sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Minha história de co-dependente!


Nos blogs aos quais sigo, nas reuniões que participo, nos livros que leio, nas terapias familiares com a Psicóloga, o tema sempre é esse: a co-dependência. Ela sempre é o assunto principal, às vezes de forma indireta, e às vezes mostrando mesmo a sua cara.

Ela também é chamada de dependência afetiva ou dependência emocional.

Geralmente começa com uma linda história de amor. E a vontade de que isso seja perfeito e duradouro nos motiva a gradualmente nos anularmos para “servir” ao ser amado, até que um dia nos vemos sem identidade, sem vida, sem rumo, e passamos então a exigir que ele nos retribua com o mesmo tipo e quantidade de amor. Passamos a pensar que não podemos sobreviver sem o ser amado. Somos dependentes dele. Com sintomas de compulsão e de fissura. Só que no nosso caso, a droga é uma pessoa, e a loucura é algo parecido com amor, mas, que olhando bem de pertinho, é uma doença... ou seria uma maldição?!

Não precisa ser pai, mãe, esposa, irmã, namorada, ou alguém próximo de um dependente químico para desenvolver a co-dependência. Ela é o resultado da seguinte continha matemática:

CO-DEPENDÊNCIA = Rejeição real ou imaginária de alguém importante + Necessidade não satisfeita de amor + Baixa auto-estima + Necessidade de controle por não confiar nas pessoas + Solidão + Insegurança + Amargura.

Pronto. É só colocar todos os ingredientes juntos e misturar, que o resultado será um ser co-dependente.

O que ocorre é que quando convivemos com um dependente químico, passamos por todos os itens acima citados, ou ao menos, a grande maioria, e por isso somos propensos a desenvolver essa dependência afetiva incontrolável.

Quando olho para mim, vejo que sempre fui uma co-dependente, desde pequenininha. Talvez pela dependência química e ausência constante do meu pai, talvez pelas conseqüências que isso causou na minha mãe, talvez pela rejeição que senti dela, sei lá, mas, o fato é que eu sempre tive uma necessidade enorme dentro de mim de amor e aceitação das outras pessoas. Ah, como eu desejava ser querida! E eu pensava que era necessário fazer algo para isso, e não apenas existir e ser eu mesma...

Nunca tive muitas coleguinhas na infância. Nunca fui popular. Embora sonhasse com isso.

Aos 12 anos me apaixonei pela primeira vez. Aquele amor da infância, sabe? E, um dia, descobri que o rapazinho também gostava de mim. Ele era 05 anos mais velho que eu. Havíamos crescido na mesma igreja. E eu sonhava com o meu principezinho encantado.

Resolvi contar o que estava sentindo para a minha mãe. E ela ficou totalmente fora de si com a idéia de eu estar apaixonada. Ela devia ter muitos traumas na área sentimental, não sei ao certo. Na minha pré-adolescência e adolescência, sofri muitas agressões físicas e verbais por ter confiado a ela o que eu sentia. Foi muito doloroso. Meu namoradinho me via na escola, e nós nunca havíamos sequer trocado um selinho. Apenas de mãozinhas dadas, ele me consolava pelo que passava em casa. Eu não conseguia entender. Na verdade, até hoje dói lembrar.

Resumindo a história, em 1997, nos casamos. Eu, aos 19, e ele aos 24. Minha família toda apoiou, menos minha mãe. Ela não foi ao casamento e somente voltou a falar comigo seis meses depois, quando ela foi embora do país. Ele não tinha nenhum vício, era de família boa, apenas era um rapaz muito simples. Mas, o que ele e eu não sabíamos, é que tudo o que eu havia vivido na minha infância e adolescência estava cultivando dentro de mim um monstro incontrolável chamado co-dependência.

Sempre insegura. Sentia-me culpada por tantas coisas. Sentia-me só. Muito só. Não houve traição, não houve uma briga feia, nada, mas, eu estava tão infeliz. Às vezes penso que estava em um quadro depressivo, mas, ninguém me compreendia, nem eu mesma.   

Em 2002, aos 24 anos, decidi divorciar-me e foi definitivo. Eu o amava, mas, não conseguia conviver com esse vazio dentro de mim, e pensava que as causas disso estavam no casamento ou nele.

Daí foi ficando cada vez mais explícita a minha co-dependência. Eu não me interessava por quem se interessava por mim. Eu não me interessava por quem não tinha problemas, afinal, eu precisava “ajudar” alguém para merecer o seu amor, não é mesmo? Não tive muitos relacionamentos, posso dizer que foram apenas três: meu ex-marido, um ex-namorado adicto, e meu atual esposo.

