domingo, 27 de novembro de 2011

A História de uma "Maria"!

“Bom dia Polly! Devorei seu blog em dois dias...e chorei..chorei como criança!!! Eu podia ser Amanda, Cristina, Rafaela, Joana, mas sou só Maria... Uma mulher que como tantas outras, ama um dependente químico, e como tantas outras sofre, chora, tem raiva, grita, se desespera, tenta ter esperanças, acredita... Lê mais sobre dependência química do que sobre co-dependência, vê as estatísticas e pergunta: por que meu Deus? Por que meu marido? Alguém que não sabe com será o amanha, nem o hoje. Que liga 80 vezes no celular e sabe lá no fundo que ele não vai atender nenhuma... Estou com meu marido a 7 anos (entre namoro e casamento) e a 1 ano descobri sua dependência. Ele se envolveu com drogas na época da faculdade, depois que já estávamos juntos. Muito inocente, eu nunca percebi nada, e sinto raiva de mim por nunca ter notado... Depois que soube de tudo, minha vida virou um inferno... Passei noites em claro, sentada numa cama chorando, fui enlouquecendo, pirando... Não conhecia nada a respeito, não conhecia ninguém com esse problema. Perdi meu emprego e comecei a viver a vida dele. Não pensava em outra coisa além de droga. Em junho deste ano, ele ficou muito mal e pediu ajuda. Se internou, mas ficou só um mês, saiu e ficou dois meses limpo aqui fora. Mas, como poderia ficar mais? Eu ficava o tempo todo controlando a vida dele, não dei nunca um voto de confiança, e ele caiu e caiu feio. Isso aconteceu em outubro, quando estava quase a ponto de cometer uma loucura de tanta dor, mandei ele embora. Há um mês ele se foi, e tá doendo tanto... Ficou na casa de um amigo, mas não deu certo... Na casa da avó e também não deu certo... e há uma semana, na casa da mãe... Sinto saudade... Meu peito dói... Nossa filha pergunta cadê o papai... Ele quer voltar, mas estou perdida, não sei o que quero. Ele pediu pra gente mudar para SC, moramos em SP. Falou para sairmos daqui, ficar um pouco longe por um tempo, que lá a gente procura ajuda, ele no NA e eu no Amor Exigente. Que a gente vai se conhecer, se tratar, ficar tranqüilo longe dessa bagunça que virou nossa vida. Ele disse que sabe que a doença vai junto com ele, que está dentro dele, mas quer ver o mar, pisar na areia, se sentir amado, cuidar da nossa família... Sei que ele fala de coração, sei que ele sofre, sei que ele me ama e quer ficar bem, mas, tenho tanto medo de tudo ser em vão, de não adiantar. Mas, tenho medo de seguir em frente sem ele, sem ter ajudado meu marido, aquele a quem falei na frente de todos que nem a morte nos separaria, pois nosso casamento seria eterno... Me identifiquei tanto com seus relatos, droga é igual em todo lugar... É sempre a mesma história: mentiras, manipulação, noites em claro, dinheiro perdido, controle do carro, dos cartões... É sempre igual... Polly, você conhece melhor do que eu essas histórias, me dá uma luz, uma opinião mesmo, se devo tentar mais uma vez, se devo viajar ou se devo seguir minha vida e deixá-lo com suas próprias escolhas... Vou orar pedindo a Deus orientação, mas quero saber sua opinião... Obrigada por suas palavras que me fizeram sentir e saber que não estou sozinha... Obrigada mesmo.”

A História de R.R!

