sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Entrevista com a Poly!

Boa noite, companheiros!

Hoje tive um dia feliz. Minha Monografia foi aprovada pelo Orientador, e agora resta apenas a defesa perante a Banca, no dia 02/12. Apenas um passo para o título de Especialista. Só por hoje me permito sentir orgulho de mim mesma, afinal, não foi nada fácil chegar aqui, e por muitas vezes pensei em desistir, e agora estou prestes a cruzar a linha de chegada!

Além disso, hoje coloquei os livros da Adriana e Lavínia (sorteadas) no Correio, e foi uma delícia aquela sensação de levar essa mensagem a alguém que eu amo, sem ao menos conhecer. Meninas, enviei os códigos da postagem via e-mail para vocês.

Agora a dedicação ao livro Amando um Dependente Químico tem me deixado muito entusiasmada. Saber que poderei ajudar, de alguma forma, me dá realização plena.

Acho que, finalmente, estou encontrando a felicidade em mim mesma. Afinal, conforme dito por Agnes Repplier: “Não é fácil encontrar a felicidade em nós mesmos, mas é impossível encontrá-la em outro lugar.” E olha que eu a procurei, e muito, fora de mim, principalmente nos outros, e especialmente no homem que amo... Mas, ela não está lá, ela está aqui!

Queridos, em 24/10, um rapaz, leitor do Blog, cujo nome é Rafael, procurou-me via e-mail, pois estava fazendo uma pesquisa para um trabalho da faculdade que envolvia o assunto dependência química, e me solicitou uma entrevista. Acredito que essas perguntas e respostas podem ser válidas a alguém, por isso, decidi postá-las.

Valeu, Rafael!

Segue, abaixo, a entrevista.

Antes de vivenciar a situação de ter um parceiro dependente de drogas, qual era sua opinião sobre o assunto?

R: Posso te afirmar que nunca tive preconceito ou julgamento pré-estabelecido em relação aos dependentes químicos. Sempre vi a dependência química como uma doença, entretanto, sempre tive uma enorme aversão às drogas (todas). Mas, atribuo esse meu posicionamento tolerante ao fato de ser filha de um dependente químico. Meu pai morreu de overdose aos 51 anos (em 1995), quando eu tinha 16. Apesar dos meus pais terem se separado quando eu tinha 02 meses, nas férias, eu e minha irmã presenciávamos cenas tristes do meu pai, por vezes em casa, e por vezes internado em um sanatório, em razão das drogas.

Como começou o romance com seu marido?

R: O responsável foi o acaso (Risos). Em 16/07/2006, em um domingo à tarde, eu e minha filha (do primeiro casamento), fomos ao shopping olhar uns computadores. Gostamos de um em especial, e decidi comprá-lo. Ao final do dia, eu a levei para a casa da avó paterna, e fui instalar a máquina no apartamento onde eu morava sozinha. Consegui o último cabo de rede disponível do prédio. E fiquei toda animada ao ver o PC funcionando. Resolvi testar a internet. Entrei em um chat, mas, não consegui acesso. Resolvi tentar entrar em outro, numa sala de cristãos, para ver se era legal. Daí eu digitei “boa noite, alguém quer conversar?” Quatro rapazes me responderam. Três eram de Brasília (onde eu moro), e um morava nos Estados Unidos há 1 ano e 4 meses, e por coincidência no mesmo estado que minha mãe também morava e ainda mora. Deixei os outros três rapazes falando sozinhos, afinal meu objetivo não era arranjar um namorado, senão passar o tempo. E gostei da conversa desse outro rapaz que morava fora, e que não representava nenhum perigo de lançar a proposta: “vamos marcar um encontro”, afinal, estávamos em Américas diferentes. Esse rapaz hoje é o meu esposo... Coisas do destino.

Você se envolveu com seu atual marido sabendo que ele era um adicto. Muitas pessoas dizem que terminariam o relacionamento. Por que você continuou o seu?

