preferia impor, talvez por seus próprios traumas. Ela foi embora do Brasil quando eu tinha dezenove, e nunca mais voltou.

Estou aqui só, e o blog foi a forma que encontrei de não me sentir assim!

Não sintam pena de mim, por favor! Estou falando isso para que saibam que por traz desse blog, há apenas uma mulher sensível, que sofre assim como vocês, e cheia de marcas da vida, e que somente no grupo de apoio encontrou amor e aceitação de verdade.

Confesso que fico sem saber como agir quando me pressionam a fazer ou falar algo, não porque eu não aceite, mas porque me sinto fragilizada, pela minha história de vida, sempre com imposições, e com pouca compreensão. Me dá um bloqueio, entendem?

Mas, antes de tomar qualquer decisão sobre o fim do blog, decidi conversar com uma companheira... Que luz ela tem! E ela me ajudou a voltar ao princípio. Às minhas intenções ao criar o blog. E vi que mesmo com minhas falhas, tenho ajudado a alguns, e principalmente continuo sendo muito ajudada por vocês. Independente se concordam ou discordam de mim, o carinho que recebo é lindo!

Gostaria que todas vocês lessem a Postagem Um Mal Chamado Retorno, do blog da Cicie. Ela simplesmente conseguiu escrever tudo o que tenho no meu coração sobre o assunto.

Na minha postagem anterior, eu disse que iria moderar os comentários. Retiro o que disse. Sintam-se a vontade, como sempre estiveram aqui. Perdoem-me. Mas, leiam antes a postagem dela. Ok? E inclusive podem deixar os comentários sobre esse assunto lá também, porque estou ainda meio fragilizada com tudo o que estou vivendo, e estou precisando só de amor incondicional mesmo.

Se der, amanhã postarei sobre a aula que terei pela manhã... Galerinha tá ansiosa, né? Eu também!

Beijos.
Fiquem com Deus!

Vamos multiplicar!


Participei ontem da primeira aula do curso de Formação de Multiplicadores Sociais em Prevenção do Uso e Abuso de Substâncias Psicoativas, ministrado pelo Psiquiatra Leonardo Moreira, Especialista em Dependência Química e um dos nomes mais conceituados em Brasília, na área.
 
Eu já sabia que a dependência química é uma doença, mas nunca havia visto essa doença de forma tão detalhada. As drogas afetam o cérebro em sua região frontal (responsável pelo ponderamento), na região central (responsável pelo prazer), e também na área responsável pela memória.
 
A maioria dos nossos familiares dependentes químicos começou o uso na adolescência, então quando usaram a droga pela primeira vez, foi jogado um balde de dopamina (prazer) que não sentimos nas coisas boas (comida, sexo, lazer, etc) do dia a dia. Um prazer que somente a droga proporciona. Com o uso, o cérebro foi criando receptores que ficam dentro dos neurônios, e que passaram a “pedir” novamente aquele prazer. Isso é a dependência química. E por isso o comportamento deles muda, passando a viver para que essa “necessidade” seja satisfeita. Infelizmente, essa área interna do cérebro, que fica desregulada com o uso das drogas, foge do nosso domínio, não temos acesso a ela.
 
“Quando o dependente químico diz que nunca mais quer usar drogas, é verdade. Ele está usando a região externa do cérebro quando afirma isso. Mas, quando ele recai é porque involuntariamente, a região central, que está desregulada, pede pela droga.” Disse o professor.
 
Os principais sintomas da dependência química são: compulsão (desejo com perda de controle), tolerância (aumento progressivo das doses usadas para obter o mesmo efeito) e abstinência (conjunto de sintomas desagradáveis quando para ou diminui o uso da droga).
 
O que faz alguém deixar de ser usuário e passar a ser dependente? Genética, resiliência, vulnerabilidade, outros transtornos, cenário em que está inserido, enfim, um conjunto de fatores.
 
Os sete primeiros anos de vida do ser humano são fundamentais. É nesse período que muita coisa se define, e que o cérebro está em um processo acelerado de perdas de neurônios. Fiquei pasma quando ele afirmou que “o impacto emocional causado em uma criança que convive com uma mãe depressiva é o mesmo de uma criança que foi abusada sexualmente.” Isso o tornará vulnerável a qualquer transtorno (depressão, pânico, etc) ou mesmo ao uso de substâncias.
 