“Boa tarde poly... Tenho 30 anos, um filho de 4 e uma bebê de 11 meses... Sou casada com um dependente de cocaína há 5 anos.. Ele não reconhece que precisa de tratamento... Enfim, passei por todas as coisas as quais descreveu: esperar pro jantar e ele não chegar, sair de madrugada com um bebê de 6 meses procurando de carro sem saber aonde ir... Chorei... Bati... Briguei... Xinguei... Ignorei... Dei carinho... Aceitei... Me revoltei... E nada, exatamente nada o fez acordar... Cansei... Estou tão cansada e sem rumo... Não quero aceitar, mas também não sei como mudar... Freqüentar o nar-anon, eu gostaria muuuuiiito mas não tenho com quem deixar meus filhos... Não sei se leu o livro reduzido a pó, bom demais. Me sinto igualzinha a mãe do rapaz, que minha vida se tornou um espiral sem fim, e nunca acaba. Não tenho como sair de casa, mandei ele embora, joguei a roupa na rua, e ele volta... Não agüento mais ser manipulada e enganada... Olho pra ele e vejo uma mentira em pessoa... Um ser egoísta que só pensa em si... Nem nos filhos pensa... Ele é o perseguido do universo, todos querem prejudicá-lo... Tomei uma decisão, espero que sirva pra ele acordar desse inferno que ele se enfiou... Vou entrar com separação de corpos... Vou tentar a ultima vez... Pedir calmamente pra que ele saia... Se não, vou ser obrigada a apelar... Não sei se o amo mais... Essa pessoa que ele se tornou tenho certeza que não, mas quem um dia ele foi, não sei, morro de tristeza em pensar que uma família está se desfazendo por causa da droga... Deixaremos de viver momentos felizes, passeios, viajens, brincadeiras, aniversários, momentos de carinho, por que? Por causa de uma substância quimica branca que destrói tudo ao seu redor... Destrói a dignidade, a familia, a felicidade e a paz... Obrigada por publicar suas histórias, chorei lendo todas... Me vi em você, porém sem esperanças de um dia sermos marido e mulher novamente...”

A História de MCL!

“Olá, Poly. Escrevo com certa timidez. Timidez, não, medo. Medo de voltar, de retroceder, ou seria ir, seguir, andar pra frente? Há 3 anos um dependente químico entrou na minha vida. Me corrijo novamente, um dependente químico não, o amor da minha vida entrou na minha vida, e era dependente químico. Não vou te perguntar se tu sabe o que é amar uma pessoa acima de tudo, tudo mesmo, inclusive tu mesma, porque tenho certeza absoluta de que sabes. Pois é. Esse é o amor que eu tenho... Não sei porque estou te escrevendo, talvez pra partilhar minha dor, pra encontrar uma esperança, não sei. Desde o dia 14 de agosto que não o vejo. Foi a última recaída dele que eu, fisicamente, presenciei... Fui buscá-lo de uma reunião para irmos ao cinema e ele havia usado droga. Me pediu que o levasse a um caixa eletrônico e esvaziasse a conta dele, porque ele iria para a rua usar. Com muita dor, dei o dinheiro. Não poderia ter feito diferente. A gente sabe que a força da droga domina. Até hoje lembro do abraço já drogado que recebi. O último abraço... Consegui dar um verdadeiro ponto final naquele círculo vicioso. Foram muitas recaídas. Muitas. O meu apoio era total em todas... Em uma de suas "últimas" recaídas, no dia 24 de fevereiro, ele tentou suicídio. Atirou-se na frente de um ônibus. A tentativa foi frustrada e dolorida. Costelas quebradas, braço deslocado, fraturas na perna. Queimaduras. Dor. Muita dor. Cuidei dele como se fosse um verdadeiro bebê. A cada auxílio para fazer as necessidades básicas, a cada doloroso curativo, sentia que estava cuidando de um novo homem. Era um renascimento. Graças a Deus ele ficou bem fisicamente. A droga fez com que ele, mesmo ainda mancando e com dores terríveis pelo corpo, levantasse com dificuldade da cama e recaísse. Eis a força da droga... A última recaída dele durou um mês. Ele usa todo o tipo de droga, inclusive crack. Nesse um mês ele viveu na rua, como um mendigo. Catou comida no lixo, dormiu entre papelões. Quando ele está limpo, seus complexos pela limpeza e organização chegam a ser excessivos e engraçados... Camisas bem engomadas, cabelo com gel e perfume em dia. É, a droga destrói, mexe com a moral, com o caráter. Mexe com tudo... No dia 13 de novembro, depois de muito tempo sem contato, ele me ligou. No dia 14 de agosto, o último dia que o vi, consegui deixá-lo como companheiro... Como tu escreveu no teu blog em uma publicação, não o abandonei, o deixei. Os acasos doidos da vida colocaram no meu caminho uma pessoa especial...  Estive envolvida com ele por 3 meses... Foi um relacionamento bonito, leve, regado a um sentimento especial... Mas acabou. Acabou ontem. Nunca deixei de ter contato com o meu DQ. O amor que tenho por ele é sublime, ultrapassa regras. Sei que me entendes. Bom, voltando ao dia 13 de novembro, ele me procurou, exausto da vida nas ruas, exausto de tanta dor que a droga causa. Encaminhei-o para uma internação. Hoje ele está na etapa de triagem de uma fazenda. Espero que dê seguimento ao tratamento e fique o tempo que por preciso nesta fazenda, limpando seu corpo e sua alma, reaprendendo o que já aprendeu muitas vezes. Hoje não tenho nenhuma relação oficial com ele, mas sei que estamos ligados pelo coração. Penso em mil maneiras de voltar a ter uma relação com ele, a andar ao lado dele, mas pensar nisso me dói muito... Assim como todas as que namoramos dependentes químicos, sofremos demais, aos poucos vamos aprendendo a dosar o auxílio, a saber lidar com nossos conflitos, culpas e angústias... Mas tudo é muito dolorido, tudo é muito forte... Li a tua tensão constante em chegar em casa, em pensar no que ele pode estar fazendo... Li tua dor de chegar em casa esperando encontrar uma comidinha gostosa e encontrar a casa vazia, aquele vazio dolorido e pesado que é diferente de todos os outros... É o vazio da droga... Li tudo isso e me identifiquei com cada palavra. Vivi tudo o que tu viveste. Já me comportei de diversas maneiras. As recaídas dele foram muitas nesses 3 anos... Pensei em desistir muitas vezes, peguei junto todas as vezes, mesmo dizendo que não estava mais ao lado. É muito difícil entender a dependência química como uma doença, mas, sim, é uma doença... Costumo dizer que é uma chaga. Mesmo com um histórico dolorido, mesmo tendo abandonado o barco, ainda me sinto uma co-dependente... Como tu escreveu no blog, nós também pensamos em drogas diariamente... E, mesmo com a falta de crédito que ele construiu para todos ao recair tantas e tantas vezes, eu acredito nele. Acredito na cura dele. Os olhos dele me transmitem isso, ele é um homem de boa índole, uma pessoa do bem. Nós amamos demais, não é mesmo?! Que amor forte esse! Sei que tudo o que fazes é por amor. Também fiz por amor... Esse amor tão infinitamente forte que muitas vezes nos surpreendemos com a gente mesmo, com a nossa capacidade de superar, de perdoar, de seguir amando... De qualquer maneira, quero te parabenizar pela coragem de ter seguido em frente. Coragem essa que eu não tive ou não tive forças para ter...”