R: Conforme respondi na pergunta anterior, eu o conheci em um chat. E ele havia usado drogas naquele dia. Ele estava arrasado, e por isso buscou ajuda naquela sala de bate-papo cristã. Logo deixamos a sala e passamos a conversar pelo Messenger. Conversamos sobre a vida fora do país. Sobre a faculdade que eu estava concluindo. Sobre a paixão dele pela área da saúde, sua área de atuação. Falamos de tudo um pouco. Nada de perguntas como: “você tem namorado(a)” ou “como você é fisicamente?” Estávamos em países diferentes, apenas havíamos encontrado uma companhia legal para conversar e amenizar a solidão que ambos sentíamos. Em nossa primeira conversa, naquela mesma noite, eu havia percebido uma grande tristeza nele, e ele foi muito sincero ao afirmar que era dependente de cocaína, e o seu sofrimento na busca por libertar-se disso. Daí tive a oportunidade de relatar a história do meu pai. E tentei falar-lhe palavras de esperança. Ele pensou que no dia seguinte eu o teria excluído do meu MSN, por causa do seu problema. Mas, por que eu faria isso? Eu o via como um cara inteligente, bondoso, e doente, que precisava de ajuda. Claro que não pensava em me envolver sentimentalmente com ele, e muito menos em formar uma família com ele. Mas, o tempo passou. Nos falávamos todos os dias. A relação se tornou mais próxima. E-mail, MSN, webcam, cartas, telefonemas... E é importante ressaltar que o dependente químico não é apenas um dependente químico, ele é uma pessoa normal, com qualidades e com defeitos. Me apaixonei pelas qualidades dele... E ele se apaixonou por mim... Não sei quando, nem como, mas, aconteceu. E no dia 10/12/2006, desembarquei nos Estados Unidos, e desde então estamos juntos, inclusive casados civilmente. Embora fosse filha de um adicto, eu não conhecia a dimensão desse problema. Eu pensava que o meu amor e a formação da nossa família iriam curá-lo.

Você mantém contato com sua família? Seu marido mantém com a dele?

R: Atualmente moramos no Distrito Federal. A família do meu esposo está toda no Sul do país. A minha mãe mora nos Estados Unidos há 14 anos. Então o contato que temos com eles é via telefone. Neste ano, passamos as férias na casa dos meus sogros e foi muito agradável. Os familiares mais próximos que temos são minha irmã e cunhado, com os quais temos uma boa relação, e com minha tia e avó que moram em Goiás, e que amam meu esposo demais. A família dele e minha irmã sabem da adicção dele, os demais nem imaginam que ele é um dependente químico.

O filho que vocês têm ainda é pequeno. Como você pretende explicar a situação do pai para a criança?

R: Temos um filho de dois anos e dez meses, e estou grávida de cinco meses. Pretendo explicar que o “papai” possui uma doença (inclusive reconhecida pela Organização Mundial de Saúde), que se chama dependência química. Que essa doença é crônica e não tem cura (assim como a diabetes ou hipertensão), mas, que há o controle, e que o pai deles tem buscado a recuperação. Posso usar isso para alertá-los quanto aos males que as drogas trazem a uma vida, e a uma família. Nunca deixarei de mostrar as qualidades do pai deles, e não pretendo esconder o real problema. Sou filha de um adicto e sobrevivi. Minha irmã e eu nunca experimentamos qualquer droga que seja. Minha irmã é pós-graduada e eu estou concluindo minha pós. Ambas somos servidoras públicas. Somos pessoas de bem e normais. Claro que temos carências e problemas como baixa auto-estima, por exemplo, mas, quem não tem problemas hoje em dia? Apenas quero ser muito presente na vida dos meus três filhos, e dar-lhes muito amor e compreensão, para que eles não caiam nessa cilada que se chama droga.

Qual foi o momento de maior sofrimento ao lado dele? A maior loucura que a vida ao lado dele te motivou a fazer?

R: Muitos momentos de sofrimento. Preparar o jantar, colocar a mesa, esperá-lo e ele não chegar. Passar noites em claro, olhando pela janela, sem saber onde ele está, se está bem... se está vivo. Mas, um dos momentos de maior dor, foi quando ele recaiu após 01 ano e 02 meses limpo (sem usar drogas). Isso foi em abril de 2009, dois meses após regressarmos ao Brasil, quando nosso filho tinha apenas 04 meses. Foi muito difícil encarar isso. E também no dia em que ele trocou a aliança do nosso casamento por drogas.

