domingo, 16 de outubro de 2011

Deixar de lagartear, e virar borboleta!


Boa noite!

23h46min deste 15 de outubro de 2011.

Hoje não haverá meia-noite, pois, os relógios serão adiantados em uma hora, é o início do horário de verão.

Cai uma chuvinha maravilhosa lá fora, que me faz lembrar do cuidado de Deus constante sobre a minha vida, e sobre a sua.

Dezesseis dias que o meu esposo está internado. E estou feliz porque só por hoje ele está se tratando, está limpo, sereno e centrado em sua recuperação.

Se eu fosse definir esse dia em uma canção, certamente seria nessa:

Eu não sei de onde vem essa força que me leva pra você
Eu só sei que faz bem, mas confesso que no fundo eu duvidei
Tive medo, e em segredo, guardei o sentimento e me sufoquei
Mas agora, é a hora
Eu vou gritar pra todo mundo de uma vez
EU VERDADEIRAMENTE TE AMO!

Meus últimos dias foram confusos e repletos de medos e inseguranças. Acredito que faça parte do processo de adaptação dessa nova situação: a internação do meu esposo. Mas, agora estou em paz.

Hoje eu estive com ele. Foi dia de terapia familiar. Muito aprendizado...

Hoje acordei bem cedo. Estava ansiosa com o fato de revê-lo, após tantos dias (nunca ficamos tanto tempo sem contato). Esperei meu filho acordar, e juntos fomos ao supermercado comprar alguns itens para casa, e para levar ao meu esposo.

Às vezes parece que preparam uma trilha sonora por onde passo. Ao chegar no mercado, tocava “sem você... sem você... o silêncio dessas horas frias, são palavras que não sei dizer... Ainda amo você.” Lágrimas.

Voltamos para casa, após as comprinhas. Eu estava, de fato, ansiosa. Como se fosse o primeiro encontro.

Cheguei na Instituição por volta das 13h30min. E lá estava ele. Camisa gola pólo branca, bermuda social bege. Fisionomia tranqüila e saudável. Foi impossível segurar o meu coração, ele acelerou, e pareceu vir à boca.

Não houve aquele beijo apaixonado, nem aquele abraço de filme. Estávamos tensos. Não sabíamos o que se passava dentro um do outro, após tantos dias afastados, e principalmente, após tantas situações horríveis por sua adicção ativa, nos últimos momentos que tivemos juntos.

Sentamos e começamos a conversar sobre tudo.

E eu tive a certeza: eu o amo. Não é co-dependência (embora eu a tenha), não é doença, é amor puro e verdadeiro. E eu senti, olhando dentro dos seus olhos castanho-claros, às vezes verdes, que ele também me ama.

Às 14h começou a terapia com as famílias. Então as famílias foram para um grupo, e os residentes para outro.

Tantas histórias. Tantos rostos marcados pelo sofrimento. Éramos apenas três esposas, e a grande maioria eram mães. Muitas histórias me chamaram a atenção. Mas, dentre tantas histórias de co-dependentes doentes, que fazem verdadeiras loucuras por seus adictos amados, fiquei chocada com a história de uma mãe, de 74 anos de idade, cujo filho recaiu após 12 (doze!!!) anos limpo, e hoje está lá internado junto com meu esposo.

A Psicóloga é excelente, e abordou muitos pontos. Conforme eu for me lembrando, vou partilhando com vocês.

Aprendi que dizer que o meu amado é um dependente químico, é errado. Ele é um ser humano, e ele está dependente químico. Mas, ele como ser humano, tem o poder da decisão, e inclusive o poder de decidir deixar de estar dependente químico. Entendem? E se ele de fato quiser, ele pode!

Mais uma vez ouvi que a Dependência Química é uma doença crônica, como a diabetes ou a hipertensão. Doenças que não têm cura, mas, que têm controle, e requer cuidados por toda a vida. A grande diferença é que a diabetes ou a hipertensão não destrói famílias.

Uma das frases ditas foi: “a droga é o pior mal que há. Onde há a droga, nada, absolutamente nada nasce ou cresce, vemos somente destruição...”

Muito se falou em limites e em cuidarmos da nossa própria recuperação, enquanto eles permanecem ali.

A reunião terminou às 17 horas.

Depois, fizemos um lanche. E aproveitei para matar um pouco mais da saudade.

