segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mulher, beleza, sonhos, drogas, prisão, recuperação, ressocialização!


Em 09 de agosto deste ano foi realizado o concurso “Miss Penitenciária”, ocorrido na Penitenciária Feminina do Gama, no Distrito Federal.

O “Miss Penitenciária” é um projeto da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do DF em parceria com a Secretaria de Segurança Pública do DF, Subsecretaria do Sistema Penitenciário, e a organização do Miss Distrito Federal.

O objetivo do concurso é resgatar e aumentar a auto-estima das detentas, motivando-as para uma mudança de vida, e também mudar a forma como a sociedade vê essas mulheres, e assim reduzir a discriminação sofrida por elas, após o cumprimento de suas sentenças em regime fechado.

Alguns podem estar se perguntando: Se o Blog é sobre amar dependentes químicos, o que tem de relação com detentas?

Ocorre que grande parte dessas detentas foram presas por crimes relacionados com o tráfico de drogas. Algumas são usuárias, outras apenas amantes de usuários de drogas (ou traficantes), e que no auge do desespero, levadas por um amor insano, resolveram traficar. Muitas foram presas tentando levar drogas para seus amados que estavam dentro da cadeia.

Você pode julgá-las? Sinceramente, diante das loucuras que já fiz por amar um dependente químico, embora não sejam loucuras ilícitas ou ilegais, não me sinto apta para julgá-las, senão para compreendê-las e pedir a Deus que lhes dê dias melhores daqui pra frente.

Para o concurso, foram selecionadas dez candidatas que foram submetidas a aula de boas maneiras, aula de passarela, acompanhamento psicológico, advogada para acompanhar o processo de cada uma, além da transformação no visual, incluindo corte e tintura de cabelo, e tratamentos de beleza em geral.


Eu, particularmente, aplaudo essa iniciativa de pé.

Decidi escrever sobre esse tema porque ele retrata a vida de pessoas (mulheres) que vivem à margem da sociedade. Assim como qualquer dependente químico que, direta ou indiretamente, também vive ali, discriminado.

Por que não divulgo o meu nome ou o do meu esposo? Simplesmente por medo da discriminação que ele possa sofrer. Porque a nossa sociedade é sim cheia de conceitos pré-formados e julgamentos pré-estabelecidos. E se ele for conhecido como um dependente químico não haverá espaço para que se conheça o homem bom, o profissional, o caridoso, o inteligente.

É preciso mudar a forma como olhamos para o próximo.

Primeiramente, quero falar de duas amigas que conheci no órgão onde trabalho. Elas são presas. Aqui no Distrito Federal, alguns presos, pré-selecionados, podem desempenhar suas atividades profissionais em órgãos públicos, e é o caso dessas duas meninas.

Quando as conheci, juro que não sabia que eram presas. Duas mulheres bonitas, educadas, inteligentes... normais como eu e você. Uma loira e uma morena, cabelos na altura da cintura. Quero partilhar com vocês a história delas, vale a pena.

“Sou C, tenho 28 anos e cometi o crime aos 22 anos de idade. Entreguei drogas para uma pessoa entrar no presídio e repassar para o meu irmão, mas, em razão de uma denúncia anônima, nós duas fomos presas. Meu irmão estava com dívida dentro da cadeia e eu não tinha dinheiro para pagar a sua dívida. Por minha pouca idade e inexperiência, fiquei com medo de que algo de ruim acontecesse com ele, por isso enviei a droga para que ele vendesse e pagasse o que devia. Fui presa em 2006. Fiquei 3 meses e 18 dias até minha liberdade provisória. Três anos depois fui condenada a 4 anos de reclusão no regime fechado. Voltei para a prisão em maio de 2010, para o cumprimento da pena, permanecendo 1 ano, 3 meses e 20 dias, passando depois a responder em prisão domiciliar, que se encerrará em maio de 2013. Fui presa por causa de droga. Passei por tanto sofrimento por causa dela, e passo até hoje, com meu irmão lá preso. Odeio as drogas, e se eu tivesse poder, acabaria com todo esse tráfico que existe e que trás tanto sofrimento para as pessoas. Hoje o meu maior sonho é conquistar uma vida estruturada e servir de exemplo ao meu irmão. Mostrar que mesmo passando pelo que eu passei, consegui vencer, e tirar o melhor dessa situação: o aprendizado.”