Para falar das loucuras que já fiz, devo esclarecer uma coisa. Ser casada com um dependente químico e amá-lo não me leva a agir insanamente. O que me leva a cometer loucuras é a co-dependência, ou seja, quando eu me torno obcecada e dependente do meu amado adicto. Quando não há mais vida própria, quando passo 24 horas por dia pensando nele, em como cuidar dele, em como controlá-lo, em como evitar que ele use drogas. Daí, eu (representando os familiares de dependentes químicos) me torno mais insana que o próprio dependente. Eu não sabia o que era co-dependência. E sofri muito por isso. Só passei a me tratar e me cuidar, em meados de 2009, e desde então minha vida mudou muito, para melhor.

Loucuras: Já fui até a “boca”, com ele, no meio da noite, para evitar que ele usasse muita droga. Já peguei o carro e saí no meio da madrugada fria, com um bebê de 04 meses, em uma capital, para procurá-lo sem ter noção de onde ele estaria. Já fiquei dias sem comer e sem dormir por preocupação. Já me joguei na frente do carro para impedir que ele dirigisse em busca de drogas. Já fiz busca em IML, e ocorrência em delegacia, pensando que poderia ter acontecido tudo, menos uma recaída às drogas. Abandonei trabalhos. Fiz dívidas. Me anulei. Deixei de viver.

Ressalto, tudo isso fiz antes de encontrar o grupo familiar NAR-ANON (para familiares de dependentes químicos). Lá, eu entendi que não preciso parar minha vida, quando a vida dele está parada. E nem mesmo me afundar junto com ele. Aprendi que é possível amar sem sofrer tanto. Aprendi que é possível dormir, comer, trabalhar e sorrir, mesmo quando ele está se drogando. Não é fácil, mas é possível. Chama-se desligamento emocional, com amor. Além do NAR-ANON, existe o AMOR EXIGENTE e o CO-DEPENDENTES ANÔNIMOS, todos na mesma linha.

Qual é sua rotina diária?

R: Acordo bem cedo. Arrumo a mochila do meu filho. O deixo na creche e sigo ao meu trabalho. Sou servidora pública do GDF. Trabalho com Gestão de Pessoas. Sou Bacharel em Ciências Contábeis, e estou concluindo a minha Pós em Gestão de Pessoas. Em meu trabalho ocupo um cargo de Gerência. Trabalho com amor e prazer. Volto para casa, após buscar o meu filhote, no final do dia. Daí me dedico às tarefas domésticas. Além disso, possuo um Blog (http://amandoumdependentequimico.blogspot.com/), onde escrevo com freqüência as experiências que vivo ao lado de um esposo portador da dependência química, e onde, principalmente, tento alertar as pessoas quanto aos sintomas da co-dependência, para que elas não sofram tanto como eu sofri. Aos sábados, visito o meu esposo na instituição onde ele está internado há 28 dias. Fim de semana programa com as crianças. Parquinho, lanchonete, essas coisas. Ou só ficar em casa mesmo com minha filha de 12 e meu filho de 02.
 
Quem você acha que sofre mais? O viciado ou as pessoas que vivem com ele?

R: Bom, não gosto desse termo “viciado”, embora ele seja comum. Prefiro tratar como dependente químico, ok? Os dois lados sofrem demais, com certeza. O dependente químico que quer se recuperar e não consegue, se sente impotente perante a adicção pela droga. Ele se sente sem poder sobre sua própria vida. Se sente um lixo perante a sociedade, essa é a realidade. E nós, familiares, nos sentimos impotentes perante a doença de quem amamos. Queremos ajudar de alguma forma, e não conseguimos. Sofremos muito com a co-dependência. Por vezes ainda nos enchemos de culpas infundadas. Nos esquecemos de nós mesmos. Nos esquecemos de viver a nossa própria vida. Assumimos um fardo pesado demais sobre nós.