Quando ele falou isso, me lembrei de nós, codependentes, e do quanto é importante que nos tratemos.
 
Graças a Deus, hoje consigo separar bem as coisas. Meu marido recaiu, mas não houve nenhuma cena traumática em casa. Eu me sento com meus filhos, converso, brinco, faço tarefas, enfim, consigo olhar para eles, amá-los, entrar no mundo deles. Isso é fundamental! Ainda assim, marquei Psicóloga para mim e meu filho do meio, a fim de buscar mais orientações de quem entende.
 
Minha filha mais velha, de treze anos, ama o padastro, apesar de saber de sua enfermidade e internação. E ela não quer que nos separemos.
 
Isso porque, apesar da dor e das dificuldades que essa doença traz a uma família, aquela loucura gerada pela codependência, graças a Deus, não acontece mais.
 
Segundo o Dr. Leonardo, há cura para a dependência química, mas isso é assunto da próxima aula... Ele mostrou muitos tratamentos que estão sendo estudados, e deu muitas esperanças de progressos nessa área. Tomara!
 
Mas, enquanto um remédio milagroso não chega, temos o tratamento psiquiátrico, o tratamento psicológico, o grupo de apoio e a religiosidade, que dão resultados positivos!
 
Segundo Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos (NIDA): “assim como a hipertensão, o vício é uma doença crônica que exige cuidados contínuos. As taxas de recaídas de dependentes químicos são similares a outras doenças crônicas, como diabetes do tipo 1, hipertensão e asma, que também são caracterizadas por um grande número de recaídas pós-tratamento”.
 
Se ela que é pesquisadora do assunto, e foi considerada pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo disse isso, quem sou eu para contradizer.
 
Apesar disso tudo, meu marido luta contra a sua doença. Sempre. E conseguiu se manter limpo por um ano e cinco dias, além de outros períodos. Mais que isso, ele quer continuar limpo. Se eu me separar dele, é porque decidi que minha vida será melhor sozinha com meus filhos, mas não porque deixei de acreditar em sua recuperação.
 
Conheço muitas histórias de pessoas recuperadas, e acredito que um dia ele conseguirá se manter em seu ponto de equilíbrio, porque esse é o seu desejo, apesar da sua dificuldade física.
 
Com o tempo em abstinência, e com a ajuda de medicações, o cérebro se restabelece. 
 
Além disso, confio em um Deus muito maior do que eu, do que meu esposo, e do que a sua enfermidade. E enquanto ele quiser sua recuperação, estarei ao seu lado, como esposa ou como amiga, porque o amo. E, pra mim, amar é isso...
 
Nós, familiares, não somos culpados pelo uso de drogas do nosso amado dependente químico, e se não buscarmos ajuda, podemos chegar sim à exaustão emocional, física e até financeira. Mas, uma família em recuperação e conhecedora do assunto, aumenta em muito as chances de recuperação do adicto, porque aprende a lidar melhor com o problema, além de sofrer menos.
 
Queridas, pra terminar, gostaria de sugerir que os comentários postados fossem apenas sobre nós mesmos, nossa experiência, nossa vida. Ou então, mensagens com carinho. Não temos o direito de julgar o sentimento do outro, e isso não ajuda em nada. Quase todas(os) que chegam aqui, chegam machucadas, tímidas, inseguras, querendo apenas compreensão e amor incondicional. Portanto, a partir de hoje, vou moderar os comentários. Coisas do tipo “ridícula” e “criançona” só machucam, e todas nós já estamos machucadas demais. Vamos nos dar as mãos. Se não concordamos com a decisão da outra, oremos. Não somos donas da razão. Não podemos “salvar” ninguém de seus atos. Então vamos nos centrar mais em nós mesmos, e com nossas partilhas certamente ajudaremos bem mais!
 
 
Beijos.

Trabalhando por uma causa!

Além do livro Amando um Dependente Químico - Dias de Dor, com 80 exemplares vendidos (fora os que foram distribuídos a pessoas de baixa renda); e do Blog Amando um Dependente Químico, hoje com 95.500 acessos; e da página no Facebook, hoje com 212 curtidas e um alcance médio de 10.000 pessoas por semana; tenho trabalhado em um projeto da Secretaria de Justiça do DF, que objetiva dar apoio e carinho aos familiares de dependentes químicos, o projeto Ame, mas não sofra! 

