domingo, 27 de novembro de 2011

A História de MCL!

“Olá, Poly. Escrevo com certa timidez. Timidez, não, medo. Medo de voltar, de retroceder, ou seria ir, seguir, andar pra frente? Há 3 anos um dependente químico entrou na minha vida. Me corrijo novamente, um dependente químico não, o amor da minha vida entrou na minha vida, e era dependente químico. Não vou te perguntar se tu sabe o que é amar uma pessoa acima de tudo, tudo mesmo, inclusive tu mesma, porque tenho certeza absoluta de que sabes. Pois é. Esse é o amor que eu tenho... Não sei porque estou te escrevendo, talvez pra partilhar minha dor, pra encontrar uma esperança, não sei. Desde o dia 14 de agosto que não o vejo. Foi a última recaída dele que eu, fisicamente, presenciei... Fui buscá-lo de uma reunião para irmos ao cinema e ele havia usado droga. Me pediu que o levasse a um caixa eletrônico e esvaziasse a conta dele, porque ele iria para a rua usar. Com muita dor, dei o dinheiro. Não poderia ter feito diferente. A gente sabe que a força da droga domina. Até hoje lembro do abraço já drogado que recebi. O último abraço... Consegui dar um verdadeiro ponto final naquele círculo vicioso. Foram muitas recaídas. Muitas. O meu apoio era total em todas... Em uma de suas "últimas" recaídas, no dia 24 de fevereiro, ele tentou suicídio. Atirou-se na frente de um ônibus. A tentativa foi frustrada e dolorida. Costelas quebradas, braço deslocado, fraturas na perna. Queimaduras. Dor. Muita dor. Cuidei dele como se fosse um verdadeiro bebê. A cada auxílio para fazer as necessidades básicas, a cada doloroso curativo, sentia que estava cuidando de um novo homem. Era um renascimento. Graças a Deus ele ficou bem fisicamente. A droga fez com que ele, mesmo ainda mancando e com dores terríveis pelo corpo, levantasse com dificuldade da cama e recaísse. Eis a força da droga... A última recaída dele durou um mês. Ele usa todo o tipo de droga, inclusive crack. Nesse um mês ele viveu na rua, como um mendigo. Catou comida no lixo, dormiu entre papelões. Quando ele está limpo, seus complexos pela limpeza e organização chegam a ser excessivos e engraçados... Camisas bem engomadas, cabelo com gel e perfume em dia. É, a droga destrói, mexe com a moral, com o caráter. Mexe com tudo... No dia 13 de novembro, depois de muito tempo sem contato, ele me ligou. No dia 14 de agosto, o último dia que o vi, consegui deixá-lo como companheiro... Como tu escreveu no teu blog em uma publicação, não o abandonei, o deixei. Os acasos doidos da vida colocaram no meu caminho uma pessoa especial...  Estive envolvida com ele por 3 meses... Foi um relacionamento bonito, leve, regado a um sentimento especial... Mas acabou. Acabou ontem. Nunca deixei de ter contato com o meu DQ. O amor que tenho por ele é sublime, ultrapassa regras. Sei que me entendes. Bom, voltando ao dia 13 de novembro, ele me procurou, exausto da vida nas ruas, exausto de tanta dor que a droga causa. Encaminhei-o para uma internação. Hoje ele está na etapa de triagem de uma fazenda. Espero que dê seguimento ao tratamento e fique o tempo que por preciso nesta fazenda, limpando seu corpo e sua alma, reaprendendo o que já aprendeu muitas vezes. Hoje não tenho nenhuma relação oficial com ele, mas sei que estamos ligados pelo coração. Penso em mil maneiras de voltar a ter uma relação com ele, a andar ao lado dele, mas pensar nisso me dói muito... Assim como todas as que namoramos dependentes químicos, sofremos demais, aos poucos vamos aprendendo a dosar o auxílio, a saber lidar com nossos conflitos, culpas e angústias... Mas tudo é muito dolorido, tudo é muito forte... Li a tua tensão constante em chegar em casa, em pensar no que ele pode estar fazendo... Li tua dor de chegar em casa esperando encontrar uma comidinha gostosa e encontrar a casa vazia, aquele vazio dolorido e pesado que é diferente de todos os outros... É o vazio da droga... Li tudo isso e me identifiquei com cada palavra. Vivi tudo o que tu viveste. Já me comportei de diversas maneiras. As recaídas dele foram muitas nesses 3 anos... Pensei em desistir muitas vezes, peguei junto todas as vezes, mesmo dizendo que não estava mais ao lado. É muito difícil entender a dependência química como uma doença, mas, sim, é uma doença... Costumo dizer que é uma chaga. Mesmo com um histórico dolorido, mesmo tendo abandonado o barco, ainda me sinto uma co-dependente... Como tu escreveu no blog, nós também pensamos em drogas diariamente... E, mesmo com a falta de crédito que ele construiu para todos ao recair tantas e tantas vezes, eu acredito nele. Acredito na cura dele. Os olhos dele me transmitem isso, ele é um homem de boa índole, uma pessoa do bem. Nós amamos demais, não é mesmo?! Que amor forte esse! Sei que tudo o que fazes é por amor. Também fiz por amor... Esse amor tão infinitamente forte que muitas vezes nos surpreendemos com a gente mesmo, com a nossa capacidade de superar, de perdoar, de seguir amando... De qualquer maneira, quero te parabenizar pela coragem de ter seguido em frente. Coragem essa que eu não tive ou não tive forças para ter...”