Sim, já namorei anteriormente com um dependente químico. Foi no ano de 2004. Um rapaz muito bonito (estilo Joe Tribianni do Friends), filho de um coronel aposentado e de uma linda peruana. Classe média alta. Mas, ele não tinha nada na cabeça. Pronto, suficiente pra eu me apaixonar... Nos dois primeiros meses, ele grudou em mim feito chiclete, só depois descobri que ele estava me usando para manter-se limpo. Mas, depois, ao recair, comecei a viver o que todas relatam em suas histórias. A descoberta do vício dele, o partilhar da sua dor, o pedido de ajuda, os sumiços. O agravante foi que, além disso, ele me traiu. E por isso terminei o relacionamento. Sofri um ano por ele, acreditam? Claro, ele era o meu número. Co-dependente + Homem problemático se encaixam perfeitamente.

Mas, segui minha vida e superei.

Um ano depois nos reencontramos, mas, eu já estava ciente do que eu não queria para mim.

Eu trabalhava. Fazia faculdade. Mergulhei na dança de salão, o que me fez um bem enorme. Curtia minha filhota. Mas, dentro de mim, havia um monstro adormecido...

Um dia conheci meu esposo. Quem quiser saber melhor como começou nossa história, veja os posts O início, O encontro, e Entrevista com a Poly.

É engraçado que todas as histórias de amor que leio por aqui das minhas companheiras são histórias intensas, não é mesmo? A nossa não foi diferente. O diferente é que hoje, após 05 anos e 02 meses vivendo sob o mesmo teto, eu o amo ainda mais, e sinto que ele também me ama de verdade.

Seria muito fácil e cômodo jogar todas as minhas dores e frustrações sobre ele, sobre a sua doença, mas, como podem ver, a realidade não é bem essa. Quando vejo relatos das moças que namoram adictos, sobre continuar ou terminar, o que digo é que olhem para si mesmas, se amem, se cuidem bem, porque somente assim encontrarão o caminho da felicidade.

Quanto a mim, decidi que a minha co-dependência não vai acabar com o meu casamento, nem com a minha vida. É certo que um dependente químico na ativa é intolerável, mas, também é certo que há quatro meses meu esposo está limpo, se tratando, e existem outras portas de tratamento se abrindo, e eu quero estar ao lado dele, dizendo: acredite, tente! E principalmente, segura de mim mesma, feliz comigo mesma, gostando do que vejo no espelho, me aceitando. Isso faz toda a diferença.

“Como dar a outro aquilo que não se tem? O ponto de partida do Amor-Exigente é você. Ele começa com cada um de nós, para então expandir-se. Nesse caminho, estabeleceram-se cinco metas:
- Não procurar causas fora de si mesmo para desculpar-se.
- Responsabilizar-se por todas as suas atitudes.
- Fixar os limites do que é aceitável.
- Exigir que o comportamento inaceitável cesse.
- Não é preciso ser autoridade, com solução para todos os problemas; é preciso amar e querer ajudar, para ser ajudado.” (O que é Amor Exigente, pág. 33)

Tudo o que estou tentando agora é agir de modo diferente para que os resultados sejam diferentes.

Não gosto de mexer no passado, mas, às vezes é preciso. Doeu escrever este post, mas, foi bom para mim.

Só por hoje, meu esposo está limpo há 118 dias.

Só por hoje, eu não preciso fazer nada para receber o seu amor, apenas amá-lo!

Para terminar, quero deixar claro que amo muito a minha mãe. Atualmente nos falamos regularmente via telefone, embora eu não me sinta a vontade para contar-lhe o que se passa comigo. Entretanto, hoje entendo que as limitações dela são exemplos de onde eu posso chegar, se não me tratar e não abolir da minha vida essa tal co-dependência.

Hoje eu quero apenas ser como uma flor. Aquela flor linda, com um perfume tão gostoso, que mesmo que ninguém a perceba, e ainda que ninguém admire sua beleza ou sinta sua fragrância, ela permanece ali, crescendo... O que as pessoas acham dela é irrelevante, o importante é o que ela é, e ponto. Hoje não preciso condicionar a minha beleza ou a minha fragrância à aceitação dos outros, e isso é o que eu chamo de ser livre!