“Meu nome é J., tenho 25 anos, e aos 21 anos fui presa por tráfico de drogas e associação ao tráfico. Meu ex-marido trabalhava, mas, ganhava pouco. Quando engravidei, ele deixou o trabalho e começou a vender drogas. Após uma investigação, fui presa e sentenciada a 8 anos de prisão, dos quais cumpri 3 anos e 6 meses. Posso dizer que nesse tempo amadureci e procurei medidas de crescimento. Drogas são usadas para destruir as pessoas, iludidas, pois não tem como você ser feliz fazendo coisas ruins para o próximo, pois, com a venda de drogas, você destrói não somente ao usuário, como também toda a sua família, e você paga por isso, pois você atrai o que você transmite. Hoje o que mais quero é cursar uma faculdade, fazer um concurso público, construir uma vida com bases sólidas, sem fazer mal algum para ninguém. Quero fazer o bem.”

Tive a honra de conhecer essas meninas, de trabalhar e de aprender com elas. E estou aqui na torcida para que dê tudo certo para as duas!

Voltando a falar sobre o Miss Penitenciária, a ganhadora foi a interna Raíra Aparecida Pereira Paixão, de 20 anos. Apesar de sonhar com o curso superior em Enfermagem, Raíra já recebeu um convite para atuar em uma agência de modelos, assim que receber o alvará de soltura. Que legal, né?!



A miss penitenciária DF recebeu como prêmio R$ 1 mil, que será pago quando ela ganhar liberdade. A segunda e a terceira colocada levaram R$ 800 e R$ 500, respectivamente, e a terceira colocada levou ainda o título de miss simpatia, eleita pelas outras concorrentes.

O Miss Penitenciária também premiou a detenta Márcia de Almeida Araújo, 26 anos, que mesmo sem ter o ensino fundamental completo, ganhou o primeiro lugar no concurso de poesia, escrevendo o texto abaixo. É de arrepiar! Vejam.

A Maior Ilusão

Depois que te conheci,
quis logo te sentir                                                                                                  
desejo e alucinação
você foi a melhor sensação
de ti fui me aproximando,
acabei me apegando                                                                               
meus problemas esqueci,
dos meus ideais desisti e continuei a te seguir.
Quem me amava deixei de lado e por ti sofri calada, só lembrava de ti,
minha vida fui te entregando
quando percebi meus problemas ainda estavam ali
no espelho refletia uma sombra, todos me desconheciam,
então quis me libertar
mas tu me iludia,
eu fraca em sua armadilha caia                                                                           
sofri tanto por ti,
algumas vezes quase morri
me livrar de ti não conseguia,
tu era forte e sempre me vencia
muitos tentaram me ajudar,
mas uma força maior fazia eu te procurar                                     
decidi mesmo te largar,
pois contigo minha vida era vegetar                                                     
pedi pra Deus me ajudar e a felicidade encontrar
com muita força de vontade consegui te abandonar                                                                     
agora sei o que é viver,
a minha vida não mais te darei                                                                      
por todo mal que me fez,  
de ti me libertei
e a ti Crack nunca mais me entregarei.


Confesso que me emocionei com as palavras dessa jovem.

É isso aí, meus amigos. Como meu trabalho me proporcionou a oportunidade de acompanhar essas histórias, decidi compartilhá-las para que tiremos nossas lições de vida.


Quem quiser saber mais sobre o Miss Penitenciária DF, veja o Profissão Repórter, da rede Globo, que irá ao ar nesta semana (amanhã), com o jornalista Caco Barcellos.

As drogas estão aí, afetando a vida de diversas pessoas, de diversas famílias, e de formas variadas. Às vezes me pergunto onde é que isso vai parar... Só Deus mesmo!

Beijos!

Serenidade só por hoje!