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Você pode dizer: EU ME AMO?


Bom dia!

11/11/11, data estranha, tomara que queira dizer algo bom. Sexta-feira (ufaaa), véspera de feriadão emendado, ou seja, trabalho agora só na quarta-feira. Estou mesmo precisando de um descansinho.

43 dias que meu marido permanece internado e longe das drogas, graças a Deus.

Nesta noite tive um pesadelo horrível dele tendo uma recaída. Senti toda aquela angústia de uma forma tão real que acordei mal. Perdi o sono. Fiz uma oração, mas, ainda assim, demorei a tranqüilizar-me. É incrível como conviver com um dependente químico nos deixa emocionalmente abalados.

Mas, hoje eu gostaria de conversar com vocês sobre nós, co-dependentes.

Nos últimos dias, venho me observando, e embora esteja longe de chegar onde quero, já logrei alguns pequenos progressos em minha recuperação.

Estou feliz porque nas duas ultimas visitas ao meu esposo ele me fez alguns pedidos e eu me esqueci de levar os objetos solicitados. Sabem o que isso significa? Eu que sempre me antecipava para dar-lhe tudo, antes mesmo que ele pedisse, sem medir esforços, consegui me esquecer (por duas vezes) de atender aos seus pedidos. Esqueci, porque estou ocupada comigo mesma e com as crianças, e isso é um enorme progresso. Significa que o foco e razão da minha vida pouco a pouco estão sendo retirados dele.

Entendam que não é uma questão de deixar de amar, ou de cuidar. Amar é a coisa mais linda que cabe ao ser humano, e cuidar do outro faz um bem enorme, entretanto, quando esse amor e cuidado fazem com que nos esqueçamos de nós mesmos, quer dizer que há algo errado.

Muitas vezes nos julgamos pessoas maravilhosas pelo fato de tolerarmos verdadeiras barbaridades do adicto a quem amamos, e continuarmos bravamente com ele. Mas, muitas vezes, esse vínculo não é mantido pelo amor, e sim, por uma necessidade, podemos dizer até mesmo, por uma doença.