Além disso, já me coloquei também à disposição para apoiar o Projeto Viva a Vida sem Drogas. 

E eventualmente escrevo artigos para a revista Anônimos.

Atualmente estou fazendo três cursos na área: Formação de Multiplicadores Sociais em Prevenção ao Uso e Abuso de Substâncias Psicoativas (presencial), Abordagem Familiar em Dependência Química (a distância) e Aconselhamento em Dependência Química (a distância). 

Na verdade, me apaixonei por essa causa, e hoje encaro tudo isso como um trabalho sério!

Sou Gerente de Gestão de Pessoas em um órgão do GDF, especialista em Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas. Amo o que faço! E em troca recebo o meu salário.

Mas, o que recebo em troca do trabalho que tenho desenvolvido nessa área da dependência química, é muito superior! É um trabalho que faço com a alma, e que recebo com a alma também!

Vi os meus avós morrerem atolados na codependência, se julgando culpados pelo sofrimento e morte do meu pai, causados pelas drogas. Vivi afundada em minha dor durante anos, ao lado do meu esposo dependente químico, em razão da falta de conhecimento sobre o assunto. E um dia, descobri uma nova maneira de viver, por meio dos grupos Naranon e Amor Exigente, e também de terapias e livros. E tudo o que quero hoje é partilhar o que tenho aprendido, e como minha vida se tornou diferente, melhor, independente da doença de quem amo.

Além disso, também quero trabalhar na prevenção ao uso de drogas, afinal, sou mãe, amo e me preocupo com meus filhos, e com as crianças em geral. E nós sabemos muito bem que quando o assunto é drogas, o melhor caminho é a prevenção!

Mais tarde voltarei para dividir com vocês um pouco do que tenho aprendido nos cursos. 

O que mais nos faz sofrer é a falta de conhecimento sobre o assunto. Leiam, aprendam, entendam...

Estou muito feliz com tudo o que tenho vivido, e por estar conseguindo ajudar algumas pessoas.

Beijos e boa quarta!

Um beijo especial para uma leitora do blog que conheci ontem no curso, a M.! Estamos juntas, querida!





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Meu "luto"!


Seis dias que ele está internado.
 
Fico realmente feliz que ele tenha decidido assim, afinal muitos desistem e se entregam. E ele não. Ele continua lutando contra a sua doença.
 
Ele quer descobrir o que o fez realmente recair após mais de um ano limpo. O tratamento será diferente do primeiro. E eu ainda acredito sim que possa dar certo. Aliás, já está dando, afinal, conseguiu frear a sua adicção ativa, que estava novamente desgovernada, e passando por cima de tudo: trabalho, bens, família e dele próprio.
 
Como relatei no post anterior, não tem sido fácil a minha rotina. Tenho uma vida muito cheia, e isso tem me gerado um cansaço extremo.
 
Por outro lado, sei que esse cansaço vem da decepção da recaída. Após um ano, e com tudo aparentemente em ordem, eu realmente não esperava, mas, aconteceu, e agora é bola pra frente.
 
Acho importante viver o meu “luto”. Deixar as lágrimas caírem. Sentar um pouco. Parar e recuperar as forças, e quando achar que é hora, levantar e prosseguir. Hoje respeito os meus sentimentos e limites. E não tenho nenhum constrangimento em dividir com vocês meus momentos de fraqueza.
 
Eu nunca disse que a adicção dele não me causava dor, o que eu digo é que essa dor não para mais a minha vida, e não me impede de ter uma vida normal e feliz. Hoje o meu foco não está mais no meu esposo. E isso é um grande progresso.
 
Ontem meu filho de três anos vomitou muito. Não sei o que houve. Penso que pode ser emocional. Ele é muito ligado ao pai. Embora ele não pergunte mais pelo pai, depois que eu disse que o papai havia viajado e iria demorar um pouco, por vezes o vejo meio tristinho. Ontem pela manhã ele disse: - Mamãe, sonhei com o papai. Ele era um médico que estava cuidando da vovó.
 
Hoje de manhã ele disse: - Quando o papai chegar vou contar pra ele o tanto que passei mal.
 