17 comentários:

  1. Que historia hein Poly. Esse negocio de co dependência é muito triste, nos atrapalha demais! Deu vontade de chorar quando li esse post.. muito triste... Mas o importante é que você está forte e se recuperando desse monstro.
    Me identifiquei bastante com alguns trechos desta sua historia e percebi que ainda tenho comportamentos como co dependente... É muito difícil deixar certas atitudes de co dependente.. é muito difícil deixar o outro caminhar sozinho... é triste isso.
    Bjus. Serenidade!
    Te amo!

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    1. Oi, Pzinha! Co-dependência é algo muito sério, atrapalha sim, e pode levar a consequências como depressão ou até coisa pior. É preciso cuidar-se! Relato o meu passado porque sei que tem gente que passa pelo mesmo que eu, mas, hoje, graças a Deus, estou bem! Sei o que sente quanto ao "deixar o outro caminhar sozinho", mas, isso é necessário, querida.
      Também te amo, flor!
      Beijos.

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  2. pOLY... lendo seus relatos estou conseguindo forças para amar. Me amar... e amar o próximo.
    Consegui perceber qual personagem sou na minha história de vida!
    Tudo o que estou tentando agora é agir de modo diferente para que os resultados sejam diferentes.
    beijos... se cuida!

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    1. Que palavras mais gratificantes de se ler! Saber que está conseguindo se amar é maravilhoso! Afinal, só podemos dar o que temos, não é mesmo?!
      Agir diferente para que os resultados sejam diferentes!
      Beijão!

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  3. Noooossa,q lindo Poly!!! Estou emocionada com tua história... Saiba q minha vida de co-dependente,meu relacionamento com minha mãe,minha mania de procurar por "pessoas problema",enfim...,tbm se parece contigo...
    E é bom ler sobre isso até pra me abrir os olhos sobre a minha responsabilidade nisso tudo.
    Obrigada mais uma vez!!

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    1. Querida Monica, não somos únicas nessa história, tenha certeza. Ela é mais comum do que se imagina. Mas, o bom é que podemos dar um basta nisso, e tomar as rédeas da nossa vida, não é mesmo?! Nossa vida e felicidade é responsabilidade nossa, só nossa!
      Grande beijo, querida!

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  4. Tô muito feliz por Poly! Continue nessa sua força.Mulher guerreira!

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    1. Coisa boa é saber que tem alguém torcendo por mim! Obrigada pelo carinho!!!
      Beijos.

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  5. Poly, acho que essa foi uma das postagens mais lindas, tanto sentimento e tanta verdade envolvida, me fez refletir sobre a minha codependência, sobre as minhas frustrações, obrigada por mais essa ajuda!
    Beijos

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    1. Giulli, posso te afirmar que foi um dos posts mais difíceis de escrever. Doeu. Mas, é bom encarar de frente aquilo que traz consequências até hoje, pois, é uma forma de vencer isso, e mudar o rumo das coisas. Eu que te agradeço sempre, querida!
      Beijos e bom domingão!

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  6. Poly, você sempre tão doce, sabe usar as palavras corretamente e nos faz enxergar que nem sempre temos razão, muito obrigada..suas palavras veio num momento de total ativa da minha parte como co-dependente, e parece que foi escrito pra mim, depois de chorar por quase duas horas compulsivamente e falando que Deus tinha me abandonado, vi sue post no face, e vim correndo lê e para minha surpresa..era pra mim..eu senti..muito obrigada.

    Estamos Juntas companheira "Maria"

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    1. Querida Maria, não sei o que aconteceu, mas, uma certeza tenho, Deus não te abandonou! Acredite!
      E uma das coisas que aprendi é que não somos perfeitas porque convivemos com adictos e os amamos, ao contrário, temos muitos problemas a vencer em nós mesmas, que muitas vezes escondemos embaixo da dependência química de quem amamos... É hora de olhar para nós, não é mesmo?!
      Fique bem, querida!
      Estamos juntas!
      Beijo no coração!

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  7. Oi minha amiga Poly,

    Saudades!!!
    Lindo post, me emocionei mas uma vez...
    Depois você diz que não e guerreira, para mim você é muito guerreira , muito forte, continuo torcendo por você, pela sua história. Serenidade sempre, obrigada por mais uma lição de vida.
    Te amo querida!
    Mil beijos

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    1. Tininha, minha amiga, que saudades! Mande-me notícias de você e sua família. Como estão todos de saúde, passou aquele momento tenso?
      Minha flor, quem de nós não é uma guerreira, hein?! Cada uma com sua história de luta e superação...
      Te amo, "menina do Rio"!
      Beijos, beijos!