Adoro a forma como a Cicie (vejam o Blog) aborda sobre a co-dependência, me identifico muito com os relatos dela.

Sabem o que é deixar de pentear os cabelos, não se importar com o próprio corpo, sempre fazer escolhas para agradar aos outros, e até mesmo se esquecer de quais são suas próprias vontades?

Em dias de arrumar os armários, sempre comecei pelas roupas do meu esposo, depois das crianças, e por ultimo, quando chegava às minhas roupas, já estava cansada, e acabava deixando como estava.

O sabor da pizza, o lugar para um passeio, o programa de TV, tudo era escolhido pensando no outro.

Nunca havia tempo para uma atividade física, para rever amigos ou para um salão de beleza.

E como isso me frustrava sobremaneira, o caminho mais prático para aliviar esse desconforto era jogando toda a culpa no meu esposo. “Isso acontece porque sou casada com um dependente químico.”

Hoje consigo me enxergar, enxergar meus problemas e limitações, e sinto-me responsável por mim mesma.

É muito bom não precisar provar ao outro que você é perfeita, ou seja, que você é boa o bastante para ser amada por ele. Tenho defeitos, muuuitos, mas, ainda assim, sei que posso (e mereço) ser amada. Hoje não preciso manter a casa impecável, ser a melhor mãe, a melhor amante, esposa, companheira, cuidar do meu esposo, tolerar suas insanidades, e ainda manter um sorriso no rosto. Só por hoje, posso dizer “não posso” ou “não quero”, sem temer alguma rejeição por isso.

E assim, pouco a pouco, vou descobrindo a Polly em mim. E vou me apaixonando por mim mesma. E vou me curando...

Só fazendo esse percurso nos tornamos inteiros e aptos a ajudar ao próximo, no caso, ao nosso amado adicto.

Mas, enquanto nos mantivermos adoecidos, fazendo do nosso dependente químico uma verdadeira “lata de lixo” (me desculpem o termo), onde jogamos todas as nossas frustrações pessoais, o resultado só será dor de ambos os lados, e será muito difícil haver progressos ou recuperação.

A verdade é que não poderemos mudar quem somos até que aceitemos quem realmente somos. Entendem?

“Somos responsáveis por nossas escolhas e comportamentos. Somos responsáveis por iniciar, continuar ou terminar relações. É possível amar sem deixar-se anular emocionalmente pelo objeto do nosso afeto; é possível amar alguém sem deixar de amar a nós mesmos...” (Co-dependência Nunca Mais, Melody Beattie)

“Se outras pessoas me escravizarem emocionalmente, significa que meus limites ainda não foram definidos.” (CEFE, pág. 350)

Meus queridos, cuidem-se bem, amem-se, procurem ajuda. Amar um dependente químico nos faz trilhar um árduo caminho, e precisamos estar fortes e felizes para isso.

Bom fim de semana!

Fiquem com Deus!

sábado, 5 de novembro de 2011

20 semanas!


Foto da barriguinha...

05 de novembro de 2011.

37 dias que meu esposo está internado.

Hoje é dia de visitá-lo. Estou ansiosa e com muita saudade...

"Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito...
Olhar teus olhos de promessas fáceis
E te beijar a boca de um jeito que te faça rir...
Hoje eu preciso te abraçar
Sentir teu cheiro de roupa limpa
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz...
Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria...
Hoje preciso de você com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença vai me deixar feliz...
Só hoje!"
(Jota Quest)

Quem ama, e por alguma razão não está perto, sabe do que estou falando...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Entrevista com a Poly!

Boa noite, companheiros!

Hoje tive um dia feliz. Minha Monografia foi aprovada pelo Orientador, e agora resta apenas a defesa perante a Banca, no dia 02/12. Apenas um passo para o título de Especialista. Só por hoje me permito sentir orgulho de mim mesma, afinal, não foi nada fácil chegar aqui, e por muitas vezes pensei em desistir, e agora estou prestes a cruzar a linha de chegada!

Além disso, hoje coloquei os livros da Adriana e Lavínia (sorteadas) no Correio, e foi uma delícia aquela sensação de levar essa mensagem a alguém que eu amo, sem ao menos conhecer. Meninas, enviei os códigos da postagem via e-mail para vocês.