“O que aprendemos depois que conhecemos tudo é o que realmente conta.” (CEFE, pág. 209)

7 comentários:

  1. poly,parabens por abordar esse tema mulheres que pagam caro por viver a margem da drogadiçaoe de suas conseguencias,vejo bem de perto certas situaçoes,trabalho em um psf que atende um presidio,sei que a maioria sao mulheres que apenas ajudava o companheiro por amar demais.bjus continue assim ,por um mundo melhor!!

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  2. Poly, adorei a postagem, adorei a iniciativa e acho sim que tem tudo a ver o tema escolhido com o propósito do seu blog.
    Parabéns!
    Beijos

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  3. Olá querida!
    Gostei muito da iniciativa, realmente não podemos julgar essas moças pois pela co dependência já fizemos, as maiores insanidades.
    Só mesmo Deus para ter misericórdia de nós.
    Abraços, linda post.
    Beijos

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  4. Parabéns pelo seu olhar humano. Em relação as drogas elas irão continuar existindo e cada vez será pior. Não há uma política de inteligência que atue sobre a produção e consequente distribuição. A prevenção deve haver. O combate tem que ser travado com inteligência, deve-se ter em conta que os chefões e traficantes têm colaboradores nas policias. Uma coisa é certa se houver vontade política e se o gov. federal utilizar um contingente grande "soldados" das FFAA, muita coisa melhoraria. Perto de 2014 haverá melhoras, mas até lá o crime vicejará de modo galopante. Essas suas amigas são as ingenuas, mas existem certas criaturas, que estão envolvidas com o tráfico, que são tão perversas quanto os traficantes que mataram Tim Lopes. Hoje os traficantes usam muito mulheres e menores e, além disso, tem gente que pega cadeia sem ser criminoso e tem que assumir o flagrante pra não morrer depois. Triste mundo este das drogas eu preferiria a legalização!

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  5. Oi Polly, acabo de assistir a reportagem...
    Como vc disse nossa sociedade assim como toda sociedade é julgadora por si só e por sí só dá as sentenças que lhe conveêm.
    Tb mantenho meu anonimato, pois acho que o preconceito não afetaria a mim mais que a meu ex marido, que mesmo sendo ex tem meu carinho e as vezes minha amizade.
    hoje me dou a oportunidade de não julgar ninguém, vejo o julgamento como forma de dizer "olha isso! EU AINDA não fiz isso, sou melhor"
    E no "conto do Ainda" eu caí muitas vezes.... "eu AINDA não tinha passado duas horas frias dentro de um carro com um bebê recem nascido esperando meu marido sair de uma reunião de NA"
    "eu AINDA nao tinha tido vontade de matar meu marido"
    "eu AINDA não tinha sentido uma raiva descomunal que me fizesse ficar cega e agredir uma pessoa!"
    "eu AINDA não tinha sentido palpitações no peito por medo!"
    "eu AINDA não tinha se esquecido do sabor da pizza que mais gosto!"
    .... graças a deus eu NUNCA PENSEI QUE AIIINNNNDA EU NÃO TIVESSE MATADO MEU MARIDO!!!
    Graças a Deus, hj ele é ex-marido e não um defunto!!! e Graças a Deus somos amigos, eu o ajudei quando ele precisou e ele me ajudou quando eu mais precisei, não somos mais um casal, talvez sejamos mais uma espécie de dupla, jogamos juntos, mas o amor se foi... ou quem sabe tirou férias...kkkkkk
    ótimo post!!! vc consegue trazer qq questão atual pra esse mundo não é mesmo????rs

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  6. Amei a publicação, e foi linda aquela poesia, é triste saber que as pessoas olham muito para aparência, eu reparei isso quando andei com meu amor pelo centro da cidade, ele mal vestido e eu via como as pessoas olhavam e desprezavam-no, para pegar um táxi foi difícil, infelizmente existe e sempre vai existir o preconceito, mas essas pessoas têm garra e força de vontade para vencer na vida, é isso que elas tiram da vida dura e das experiências que passaram.

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  7. Ei....Cadê vc??Sumiu daqui??
    Aposto que não sou so eu que sinto falta dos posts daqui!!!:*

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