“Eu estou aprendendo que posso ser quem eu quiser ser.” Ele disse.
“E quem você quer ser, você sabe?” Perguntei-lhe.
“Quero ser um homem bom. Um bom esposo e um bom pai. Você acredita que eu possa ser?”
“Claro que acredito. Você mesmo acabou de me dizer que você pode ser quem quiser. E eu acredito nisso.”

Precisei vir embora às 17h30min, por causa do meu filhinho que havia ficado em casa, com a “tia” que cuida dele na escolinha.

Mas, nesse pouco tempo juntos, me senti leve novamente. Percebi que eu estava sem fé e sem esperança, e por isso me sentia tão mal. Hoje, só por hoje, posso dizer que estou acreditando novamente!

Um abraço apertado. Um beijo.

“Te amo, amor, cuide-se.”
“Te amo, fica com Deus.”


“... Saiba que você é muito especial e querida por várias pessoas, principalmente por DEUS... Sei do que você está passando, seu marido também... não gosto de falar muito nessa parte, porque sei que é doloroso para ambas as partes... mas, como dependente, te digo que não queríamos ser assim... fazer as pessoas que nos amam e amamos sofrer... aqui é meu marido quem passa um pouco do que você passa... sei que não é fácil lidar com isso... posso dizer também que ele precisa muito de você e que o que ele mais precisa você tem: O AMOR... só ele junto com DEUS, nos ajuda e salva de várias coisas...” (e-mail recebido de Wilza)


“Hoje ainda é difícil eu dar o primeiro passo, eu decidir me mudar. Só o Poder Superior sabe o quanto foi difícil as decisões que eu tomei, que decidi que começasse por mim, mas valeu a pena, valeu para eu aprender também que eu não posso mudar o outro, e que se algo ou alguém me incomoda tanto, talvez:
Que comece por mim as mudanças necessárias para minha felicidade.
Que comece por mim a aceitação do que é, e de como é
Que comece por mim a decisão de ser feliz
Que comece por mim o trabalho de recuperação de mim mesmo
Que comece por mim... deixar de lagartear por aí e virar borboleta! “ (e-mail recebido de Simone).


“...É do seu conhecimento de que DQ é uma doença, certo? É do seu conhecimento de que seu esposo está doente, certo? Então, ajudá-lo, apoiá-lo, estar disposta a ser útil ao próximo é um dom que poucas pessoas têm, sabia? Muitas vezes a gente só olha o lado da codependência, em si...mas esquecemos que, de certa forma, quando vivemos em função de ajudar o próximo, estamos sendo útil em nossa Missão aqui na terra. Logicamente que a codependência nos tira esse direito, pois ficamos não vivendo ajudando ao próximo, mas sim sendo vítimas do próximo. Porém, se estamos nos doando para ajudar na melhora do estado de saúde de alguém, estamos cumprindo o que O PODER SUPERIOR nos pede. O ajudar ao próximo deve ser uma qualidade do Servo.
"Quem despreza ao seu próprio próximo está pecando, mas feliz é aquele que mostra favor aos atribulados." - Provérbios 14:21” (e-mail recebido do Junior).


Amando uma Co-dependente

“Quem tem ódio de si mesmo, na verdade, só odeia os pensamentos que tem a seu próprio respeito. Só isso. Em geral, tal fato acontece porque a pessoa não teve uma infância muito feliz, não se sentiu valorizada ou tem um nível de exigência impossível de ser satisfeito.” (Louisse Hay)

Estou muito feliz e grato por você estar aqui comigo. Nestes dias não me senti só porque sei que Deus está aqui comigo, e Ele cuida de mim... de nós.

Esta foi a decisão mais correta que tomei neste ano, pedir ajuda e transformar minha vida. Estou cuidando de mim, e o objetivo aqui é me descobrir e deixar-me ser transformado... Eu quero!

Estou gostando do tratamento e me rendo, para aí sim poder ser ajudado.

“Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.”

Sinto falta de ti, minha macaquinha. Estou me trabalhando (árduo, lento e dolorido) para me perdoar. Porém, não aceito mais ressentimentos quanto a nós dois. Só por hoje, nos estão reservados momentos futuros para nos cuidarmos e curarmos as feridas em nosso casamento.

Espero que estejas disposta e que ainda me ame para isso. Eu creio que Deus tem um envelhecer juntos de paz e serenidade em nosso lar. Te amo e sempre te amei. Vou cuidar de mim para estar sempre ao teu lado. Não me esqueça. Mas, cuide-se também. Você também adoeceu... cuide-se. Sare suas seqüelas espirituais.

Cuide dos nossos pimpolhos, estou sempre orando por nós.