Vê-lo sofrer dói demais!
 
Quanto a mim, sinto muito a falta dele. Foi um ano muito bom, de paz, companheirismo e amor. E são essas as lembranças que ficaram do meu esposo. Aquele que vi nos últimos dias, não sei quem é. Essa doença realmente machuca demais, ambos os lados. E a compulsão o domina de uma forma inexplicável. Triste.
 
O fato de saber que é uma doença, e de entender essa doença, faz com que eu sofra menos. Mas, isso não muda a instabilidade da minha vida ao seu lado. E também não muda os sonhos que tenho para os meus filhos. Por isso, é difícil ficar, e também é muito difícil ir.
 
Li muitos relatos de vocês. Pelo que vi, ninguém abandonou o ser amado em tratamento. Geralmente a escolha veio do fato do outro não querer se tratar e se recuperar. O fato dele querer, muda muita coisa.
 
Entretanto, o medo está aqui. Medo de passar por tudo outra vez. Medo de não dar certo. Medo do que tudo isso pode causar nos meus filhos.

A vida ao lado de um adicto é uma vida sem garantias, sem planos... É uma vida no só por hoje. E isso às vezes assusta.
 
Mas, como já disse, não preciso decidir nada agora.
 
Vamos levando. Um dia de cada vez...
 
Um dia talvez eu descubra se a beleza dessa rosa, ou seja, desse amor tão grande, vale a dor de suportar tantos espinhos, que por vezes fazem até sangrar, como agora...
 
Enquanto não tenho clareza, fico bem quietinha, esperando em Deus.
 
Beijo no coração!
 
 
Amigos de Brasília. Participem do Projeto Ame, mas não sofra!
 
 

domingo, 28 de outubro de 2012

Help me, please!



Estou exausta...

Meus dois filhos pequenos estão doentinhos. Não sei o que há. O bebê está com o peitinho cheio, enjoadinho e sem apetite. E o do meio, começou a vomitar agora à noite, e não para... 

Está muito calor por aqui! Acho que isso os afeta. Estou de pé para observá-los um pouco. Eles acabaram de dormir.

Nessa semana, cheguei a cochilar ao volante.

Perdi o carro no estacionamento.

Esqueci alguns itens das mochilas das crianças.

Muito, muito cansada.

Memória fraca.

Minha mente não para um segundo. Estou dormindo pouco. E durante o dia, o sono vem com força total.

Muito trabalho a fazer.

Casa pra organizar.

Filhos pra cuidar.

Contas para pagar.

É difícil porque tudo isso deveria estar sendo dividido por dois.

Mas, quando meu esposo recai, além de não poder ajudar, ele se torna um peso a mais sobre mim. Nesta semana, terei que ir ao trabalho dele mais uma vez, para ver como ficará a sua situação.

Daí me perguntam se o amo. Sim, eu o amo! Esse um ano foi maravilhoso! 

Mas, o preço que pago quando ele simplesmente deixa de estar ao meu lado, assim de repente, é alto... Muito alto... Desaba tudo na minha cabeça, e é isso que me deixa tão confusa quanto a tudo.

Co-dependênciaaaa!!!

Ele está lá na instituição se cuidando. E é isso mesmo o que ele deve fazer.

Agora quanto a mim, ainda não sei. Acho que é hora de voltar a fazer terapia, e a buscar um intensivão de Nar-anon.

“Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença.”

“Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença.”

“Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença.”

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um passo de cada vez!



Três dias que ele está internado novamente. Ainda não deu para colocar as coisas em ordem aqui dentro. Estou muito feliz com a decisão dele de não desistir, de tentar mais uma vez, sem se render à sua doença. Mas, confesso que a forma como tudo aconteceu, me machucou demais.

Hoje estive com ele no Instituto. Antes, conversei com o diretor de lá, que me sugeriu não passar nenhuma decisão para ele agora, e eu concordei. Realmente ele ainda nem voltou ao seu estado normal. Sua mente ainda está confusa. E falar sobre nossa separação agora poderia colocar tudo a perder.

Nossa conversa foi rápida e fria. Falamos sobre o seu tratamento e algumas questões práticas. Às vezes ele ficava me olhando, e eu fazia de conta que não estava vendo. Ele está se sentindo muito culpado por tudo. Muito abatido. Mas, decidido a continuar, só por hoje.

