quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A dor e os conflitos do Dependente Químico!


“Você vai desestruturando a sua personalidade, eu fui desestruturando tudo. No começo, na maconha, eu dizia mentiras em casa, mentiras pobres e idiotas como dizer que fui para a escola quando não fui, e na medida em que foi aumentando a minha dependência eu fui contando mentiras cada vez maiores, e também fui fazendo concessões morais cada vez maiores. A fissura é incontrolável. Eu sou capaz de matar. Eu mato, eu roubo, sou capaz de me prostituir pra conseguir uma carreira de pó. Eu mato, nada mais importa. Eu perco a conexão com o mundo real. Você não é mais dono dos seus desejos e nem da sua vontade...”




“Eu não dou certo. Ou então eu dou certo pelo avesso. Sou um fracasso. Diga, diga a mim que eu sou um fracasso. Sou um cara até que tem um sorriso aberto, rio com facilidade, em roda de amigos conto piadas, digo frases bem feitas, as pessoas se divertem, até poesias eu declamo, mas, isso não serve pra nada, não tem a menor importância.

Será que alguém em sã consciência quer isso pra si? A gente acha que é potente, que domina a situação, que pára na hora que quer, mas, não consegue parar. A gente sempre diz que é a ultima dose, a ultima carreira, mas, depois da ultima vem mais uma, mais uma, mais uma, e depois vem a ressaca moral, a ressaca física, e a gente acha naquela hora que consegue dominar, que consegue administrar, mas, não consegue. O difícil é administrar a fissura.

Naquela hora a vontade do álcool e do pó é maior do que a necessidade de respirar, de comer, de pensar... A fissura em seu corpo, em suas entranhas. Os seus músculos, suas veias, seus sentidos e os seus sentimentos são a fissura... a boca seca... Não me compare com pessoas normais, eu não sou normal eu sou um dependente.

No meu caso, um dependente, experimentar é fatal, mas, você só vai saber se testar, é uma roleta russa, só que na roleta russa se a bala não sai você tá salvo, e se ela sai você morre. Só que na droga, a bala sai e fica rodando na sua cabeça a toda hora. Tem uma bala na minha cabeça, uma bala de alto calibre, ela me ameaça a toda hora, se eu não consumir a droga, o pó, o álcool...”




“É uma doença que afeta os sentimentos, ela extirpa tudo de você, veta qualquer possibilidade de afeto, você joga tudo para o alto, pai, mãe, filho, amigos, tudo. Nada mais representa alguma coisa pra você, absolutamente nada. Tudo a sua volta deixa de existir, principalmente as pessoas mais queridas...

Eu já havia vendido quase a minha casa inteira pra trocar por cocaína, daí a minha mulher, mãe dos meus filhos, colocou um cadeado com corrente no quarto das crianças para proteger o berço e as roupinhas das crianças. Os meus filhos estavam sendo protegidos pela mãe da minha insanidade (gargalhadas)... Não acho engraçado isso, não sei por que eu rio quando conto essa história. Isso me dá um remorso, porque não se apaga da memória...

Eu sinto uma vergonha, uma culpa, um arrependimento. E não sou capaz de dizer isso a eles porque garanto que eles estão bem melhor onde estão, longe de mim. Eu sei muito bem o que eu fiz a eles.

Eu não sei lidar bem com a realidade, eu não quero realidade, não quero ouvir a verdade, eu quero saber o que seria a realidade, eu não sei lidar bem com a frustração. Se eu tenho um desejo e não sou satisfeito no meu desejo, eu fumo, eu cheiro, eu bebo, eu me autodestruo, mas, eu não admito ser contrariado.

Eu não tenho responsabilidade sobre os meus filhos, a responsabilidade é dos outros que me viraram as costas. É dos outros!”




“Minha filha buscava em mim o pai que lhe faltou, o pai que ela havia idealizado. Seria eu? Me sentia como um elefante dentro de uma cristaleira, com medo de pisar em falso, medo de decepcionar, de fazer qualquer coisa que lembrasse tudo o que eu aprontei ali dentro. Os cacos das nossas vidas ainda estavam ali entre nós e ainda cortavam. Será que um dia tudo isso se recompõe? Eu vou tentar...”




Poema em linha reta
(Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fonte: Textos de Glória Perez, interpretados por Osmar Padro em O Clone.


4 comentários:

  1. Meu Deus, é lendo coisas como essas, que eu fico pensando o quanto nossos adictos sofrem, conviver com uma bomba relógio não deve ser fácil. Eu nem consigo imaginar o tamanho do desespero deles. Nem o que passa na cabecinha deles. Só posso rezar e pedir para que eles tenham muita força de vontade para superar tudo isso e vencer de cabeça erguida! Não posso pedir para que o sofrimento saia,porque isso é o resultado de uma causa deles, Lei da causa e efeito, mas posso pedir para que eles aguentem da melhor maneira possível!
    :(
    Muito triste ler tudo isso...

    Mas... “Se desejar compreender as causas que existiram no passado, veja os resultados que são manifestados no presente. E se desejar compreender quais resultados serão manifestados no futuro, olhe as causas que existem no presente”

    Vamos fazer o que está ao nosso alcance para modificar o futuro...Esse sim pode ser mudado!

    E por isso pensamos e vivemos, só por hoje, para construir um futuro lindo!

    Beijos em vocês da tia Gaby

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  2. Perfeito Poly, adorei você ter colocado esse texto aqui, uma realidade, meu Deus e como sabemos que é real não é mesmo?
    Parabéns!
    Beijos

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  3. Nossa hoje o "pessoal em recuperação" tá bastante poético .... adorei... é nessas horas que o PS fala...

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  4. Muito bom Poly! ao ler este texto da pra sentir na pele, imaginar o sofrimento do dependente quimico.
    bjuss.

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