Só por hoje! 24 horas!” (carta recebida do meu esposo hoje)


O amor não é um sentimento, é uma decisão. E eu decidi amá-lo! Esse amor me faz ser uma pessoa melhor, e me faz acreditar que é sim possível!

Beijos no coração de vocês, e muita serenidade!


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12 comentários:

  1. Nossa Poly! que noticias boas fico feliz por ti amiga...agora voce tem que cuidar de seus pimpolhos e este principalmente em seu ventre
    e voce como está?seu pé melhorou?espero que sim pra vc ver olha tambem o horario em que estou acordada,o meu amado passou muito mal hoje vomitou bastante e fiquei preocupada como lhe disse sobre a Hepatite dele,fiz um chazinho dei a medicação e ele dormiu sendo que tinha dormido o sabado todinho!melhor assim pelo menos não vai atras dela voce sabe,amiga busco forças em tudo que voce aposta aqui no seu blog
    e do fundo do coração seu esposo vai vencer sim!é uma batalha dura ele quer mas o vicio é mais forte,mas não desanima viu!estou na luta a 30 anos!e ainda estou aqui lutando cada dia mais
    existe recuperação sim mas somente o tempo vai dizer e olha seu esposo que bom vai ficar 6 meses internado,meu esposo ficou so 15 dias se eu pude-se pagar uma clinica particular eu creio que 6 meses seria bom a ele,por isto te digo querida sinta-se feliz um beijão neste lindo coração e Felicidade sempre.Rosani

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  2. Oi, amiga!
    Tudo bem?
    Legal saber que vc foi lá visitá-lo e que ele continua firme no propósito de manter-se limpo, só por hoje.
    Confesso que me emocionei (novamente) com suas palavras, suas experiências. Fez-me lembrar de quando eu estava lá, numa situação idêntica.
    Sabe, Poly...para quem está "trancado", seja numa instituição de tratamento ou numa instituição correcional (presídios e penitenciárias), a visitá é sempre uma questão de suma importância...mas é também um paradoxo...quando não a temos, ficamos bastante deprimidos, magoados, ressentidos, etc... Mas quando a recebemos, e quando chega a hora da despedida...não tem momento pior do que aquele, sabia? Só de lembrar, dói...choro.
    Mas é assim mesmo.
    O bom é que as coisas estão voltando a normalidade, né? Apesar dos muitos detalhes que ainda faltam, mas elas estão voltando ao normal. É como eu sempre digo: HOJE O TEMPO CORRE A NOSSO FAVOR!
    Fica na paz, minha amiga!
    Saúde e bons momentos a você e a sua família,
    Abração e TAMUJUNTU.

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  3. Que lindo....to aqui em lágrimas.
    Janete

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  4. aai... eu choro demais aqui viu..rs

    Engraçado isso que vc disse...Nos anos que fiquei afastada do Oscar eu pensava que meu amor era devido a co dependencia.. Mas agora após eu conviver com ele novamente vi o mesmo q vc viu com seu lindo : É AMOR...
    e Poly, é uma delicia descobrir isso né ?

    Amiga, orando mtooo por vcs.. mto!

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  5. Olá Poly... Ler seu texto me deixou muito feliz..eu fico imaginando que em um momento qualquer eu vou estar nessa mesma situação, com minhas esperanças renovadas...

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  6. Lendo seu post chorei feito criança...
    A gente imagina a visita na clinica de um jeito, vai querendo abraçar a pessoa que a gente ama, beijar, dizer eu te amo... quando chegamos lá, mal conseguimos um meio abraço xoxo né? rsrs...
    Me identifico muito Polly!!!
    Te amo companheira!!!! Torço por vocês dois!!!
    Diga a seu marido: YES, YOU CAN!!!
    E pra vc Polly? Sim também... vc pode ser o que quiser ou sonhar!!!!

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  7. Poly minha alma iluminada, que bom que você está melhor, que declaração de amor linda, tanto de você para ele e dele para você. Sim vcs se amam, porque por mais que uma pessoa seja dependente da outra, se não existir amor, não aguentariam tantas coisas, vocês se amam e merecem a paz na vida de vocês.
    torço por isso, porque tenho por você um carinho especial...
    Como me dou ler a parte que escreveu do mercado e da visita, era exatamente isso que eu fazia aos domingos, ia no mercado comprar as coisas que ele gostava e depois seguia para a clínica...
    Lembranças...
    Bjos

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  8. a adicção é a doença do auto engano
    quando vc falou do companheiro que recaiu com 12 anos, imediatamente me veio a cabeça um camarada que conheci. logo que entrei em recuperaçao ele recaiu. tinha 19 anos limpo
    morreu pouco tempo depois da recaida com uma dose fatal
    O preço da liberdade é a eterna vigilancia.