Ele perguntou sobre nós dois, e eu sugeri que ele se concentre nele e em seu tratamento, esquecendo tudo o que está aqui fora, e que depois, com o tempo, e sem o calor das emoções, conversaremos.

Não houve nem um aperto de mão. Não consegui. É tudo tão conflitante dentro de mim.

Tudo isso é muito triste. Ele está com os pés muito machucados. Abatido. Meu Deus, o que leva um ser humano, que até a poucos dias atrás vinha levando uma vida normal, a voltar a esse estado tão deprimente?! Só mesmo uma doença!

Enquanto eu aguardava para ser atendida, conversei com um dos monitores do instituto, e ele me contou sobre sua recaída após dez anos limpo. Hoje ele está limpo há um ano e alguns meses. E me falou também sobre como foi sua experiência com o divórcio, o quanto doeu, e o quanto lhe foi válido.

É, minha gente, não existe certo ou errado, quando o assunto é relacionamento com um adicto. Por vezes erramos tentando acertar, e em outras acertamos dando um tiro no escuro. Então o melhor é pedir sabedoria a Deus e seguir o coração.

Uma das coisas que aprendi no Nar-Anon é que não preciso resolver tudo hoje. Então vou respeitando aos meus limites. Organizando uma coisa de cada vez. Tomando uma decisão por dia. Respeitando minhas dúvidas e dores.

Ainda não tirei a aliança do dedo.

Ainda não sarei da dor de mais uma recaída.

Ainda não sei o que fazer.

Ontem no final da tarde, quando estava a caminho da creche dos meus filhos, passei rapidamente por uma padaria aqui da esquina, para comprar um sabão em pó, pois precisava colocar umas roupas em dia. No caixa, percebi que a senhorinha atendia aos outros e deixava a minha compra para depois. Daí perguntei, quanto é o meu? Ela não respondeu, terminou de atender aos demais. Ela que sempre era tão simpática comigo, e que é muito querida com meus filhos sempre, estava estranha. Quando ficamos apenas nós duas, ela meio sem graça começou a falar:

- Sabe o que é, seu marido passou por aqui um dia desses, pegou uma coca-cola e me pediu R$ 50,00, não entendi direito para quê, acho que era para pagar a sua babá, e em consideração a você, eu dei...

Nem a deixei terminar de falar. Retirei o dinheiro e paguei. Que vergonha!!!
- Ele é dependente químico, caso aconteça novamente, não dê, por favor.

É isso aí, quinze dias de ativa, após um ano limpo, deu pra fazer muitos estragos. Duzentos reais que ele havia recebido, mais uma caixa de ferramentas, mais a aliança, mais um par de tênis, mais um aparelho de DVD, mais um perfume, mais esses R$ 50,00 da padaria... Que loucura!

Não quero mais essa vida pra mim.

O diretor do Instituto disse que é melhor eu aguardar as emoções sossegarem, afinal, viver com um cara na ativa é intolerável, mas viver com alguém em recuperação é maravilhoso.

O difícil é ficar totalmente entregue ao querer do outro, não é mesmo?

Meu novo contrato de aluguel está pronto. É hora de começar a encaixotar as coisas. Vou vivendo um dia de cada vez. Só por hoje, ele está lá e eu aqui. E está bom assim!

Como coloquei no facebook, a confusão é grande aqui dentro: Amargura ou amar cura? Razão ou emoção? Sim ou não? Mente ou coração? Ir ou ficar? Virar as costas ou abraçar? Eita dilema!!!

Diante disso tudo, me recordo de quão limitada eu sou. E do quanto necessito de Deus na minha vida. Somente nos braços Dele tenho a capacidade de descansar em meio ao caos, na certeza de que é Ele quem está cuidando de mim, dos meus filhos, e também do meu esposo. E também na certeza de que Ele me mostrará o melhor caminho.

É como se eu estivesse conduzindo o meu carro em uma madrugada escura. Os faróis alumiam apenas poucos metros adiante. Mas, essa luz é suficiente para me fazer seguir em segurança, de pouco em pouco. Não estou conseguindo enxergar o fim da estrada, então vou dando apenas um passo de cada vez. Vivendo um dia de cada vez. Respeitando a mim mesma, e confiando em Deus!