Agora a dedicação ao livro Amando um Dependente Químico tem me deixado muito entusiasmada. Saber que poderei ajudar, de alguma forma, me dá realização plena.

Acho que, finalmente, estou encontrando a felicidade em mim mesma. Afinal, conforme dito por Agnes Repplier: “Não é fácil encontrar a felicidade em nós mesmos, mas é impossível encontrá-la em outro lugar.” E olha que eu a procurei, e muito, fora de mim, principalmente nos outros, e especialmente no homem que amo... Mas, ela não está lá, ela está aqui!

Queridos, em 24/10, um rapaz, leitor do Blog, cujo nome é Rafael, procurou-me via e-mail, pois estava fazendo uma pesquisa para um trabalho da faculdade que envolvia o assunto dependência química, e me solicitou uma entrevista. Acredito que essas perguntas e respostas podem ser válidas a alguém, por isso, decidi postá-las.

Valeu, Rafael!

Segue, abaixo, a entrevista.

Antes de vivenciar a situação de ter um parceiro dependente de drogas, qual era sua opinião sobre o assunto?

R: Posso te afirmar que nunca tive preconceito ou julgamento pré-estabelecido em relação aos dependentes químicos. Sempre vi a dependência química como uma doença, entretanto, sempre tive uma enorme aversão às drogas (todas). Mas, atribuo esse meu posicionamento tolerante ao fato de ser filha de um dependente químico. Meu pai morreu de overdose aos 51 anos (em 1995), quando eu tinha 16. Apesar dos meus pais terem se separado quando eu tinha 02 meses, nas férias, eu e minha irmã presenciávamos cenas tristes do meu pai, por vezes em casa, e por vezes internado em um sanatório, em razão das drogas.

Como começou o romance com seu marido?

R: O responsável foi o acaso (Risos). Em 16/07/2006, em um domingo à tarde, eu e minha filha (do primeiro casamento), fomos ao shopping olhar uns computadores. Gostamos de um em especial, e decidi comprá-lo. Ao final do dia, eu a levei para a casa da avó paterna, e fui instalar a máquina no apartamento onde eu morava sozinha. Consegui o último cabo de rede disponível do prédio. E fiquei toda animada ao ver o PC funcionando. Resolvi testar a internet. Entrei em um chat, mas, não consegui acesso. Resolvi tentar entrar em outro, numa sala de cristãos, para ver se era legal. Daí eu digitei “boa noite, alguém quer conversar?” Quatro rapazes me responderam. Três eram de Brasília (onde eu moro), e um morava nos Estados Unidos há 1 ano e 4 meses, e por coincidência no mesmo estado que minha mãe também morava e ainda mora. Deixei os outros três rapazes falando sozinhos, afinal meu objetivo não era arranjar um namorado, senão passar o tempo. E gostei da conversa desse outro rapaz que morava fora, e que não representava nenhum perigo de lançar a proposta: “vamos marcar um encontro”, afinal, estávamos em Américas diferentes. Esse rapaz hoje é o meu esposo... Coisas do destino.

Você se envolveu com seu atual marido sabendo que ele era um adicto. Muitas pessoas dizem que terminariam o relacionamento. Por que você continuou o seu?

R: Conforme respondi na pergunta anterior, eu o conheci em um chat. E ele havia usado drogas naquele dia. Ele estava arrasado, e por isso buscou ajuda naquela sala de bate-papo cristã. Logo deixamos a sala e passamos a conversar pelo Messenger. Conversamos sobre a vida fora do país. Sobre a faculdade que eu estava concluindo. Sobre a paixão dele pela área da saúde, sua área de atuação. Falamos de tudo um pouco. Nada de perguntas como: “você tem namorado(a)” ou “como você é fisicamente?” Estávamos em países diferentes, apenas havíamos encontrado uma companhia legal para conversar e amenizar a solidão que ambos sentíamos. Em nossa primeira conversa, naquela mesma noite, eu havia percebido uma grande tristeza nele, e ele foi muito sincero ao afirmar que era dependente de cocaína, e o seu sofrimento na busca por libertar-se disso. Daí tive a oportunidade de relatar a história do meu pai. E tentei falar-lhe palavras de esperança. Ele pensou que no dia seguinte eu o teria excluído do meu MSN, por causa do seu problema. Mas, por que eu faria isso? Eu o via como um cara inteligente, bondoso, e doente, que precisava de ajuda. Claro que não pensava em me envolver sentimentalmente com ele, e muito menos em formar uma família com ele. Mas, o tempo passou. Nos falávamos todos os dias. A relação se tornou mais próxima. E-mail, MSN, webcam, cartas, telefonemas... E é importante ressaltar que o dependente químico não é apenas um dependente químico, ele é uma pessoa normal, com qualidades e com defeitos. Me apaixonei pelas qualidades dele... E ele se apaixonou por mim... Não sei quando, nem como, mas, aconteceu. E no dia 10/12/2006, desembarquei nos Estados Unidos, e desde então estamos juntos, inclusive casados civilmente. Embora fosse filha de um adicto, eu não conhecia a dimensão desse problema. Eu pensava que o meu amor e a formação da nossa família iriam curá-lo.