4 comentários:

  1. Querida MCL, quem ama um dependente químico precisa de muita força para permanecer junto, e também precisa de muita força e coragem para deixá-lo. Não se culpe por nada. As correntes pesadas da dependência química são dele, você não é obrigada a carregá-las e tem o direito a viver livre desse peso. Tudo é uma questão de escolha, apenas de escolha, mas, não pense que tenho mais coragem que você... Não tenho.
    Beijos!
    Felicidade, querida!

    ResponderExcluir
  2. Que história linda e emocionante!!!

    Sim, é amor..
    Sim é o lema "me ame quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso".

    Se nós sofremos com as recaídas, eles sofrem muitooooo mais com a adicção, a maldita adicção que onde ela entra, nada acontece, nada cresce, não tem vida e muito menos perspectiva..
    É um amor que nós mulheres de DQ não aceitamos, amor que os torna escravos, e que às vezes nossa preocupação, amor, carinho, tudo em um conjunto de não querer vê-los sofrer nós faz cometermos atos INSANOS, achando que isso os vai fazer não usar droga naquele momento ou outros dias...

    Precisamos da sanidade, assim como eles precisam... Mas eles tem vida própria e tem que fazer as suas escolhas.
    Mas acima da maldita adicção, eu também falo, amo meu DQ acima dessa doença.
    Meu amor por ele é muitoooo maior do que isso, por mais que a doença esteja ali, meu amor é muito maior do que isso...

    "Me ame quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso"

    Me identifiquei muito com a sua história, com a história da Poly e de outras co-dependentes.
    A luta é árdua, é sim... Mas nenhum esforço perante Deus é em vão, o que vale é que pelo menos fizemos/tentamos...

    Oro pela vida do meu amado, pra que ele continue no seu propósito de libertação, pra quando a adicção vier bater em sua porta, ele seja forte, maduro para dizer: "O meu amor por vc acabou!"

    Oro pra que seu marido, da Poly e de todas as outras tenham esse pensamento e sentimento enraizados num lugar de destaque do coração.
    E que jamais se esqueçam da onde sairam, e do quanto "ela" os destrui...

    Que a paz que excede todo entendimento esteja em nossos corações e nos corações dos nossos amados e queridoo!

    Serenidade, felicidade e paz à todos nós!!!
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Poly, obrigada por ter me lido... hoje estive com ele. SIM! Liguei para ter notícias, resolvi segur o que meu coração estava gritando, fui até a instituição para levar mantimentos e abriram uma excessão na etapa da triagem... tive a oportunidade de abraçá-lo, de olhar nos olhos dele novamente. FOI UMA INJEÇÃO DE ÂNIMO! Ele está diferente, todas as recaídas dão um respaldo novo para eles, para nós e nos faz diferentes. Enfim, energias e esperanças renovadas! Ele está disposto e empolgado com a ideia da fazenda e isso me dá uma alegria difícil de explicar.

    Quero te agradecer novamente por ter me colocado em contato com palavras tão confortáveis e com o termo co-dependência que confesso estar me aprofundando no assunto, inclusive já adquiri o livro Co-dependência Nunca mais... tudo é um aprendizado. Tudo tem o seu tempo certo para acontecer.

    Que fiquemos todos bem...

    ResponderExcluir
  4. Como disse a Poly: "quem ama um dependente químico precisa de muita força para permanecer junto".

    Outro dia, li para meu bem uma "carta" recebida na reunião do Amor Exigente. Ao final, ele estava com os olhos cheios de lágrimas e me abraçou. Estamos em paz desde então.
    ________________________________________________

    "CARTA ABERTA A MINHA FAMÍLIA"

    "Sou um usuário de drogas. Preciso de ajuda.

    Não resolvam meus problemas por mim. Isto somente me faz perder o respeito por vocês.

    Não censurem, não façam sermões, não repreendam, não culpem ou discutam, esteja eu drogado ou sóbrio. Isto pode fazer vocês se sentirem melhor, mas só vai piorar a situação.

    Não aceitem minhas promessas. A natureza da minha doença me impede de cumpri-las, mesmo que naquele momento tencione fazê-las. As promessas são meu único meio de adiar a dor. E não permitam mudanças de acordos. Se um acordo foi feito, mantenham-se firme nele.

    Não percam a paciência comigo. Isto destruirá vocês e qualquer possibilidade de me ajudarem.

    Não permitam que sua ansiedade por mim faça vocês fazerem o que eu deveria fazer por mim mesmo.

    Não encubram ou tentem poupar-me das consequências do meu uso de drogas. Isto pode diminuir a crise, mas fará a minha doença piorar.

    Sobretudo, não fujam da realidade como eu faço. A dependência de drogas, minha doença, torna-se pior enquanto eu persistir no uso.

    Comecem agora a aprender, a compreender e a fazer planos para a sua recuperação. Procurem o Nar-Anon, grupos que existem para ajudar as famílias daqueles que abusam das drogas.

    Preciso da ajuda - de um médico, de um psicólogo, de um conselheiro, e de um adicto em recuperação que encontrou a sobriedade em Narcóticos Anônimos, e principalmente de Deus. Eu não posso ajudar a mim mesmo.

    Seu usuário"


    Se resolvemos aceitar amar nosso adicto, precisamos ser fortes, pois, por mais que pareça o contrário, eles querem parar, mas não conseguem ser responsáveis por seus atos.
    É preciso Confiar em Deus e aprender a ouvir Sua voz.
    Bjs a todas e fiquem na paz!

    ResponderExcluir