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  9. lembre-se: Palavras comovem, Atitudes convencem.

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  10. Oi Poly,

    Hoje mais uma vez meu esposo não voltou para casa, liguei às 21:30 e o celular já estava na caixa...Antes de eu ligar mandei uma mensagem dizendo que eu estava precisando de um abraço um carinho que eu estava me sentindo pra baixo...Estou desempregada hà 3 meses e domingo tivemos uma conversa pois as dívidas estão se acumulando e ele disse algumas coisas que me fizeram pensar, falou que estou acomodada não penso na minha carreira e em estudar mais para conseguir um emprego melhor, ele citou estes problemas como motivos para que ele morra de overdose e para não voltar para casa e chegou até a dizer que está pensando sobre o verdadeiro propósito de estarmos juntos e oquê estamos agregando um a vida do outro.
    Sabe Poly, é fácil para eles jogarem toda a carga nas nossas costas, mas o difícil e sentir o desânimo, a solidão e a indignação por viver uma situação que por vezes parece não terminar nunca...passar dias e noites sozinha, e o piór, aos finais de semana ficar largada em casa...
    Mas como a minha mãe já dizia oquê não mata nos fortalece e preciso usar estas palavras duras para me levantar e pensar mais em mim e na minha vida pois a dele tende a ser assim pra sempre.
    Sabe se eu parar para pensar temos algumas falhas na nossa relação que sempre vem à tona, quando saímos para algum barzinho ou festa ele fica seguindo o meu olhar e sempre diz que eu estava trocando olhares com outro homem, talvez isso seja trauma de outro relacionamento mas eu não faço isso, juro. Percebo que ele afirma toda vez que isso aconteceu e ele viu e eu percebi tudo, mas sinceramente acho que ele precisa de um tratamento psicológico pois se acha feio e é inseguro embora nunca houve traição de minha parte.
    Não sei se vc já passou por isso, mas eles por usar droga se sentem um lixo e acham que a mágoa que nos provoca pode ser paga com traição aí começa a desconfiança...até isso a droga consegue destruir, destrói a confiança a doçura o amor próprio...
    E agora todas estas palavras fazer eco na minha cebeça penso se de repente não é hora de recomeçar tudo de novo e fazer um final diferente em que os únicos personagens sejamos eu e meu filho...Não quero ser um peso para ninguém e as coisas que aguento dinheiro nenhum paga!
    Um forte abraço!

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  11. Devemos pensar em nós e em nossos filhos e sem esperar reconhecimento dos homens pois quando menos se espera tudo é jogado na cara! Valemos o quanto ganhamos por mês...Bastou eu ficar desempregada para sentir...É fácil para ele dizer e me cobrar à respeito da minha carreira idealizando a mulher perfeita e bem sucedida que sonhou ter ao lado, mas e eu? Sonhei viver com um homem que passa noites na rua e chega fedendo? Um homem que tem 4 filhos de outros casamentos? Um homem cheio de traumas do passado, com mulheres? Um homem me faz vergonha perante minha família em festas? Que Usa droga e bebe a mais de 15 anos? Que só arruma amigos ruins, bandidos, nóias?
    Pois é...acho que o problema está comigo mesmo, agradeço a Deus por não ter filhos com ele e nem terei jamais!
    Amanhã ele voltará com aquela típica cara de coitado e arrependido aí diz que me ama, que sou importante na vida dele etc...
    Preciso abrir minha mente, estou ficando amarga e desiludida com relacionamento...Talvez meu destino seja viver com meu filho mesmo! Talvez assim encontre a verdadeira felicidade sem esperar nada de ninguém!
    Forte abraço

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  12. Bom dia, Poly! Desde que descobri seu Blog não tenho conseguido largá-lo e nem quero..rs. Em especial nessa partilha me identifiquei demais. Na primeira visita do meu marido após a recaída foi exatamente como vc descreveu...uma mistura de sentimentos e ninguem sabia como agir...foi tenso, foi dolorido...mas é assim mesmo, nao tem como ser diferente, somos seres humanos e não dá pra simplismente deletar as vivencias ruins pela qual passamos...mas nada melhor que um dia após o outro, um passo de cada vez, tudo dentro dos nossos limites. Beijo querida!

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