Você mantém contato com sua família? Seu marido mantém com a dele?

R: Atualmente moramos no Distrito Federal. A família do meu esposo está toda no Sul do país. A minha mãe mora nos Estados Unidos há 14 anos. Então o contato que temos com eles é via telefone. Neste ano, passamos as férias na casa dos meus sogros e foi muito agradável. Os familiares mais próximos que temos são minha irmã e cunhado, com os quais temos uma boa relação, e com minha tia e avó que moram em Goiás, e que amam meu esposo demais. A família dele e minha irmã sabem da adicção dele, os demais nem imaginam que ele é um dependente químico.

O filho que vocês têm ainda é pequeno. Como você pretende explicar a situação do pai para a criança?

R: Temos um filho de dois anos e dez meses, e estou grávida de cinco meses. Pretendo explicar que o “papai” possui uma doença (inclusive reconhecida pela Organização Mundial de Saúde), que se chama dependência química. Que essa doença é crônica e não tem cura (assim como a diabetes ou hipertensão), mas, que há o controle, e que o pai deles tem buscado a recuperação. Posso usar isso para alertá-los quanto aos males que as drogas trazem a uma vida, e a uma família. Nunca deixarei de mostrar as qualidades do pai deles, e não pretendo esconder o real problema. Sou filha de um adicto e sobrevivi. Minha irmã e eu nunca experimentamos qualquer droga que seja. Minha irmã é pós-graduada e eu estou concluindo minha pós. Ambas somos servidoras públicas. Somos pessoas de bem e normais. Claro que temos carências e problemas como baixa auto-estima, por exemplo, mas, quem não tem problemas hoje em dia? Apenas quero ser muito presente na vida dos meus três filhos, e dar-lhes muito amor e compreensão, para que eles não caiam nessa cilada que se chama droga.

Qual foi o momento de maior sofrimento ao lado dele? A maior loucura que a vida ao lado dele te motivou a fazer?

R: Muitos momentos de sofrimento. Preparar o jantar, colocar a mesa, esperá-lo e ele não chegar. Passar noites em claro, olhando pela janela, sem saber onde ele está, se está bem... se está vivo. Mas, um dos momentos de maior dor, foi quando ele recaiu após 01 ano e 02 meses limpo (sem usar drogas). Isso foi em abril de 2009, dois meses após regressarmos ao Brasil, quando nosso filho tinha apenas 04 meses. Foi muito difícil encarar isso. E também no dia em que ele trocou a aliança do nosso casamento por drogas.

Para falar das loucuras que já fiz, devo esclarecer uma coisa. Ser casada com um dependente químico e amá-lo não me leva a agir insanamente. O que me leva a cometer loucuras é a co-dependência, ou seja, quando eu me torno obcecada e dependente do meu amado adicto. Quando não há mais vida própria, quando passo 24 horas por dia pensando nele, em como cuidar dele, em como controlá-lo, em como evitar que ele use drogas. Daí, eu (representando os familiares de dependentes químicos) me torno mais insana que o próprio dependente. Eu não sabia o que era co-dependência. E sofri muito por isso. Só passei a me tratar e me cuidar, em meados de 2009, e desde então minha vida mudou muito, para melhor.

Loucuras: Já fui até a “boca”, com ele, no meio da noite, para evitar que ele usasse muita droga. Já peguei o carro e saí no meio da madrugada fria, com um bebê de 04 meses, em uma capital, para procurá-lo sem ter noção de onde ele estaria. Já fiquei dias sem comer e sem dormir por preocupação. Já me joguei na frente do carro para impedir que ele dirigisse em busca de drogas. Já fiz busca em IML, e ocorrência em delegacia, pensando que poderia ter acontecido tudo, menos uma recaída às drogas. Abandonei trabalhos. Fiz dívidas. Me anulei. Deixei de viver.