Peça Pais & Filhos, em 24/10/12.

Às vezes é difícil segurar o choro...
 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sei que não estou sozinha!


Peça Pais & Filhos, com Alírio Neto (Deputado Distrital, Secretário de Justiça, Ator e Coordenador do Projeto Viva a Vida Sem Drogas).


“Mantenha sua fé em todas as coisas belas; no sol mesmo quando ele estiver escondido, na primavera mesmo quando ela tiver terminado.”
(Roy Gilson)


25 de outubro de 2012. Quatro horas da madrugada. Quarenta e oito horas que ele está limpo.

Como relatei no ultimo post, após ir para a Clínica, ele saiu para usar “um pouco” mais, prometendo que depois voltaria para o tratamento. E, segundo o Diretor me informou, ele voltou no dia seguinte pela manhã. Na terça-feira dormiu o dia todo, e ontem começou efetivamente o tratamento.

Do lado de cá, estou mais uma vez tentando organizar a bagunça que fica quando o tsunami da recaída passa. Tudo fora de lugar. Emoções, sentimentos, pensamentos...

Tenho recebido muitas mensagens de vocês, e muitos relatos de experiências. Leio todas e coloco na balança para ver onde me encaixo. Obrigada!

E assim vou seguindo, um dia de cada vez.

Hoje é dia de assinar o contrato com a imobiliária. Amanhã pegarei as chaves. E, se tudo der certo, no final de semana estarei no apartamento novo. Acho que isso me fará bem, respirar novos ares.

E hoje é dia de ir à Clínica para assinar o contrato e levar o enxoval que é solicitado. Estou angustiada com isso. Provavelmente irei vê-lo. Eu soube que ele perguntou se ainda tem família aqui fora...

É hora de falar para ele que chega. Que, por amor, estou me afastando. Que é o momento dele pensar somente nele, e encontrar de fato a sua recuperação.

Dói, e como dói, mas estou em paz comigo mesma. Sem culpa.

Na verdade, o que dói é pensar no que poderia ser, mas não foi. Entretanto, como sabemos, é o direito de escolha que todos temos.

Ontem à noite, assisti à peça Pais & Filhos. Já havia visto em DVD algumas vezes, mas assim ao vivo, foi a primeira vez. Levei minha filha, uma amiguinha da minha filha, e mais três amigas que também têm dependente químico na família.

Foi muito emocionante. Ver aquele pai e mãe fazendo de tudo para salvar o filho das drogas. Não deu pra segurar as lágrimas. Para muitos ali, era um belo espetáculo. Mas, para nós, é a nossa vida. Muito real.

O lado bom disso tudo é poder levar minha filha adolescente para ter informação sadia sobre as drogas, e ajuda-la a fazer as melhores escolhas no decorrer de sua vida.

Eu havia programado várias vezes com o meu esposo a nossa ida juntos a essa peça. Senti falta dele ali. Mas, existem coisas que não podemos mudar, apenas aceitar.

Ao final, uma canção ao vivo, que me é muito especial, pois me traz lembranças demais do meu esposo, e porque é uma das que eu mais canto, quando meu coração está agitado. E é com essa canção que termino este Post:


Deus está aqui neste momento.
Sua presença é real em meu viver.
Entregue sua vida e seus problemas.
Fale com Deus, Ele vai ajudar você.

Deus te trouxe aqui
Para aliviar o teu sofrimento.
É Ele o autor da Fé
Do princípio ao fim,
Em todos os seus tormentos.

E ainda se vier noites traiçoeiras,
Se a cruz pesada for, Cristo estará contigo.
O mundo pode até fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo.

Seja qual for o seu problema
Fale com Deus. Ele vai ajudar você.
Após a dor vem a alegria,
Pois Deus é amor e não te deixará sofrer.

Deus te trouxe aqui
Para aliviar o seu sofrimento.
É Ele o autor da Fé
Do princípio ao fim,
Em todos os seus tormentos.

E ainda se vier noites traiçoeiras,
Se a cruz pesada for, Cristo estará contigo.
O mundo pode até fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo!



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Um amor para recordar!