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  8. Boa tarde Poly e demais companheiras!
    Conheci hoje este blog. Meu marido - que é um adicto - depois de navegar, disse-me que havia encontrado o blog e deixou aberto para eu ver. Li algumas postagens e me identifiquei com boa parte. Sou membro de Nar-Anon, e há um bom tempo vivencio as alegrias e tristezas de conviver com um adicto - hoje limpo há 1 ano, exatos 1 ano e 1 dia, Graças a Deus, mas é só por hoje! A primeira internação ocorreu onze anos atrás, ficou numa comunidade por 15 dias, saiu e deu continuidade num tratamento onde vinha para casa todas as noites. Naquela época manteve-se limpo por 7 anos e meio e infelizmente veio a recair em meados de 2005, desde então, foram mais de 10 internações, períodos limpos e outros não... E em meio a esse carrossel, estava eu lá, muitas e quase todas as vezes como coadjuvante, o papel principal era sempre o dele, estando limpo ou não. Parece que agora me veio o ressentimento, talvez pela última *aprontação dele, pois como a Poly disse: "viver com um adicto limpo é difícil, recaído é insuportável." Quanto ao ressentimento, digo de algo bem recente... Em dezembro passado, não estávamos bem, quase que incomunicáveis.. Ora pelos problemas financeiros - que ele provoca uma avalanche, ora pela dedicação extrema dele ao trabalho. Vi uma mensagem no seu celular que foi a gota d'água. Pedi que ele saísse de casa, e assim ele fez. Foi para a mãe, e após alguns dias, me vi desesperada, queria de volta. Como minha doença da co-dependência foi de novo tão latente... Enfim, dias se passaram e eu me vi mais calma, meu Deus agiu em mim... E ao correr dos dias, ia conseguindo me ver, vislumbrar que eu estava ali, que eu era real, é incrível como uma coisa simples ou que ao menos deveria ser, não é. Conversamos algumas vezes e estávamos quase nos acertando, e ele me disse que queria fazer uma viagem sozinho, pra descansar e pensar na vida.... Me senti no chão, pois depois de um ano desgastante pra mim - do final de janeiro à meados de abril de 2011 ele esteve internado, e minha mãe também, por outra razão - foi um ano puxado, eu esperava viajar com ele, poder descansar também. Abri mão de mim, mais uma vez... *Aqui me refiro a aprontação dele: Ele viajou num domingo, dizendo que iria pra uma cidade em MG, pra um sítio de um tio, algo assim. Trocamos algumas mensagens e falamos um pouco pelo celular tb... Achava estranho e as vezes parecia que ele não estava onde dizia estar... Quando chegou de viagem no outro domingo, veio aqui em casa, matou a saudade do Yang - nosso sharpei - e conversamos um pouco.. Quando eu voltei a tarde, pra minha surpresa, todas as coisas dele estavam aqui, ele havia voltado pra casa... Fiquei feliz e triste, queria que tivéssemos conversado primeiro, ele simplesmente decidiu e voltou... Bom, após dois dias, na madrugada, mexi no notebook dele e vi algumas fotos de uma cidade no Rio Grande do Sul, uma única foto em que apareceu parte do tênis e da bermuda eu vi que era ele... Ele me viu no computador e eu perguntei o que significava aquilo, a resposta? A de sempre, manipulação e a história incompleta. Gente, ele estava no RS e não em MG, foi de avião, ficou segundo ele, num apartamento de um amigo, que eu não acredito. Me sinto traída. Ele está em casa, mas a sensação que tenho é de estar com alguém que não conheço - somos casados há 18 anos e meio e num relacionamento há quase 24 anos - nos conhecemos e começamos a namorar, eu com 12 e ele com 17 anos, adicto desde então, à época eu jamais sabia o que era isso... Hoje tenho 37 anos e não confio no meu marido. Ops, ele diz que me ama!
    Me desculpem pelo imensooo desabafooo...
    Um abraço, serenidade e bons momentos!!!

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  9. Boa noite!
    Permita-me uma correção em relação a minha postagem anterior. A primeira internação do meu marido ocorreu há mais de treze anos, e não onze como eu disse. E além de um desabafo, foi uma partilha da minha experiência com vocês...
    Serenidade e bons momentos!

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  10. Me vi muito nesta postagem.
    Todos estes relatos tem me ajudado muito a me conhecer e a corrigir os erros.
    Harmonia a todos!

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