Ressalto, tudo isso fiz antes de encontrar o grupo familiar NAR-ANON (para familiares de dependentes químicos). Lá, eu entendi que não preciso parar minha vida, quando a vida dele está parada. E nem mesmo me afundar junto com ele. Aprendi que é possível amar sem sofrer tanto. Aprendi que é possível dormir, comer, trabalhar e sorrir, mesmo quando ele está se drogando. Não é fácil, mas é possível. Chama-se desligamento emocional, com amor. Além do NAR-ANON, existe o AMOR EXIGENTE e o CO-DEPENDENTES ANÔNIMOS, todos na mesma linha.

Qual é sua rotina diária?

R: Acordo bem cedo. Arrumo a mochila do meu filho. O deixo na creche e sigo ao meu trabalho. Sou servidora pública do GDF. Trabalho com Gestão de Pessoas. Sou Bacharel em Ciências Contábeis, e estou concluindo a minha Pós em Gestão de Pessoas. Em meu trabalho ocupo um cargo de Gerência. Trabalho com amor e prazer. Volto para casa, após buscar o meu filhote, no final do dia. Daí me dedico às tarefas domésticas. Além disso, possuo um Blog (http://amandoumdependentequimico.blogspot.com/), onde escrevo com freqüência as experiências que vivo ao lado de um esposo portador da dependência química, e onde, principalmente, tento alertar as pessoas quanto aos sintomas da co-dependência, para que elas não sofram tanto como eu sofri. Aos sábados, visito o meu esposo na instituição onde ele está internado há 28 dias. Fim de semana programa com as crianças. Parquinho, lanchonete, essas coisas. Ou só ficar em casa mesmo com minha filha de 12 e meu filho de 02.
 
Quem você acha que sofre mais? O viciado ou as pessoas que vivem com ele?

R: Bom, não gosto desse termo “viciado”, embora ele seja comum. Prefiro tratar como dependente químico, ok? Os dois lados sofrem demais, com certeza. O dependente químico que quer se recuperar e não consegue, se sente impotente perante a adicção pela droga. Ele se sente sem poder sobre sua própria vida. Se sente um lixo perante a sociedade, essa é a realidade. E nós, familiares, nos sentimos impotentes perante a doença de quem amamos. Queremos ajudar de alguma forma, e não conseguimos. Sofremos muito com a co-dependência. Por vezes ainda nos enchemos de culpas infundadas. Nos esquecemos de nós mesmos. Nos esquecemos de viver a nossa própria vida. Assumimos um fardo pesado demais sobre nós.

Como você consegue ser mãe, mulher, profissional e ainda lidar com o vício do seu marido?

R: Essa é uma qualidade que toda mulher tem, não é verdade? Conseguimos ser mil em uma só! Mas, posso te afirmar que se eu continuasse com o nível de co-dependência que eu tinha, não teria chegado aqui. O meu foco está na minha vida, esse é o segredo. Amo demais o meu esposo e estou disposta a ajudá-lo sem medir esforços. Mas, nunca mais me anularei ou deixarei minha vida parada por causa da doença dele. Assim, consigo cumprir meus compromissos, atingir meus objetivos, embora, por vezes, me sinta cansada com tantas responsabilidades e a ausência de alguém para compartilhá-las comigo.

O que você diria para as pessoas que se encontram na mesma situação que você, tendo alguém querido envolvido com drogas?

R: Viva um dia de cada vez... Tenha esperança sempre, mas, nunca expectativas... Ame a si mesmo... Pense em si mesmo... Se dê o direito de ser feliz... Saiba que você não é culpado pela dependência química do seu familiar, que você não pode controlá-lo, e que você não pode curá-lo (só Deus e ele mesmo pode), então, livre-se desses pensamentos e responsabilidades... Procure ajuda para você mesmo (Psiquiatra, Psicólogo, Grupos de Ajuda, Igrejas)... Saiba que você não pode mudar o outro, ou suas escolhas, mas, você pode mudar a si mesmo, e quando mudamos a nós mesmos, tudo muda ao nosso redor... Não desista de viver, e viver bem e feliz! Cada um sabe dos seus próprios limites. Respeite-os, e faça-os serem respeitados sempre.