Lembro-me que um dia, ainda no início do nosso romance, ele me presenteou com um DVD do filme Um Amor Para Recordar, e me disse que era a “nossa” história. Ao ver aquela história envolvente, em que a jovem Jamie consegue mudar o rapaz Landon com o seu amor, entendi que meu marido (então namorado) passava a mensagem de que o nosso amor o havia feito alguém diferente. E eu me senti realizada. Porque, no fundo no fundo, tudo o que nós, codependentes, sonhamos em ouvir e vivenciar é isso, que o nosso amor liberte nosso amado das drogas.

E eu vi aquele filme muitas e muitas vezes, e quase todas as vezes, chorava. Amava quando ele dizia que “o amor é como o vento, não posso ver, mas posso sentir.”

E eu esperava sentir esse amor assim tão verdadeiro.

E senti. E amei. E lutei. E acreditei.

Não posso dizer que meu marido também não fez o mesmo. Sei que ele também deu o seu melhor. Sei que não foi uma mentira. Ele realmente me amava (e ama), e talvez ele precisasse acreditar que esse amor finalmente o faria diferente, livre das drogas e dos comportamentos que giram em torno da adicção ativa. E fez, por algumas 24 horas. Mas, nem tudo é como em um filme de amor.

Ontem pela manhã, insisti para que ele ficasse no Instituto, a fim de se tratar, ainda que fosse um tratamento ambulatorial. Mas, ele resistiu. Não quis ir. Estava cheio de argumentos, e até se ofendia com minha insistência. Eu não conseguia ver nele o homem que tanto amo. Estava frio. Decidido. Eu tinha certeza que ele novamente usaria drogas.

Quando ele está nesse processo de fissura, obsessão e compulsão, não consegue pensar em mais nada. Torna-se cruel e frio. Passa por cima de mim e das crianças como um trator. E confesso que não aguento mais isso.

Então mais uma vez ele fez a sua escolha. Foi para o trabalho. Mas, as 11h da manhã já havia voltado para casa. E voltou para a sua droga de preferência.

Eu estava no trabalho. Cheguei um pouco mais cedo em casa, porque passei na imobiliária para assinar o contrato de aluguel de um novo apartamento. Ao chegar em casa, ele estava deitado no sofá da sala, alucinado.

“Vamos para o instituto.” Falei.
“Vamos”. Foi a inesperada resposta dele.

No carro, apenas o silêncio. Ele estava ao meu lado só de corpo presente. Que tristeza vê-lo se acabando assim! O caminho foi longo.

Chegamos. Ele desceu do carro sem nem ao menos me olhar. O deixei lá. Me senti aliviada. Mas, esse alívio durou pouco. Logo meu telefone tocou. Era o diretor do Instituto avisando que meu esposo havia aceitado a internação, mas disse que sairia “para usar mais um pouco” e depois voltaria. Agora são quase 04 horas da madrugada e ainda não temos notícias.

Estou decidida, amigos. Ainda nesta semana me mudarei daqui com as crianças. Fiz tudo o que era possível na tentativa de ajuda-lo. Talvez pelas perdas, pela dor da solidão, ele encontre um real caminho de recuperação. Tomara.

Dói demais. Eu o amo com todo o meu ser. E sei que vou continuar amando. Mas, não posso continuar me maltratando assim. Tenho três filhos lindos que precisam de mim. E também sei que mereço uma vida em paz.

Nesses últimos dias, tivemos muitas conversas, amigavelmente. Ele fez a escolha dele. Ele me abandonou com as crianças. Foi ele quem me deixou. Não o culpo por isso, não tenho mágoas nem raiva, sei que ele está doente. Mas, é hora de seguir com a minha própria vida.

São muitas as lembranças, boas e ruins. Temos uma história juntos. Podemos bater no peito e dizer que vivemos um amor de verdade. E isso pra mim, valeu. Estarei sempre disposta a ajuda-lo no que for possível, mas preciso manter a distância suficiente para evitar que sua adicção continue afetando a mim e aos nossos filhos, de maneira tão cruel.

No final, entendi que não foi o amor da Jamie que fez o Landon diferente. Foi o amor do Landon pela Jamie que o mudou, porque ele quis mudar, e escolheu essa mudança e esse amor.

Ainda que não tenha saído tudo como sonhei, e que o final não seja como idealizei, posso dizer que também tenho um amor para recordar, sempre.