Como você consegue ser mãe, mulher, profissional e ainda lidar com o vício do seu marido?

R: Essa é uma qualidade que toda mulher tem, não é verdade? Conseguimos ser mil em uma só! Mas, posso te afirmar que se eu continuasse com o nível de co-dependência que eu tinha, não teria chegado aqui. O meu foco está na minha vida, esse é o segredo. Amo demais o meu esposo e estou disposta a ajudá-lo sem medir esforços. Mas, nunca mais me anularei ou deixarei minha vida parada por causa da doença dele. Assim, consigo cumprir meus compromissos, atingir meus objetivos, embora, por vezes, me sinta cansada com tantas responsabilidades e a ausência de alguém para compartilhá-las comigo.

O que você diria para as pessoas que se encontram na mesma situação que você, tendo alguém querido envolvido com drogas?

R: Viva um dia de cada vez... Tenha esperança sempre, mas, nunca expectativas... Ame a si mesmo... Pense em si mesmo... Se dê o direito de ser feliz... Saiba que você não é culpado pela dependência química do seu familiar, que você não pode controlá-lo, e que você não pode curá-lo (só Deus e ele mesmo pode), então, livre-se desses pensamentos e responsabilidades... Procure ajuda para você mesmo (Psiquiatra, Psicólogo, Grupos de Ajuda, Igrejas)... Saiba que você não pode mudar o outro, ou suas escolhas, mas, você pode mudar a si mesmo, e quando mudamos a nós mesmos, tudo muda ao nosso redor... Não desista de viver, e viver bem e feliz! Cada um sabe dos seus próprios limites. Respeite-os, e faça-os serem respeitados sempre.

Bom fim de semana, amigos!

E muita serenidade, só por hoje!

6 comentários:

  1. É Poly, mesmo sabendo da tua história, lendo ela assim pela entrevista, parece até surreal... Aiii quero logo esse livro...rs vou logo comprar um...hehehee
    Beijos e parabéns por mais uma vitória!

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  2. Nossa! sou sua admiradora, pela força que você tem. Sei que essa força vem de Deus. Oro sempre para você e sua família linda! beijos

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  3. Poly, você é exemplo de força.
    Acompanho o seu blog há um bom tempo e você é um exemplo de força e amor incondicional!
    Vocês merecem ser muito felizes e vão ser!
    Beijão
    Ana

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  4. Parabéns Polly por ajudar a "despreconceitualizar" o assunto, parabéns ao Rafael por ter coragem de trabalhar um assunto tão delicado à sociedade mas tão cotidiano para nós... O assunto Dep quim x familia tem de ser muito mais divulgado!

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  5. Muito interessante essa entrevista.Tenho lido seu blog e outros aqui..sempre vasculhando a internet em busca de mais algma coisa que possa me ajudar na convivência com um filho dependente quimico, de 31 anos, casado, com dois filhinhos e agora, separado, ficando em minha casa.Toda essa luta de esperar noites, de problemas financeiros e tanto mais.Gostaria de ler seu livro...leio mto sobre todos esses assuntos.Bem, vou continuar absorvendo um pouco de sua experiência pelo blog. O brigada

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  6. Oi Poly! Estava lendo sua historia de como conheceu seu marido, aposto quwe muitas pessoas pensaram na época que seria loucura se encontrar com alguem que conheceu na internet, nao é mesmo?
    rs...passei por isso amiga, conheci minha sogra em uam comunidade evangeklica do orkut, e trocavamos aquelas scraps quase todos os dias e nos falavamos pelo msn, um dia o filho dela me pediu pra adicionar no orkut e passou a falar comigo, primeiro ficamos apenas amigos, só pra passar as horas sozinhos, aí depois com o tempo web cam, telefone e um encontro que mudou nossas vidas, qdo fui encontra-lo ja me sentia apaixonada por ele e ele por mim, desde esse dia nao nos largamos mais rsrs, só descobri sua DQ 6 meses depois q estavamos namorando, foi qdo passamos a morar juntos q percebi algo estranho e desvendei....mas é isso aí, ninguem cruza nosso caminho por acaso, Deus sabe todas as coisas ! beijos

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