Bom fim de semana, amigos!

E muita serenidade, só por hoje!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Estúpido Preconceito!


Boa tarde!

1º de novembro de 2011. Terça-feira com cara de sexta, véspera de feriado.

33 dias que meu esposo está internado, limpo, e se recuperando.

Vamos seguindo, um dia de cada vez. Não é fácil estar sem ele, sei que também não é fácil para ele estar lá, mas, é necessário. Sabemos que é. Só por hoje posso afirmar que estou bem e feliz, apesar da saudade.

Nesta semana li um Post do Blog da Giulli que fala sobre o preconceito sofrido pelos dependentes químicos, daí me recordei de alguns pontos abordados sobre isso na terapia familiar.

É correto afirmar que o uso de drogas deixa a pessoa agressiva? Ou que pelo uso de drogas ele passa a ser um delinqüente ou um imoral? Ou então que o uso de drogas o tornará um ladrão ou assassino?

Não, não é correto afirmar isso. Na verdade, esses são pensamentos cheios de preconceitos equivocados, alimentados na mente de quem não conhece o problema de perto.

Primeiro é importante saber que Dependência Química é doença, e não falta de vergonha ou de caráter.

Também é importante ressaltar que o uso de drogas não transforma ninguém em um monstro, se ele não tiver esse monstro dentro de si, ou seja, a droga apenas vai aflorar o que o usuário abriga dentro dele. Se for agressividade, ele se tornará agressivo; se for maldade, ele fará coisas más; se for imoralidade, ele cometerá atos imorais, etc. Mas, um ser humano bom, portador dessa doença, não se tornará mal ou bandido. Bandido é bandido com ou sem drogas. Não é a dependência química o diferencial, mas sim, a maldade que há dentro do ser.

Há muita confusão quanto a isso.

E se, por um lado, a sociedade é preconceituosa, nós familiares também o somos. Muitas vezes temos vergonha de dizer: “meu marido sofre de dependência química” ou “meu filho está internado para se recuperar da DQ”. Mentimos e omitimos porque, no fundo, não acreditamos que isso seja uma doença, mas é!

Se temos um canceroso na família, falamos isso aos quatro cantos, esperando a compaixão dos outros. Mas, se a doença é a Dependência Química, escondemos, temendo a discriminação dos demais, ou mesmo por vergonha.

Se há um diabético em casa, evitamos os doces na geladeira, o ajudamos em sua dieta e talvez até mesmo aderimos a essa dieta, mas, se estamos falando de dependente químico em recuperação: “ah, que mal há em ter uma cervejinha em casa, o doente é ele e não eu...”

Quando entendermos que Dependência Química é uma doença, e não falta de vergonha na cara ou falta de amor pela família, sofreremos menos, e ajudaremos mais.

Essa doença é horrível. Mata o adicto aos poucos e enlouquece a família. Por isso ambos os lados precisam de tratamento. A dependência química não dorme, não descansa, ela trabalha e age 24 horas por dia, portanto, para vencê-la é preciso o querer do adicto, e também o esforço da família, para que todos se recuperem, e juntos consigam vencer essa batalha. Não é fácil, mas, é possível!

Queridos, tenho recebido alguns comentários que evidenciam o ápice do desespero. Por favor, busquem ajuda. Quando vocês se ajudarem, tudo ao redor passará a ser visto com outros olhos, acreditem. O fardo ficará muito mais leve... Procurem o Grupo Nar-Anon, Amor Exigente, Al-Anon, ou Co-dependentes Anônimos, ou mesmo façam terapia com Psicólogo... Primeiro ajudem a si mesmos, e depois, fortalecidos, saberão como ajudar ao adicto.

Um forte abraço!

Muita serenidade...

E um doce novembro pra nós!


“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” Albert Einstein



“A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito.” Denis Diderot


“Prefiro ser um homem de paradoxos que um homem de preconceitos.” Jean Jacques Rousseau


“Quem assume sua verdade age de acordo com os valores da vida, mesmo enfrentando o preconceito e pagando o preço de ser diferente, passa credibilidade, obtem respeito e se realiza.” Luiz Gasparetto


“O preconceito está na maldade dos olhos de quem vê, e na ignorância de quem acha que sempre está com a razão.” Leo Cruz