Não desisti e nem deixei de acreditar...

“Nosso amor é como o vento, não posso ver, mas posso sentir.”

Fiquem com Deus, meus queridos!

Força, fé e esperança!



domingo, 21 de outubro de 2012

Pegadas na Areia!


Motivos para ser feliz? Ainda tenho muitos!

Ele está limpo há menos de 48 horas.

Mal consegue andar de tantos calos nos pés.

Ontem, enquanto ele trabalhava, aproveitei a tarde com meus três filhos. Fomos a um shopping, e foi divertido.

Ao final do dia, fomos juntos ao trabalho dele para buscá-lo. Ele ficou feliz. Exibiu os filhotes aos seus colegas.

Depois, lanchamos todos juntos.

Ele está com a cabeça aérea. Várias vezes não ouve o que a gente fala. Não está me ajudando em quase nada. Só faz coisas para si mesmo.

Ele espera que eu tenha pena pelas feridas nos pés dele, mas, posso ser sincera? Sinto raiva quando o vejo mancando. Porque me lembro do quanto aquela noite foi difícil pra mim. E porque eu não queria que fosse assim...

Tenho tentado lavar o meu coração.

Mais uma vez, para ele, o problema está no nosso casamento, em mim, nas crianças, no trabalho, na casa... no mundo inteiro, menos nas drogas. Está irritado.

Estou completamente só. Aquele que estava ao meu lado até uns 15 dias atrás, de fato, não está mais aqui. Isso é horrível, porque a gente fica sempre na espera de que aquele ser volte.

De um lado estou eu, do outro ele, e no meio a adicção. Antes, éramos nós dois do mesmo lado, contra a doença dele. Mas, quando ficamos assim, distantes, e ele tão cego, me sinto fraca, impotente, e pouco ou quase nada posso fazer.

Tenho orado por ele. Tenho torcido. E tenho amado.

Ele diz que para ele é muito difícil uma nova internação. E eu imagino que realmente seja. Mas será que ele pensa que para mim é fácil? Será que ele tem ideia do que é assumir três filhos, uma casa, trabalho, contas, tudo sozinha, mais uma vez? Não, não é fácil. Mas, estou disposta a passar por tudo novamente, porque o amo.

Ele está com muita pena de si mesmo. Isso é totalmente destrutivo.

Ele não tocou no assunto da internação ontem a noite. Eu também não. Vamos ver hoje como vai ser. Uma coisa é certa, do jeito que está, não dá pra ficar.

Percebem como as drogas tem o poder de mudar totalmente o comportamento deles? Isso é o que chamamos de ativa. Aquele marido doce, vivia em recuperação, e aí era outra história...

Quero agradecer a vocês pelo amor incondicional. O carinho de vocês por meio de suas palavras tem aliviado a dor causada pela adicção. Obrigada mesmo!

Acho que todos já leram essa mensagem, Pegadas na Areia, mas vou deixá-la aqui, para que nunca nos esqueçamos de que Deus está conosco sempre!

"Pai, tá difícil caminhar, preciso de colo...”


Uma noite eu tive um sonho...
Sonhei que estava andando na praia com o Senhor
e no céu passavam cenas de minha vida.
Para cada cena que passava,
percebi que eram deixados dois pares
de pegadas na areia:
um era meu e o outro do Senhor.
Quando a última cena da minha vida
passou diante de nós, olhei para trás,
para as pegadas na areia,
e notei que muitas vezes,
no caminho da minha vida,
havia apenas um par de pegadas na areia.
Notei também que isso aconteceu
nos momentos mais difíceis
e angustiantes da minha vida.
Isso aborreceu-me deveras
e perguntei então ao meu Senhor:
- Senhor, tu não me disseste que,
tendo eu resolvido te seguir,
tu andarias sempre comigo,
em todo o caminho?
Contudo, notei que durante
as maiores tribulações do meu viver,
havia apenas um par de pegadas na areia.
Não compreendo por que nas horas
em que eu mais necessitava de ti,
tu me deixaste sozinho.
O Senhor me respondeu:
- Meu querido filho.
Jamais te deixaria nas horas
de prova e de sofrimento.
Quando viste na areia,
apenas um par de pegadas,
eram as minhas.
Foi exatamente aí,
que te carreguei nos braços.