sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um casal em recuperação!

No finalzinho do mês passado recebi uma grande demonstração de confiança e de amizade de uma companheira aqui do Blog. Recebi um e-mail, com dezessete páginas, relatando sua experiência frente à adicção do seu esposo.

O título dizia “Uma parte da minha história, a doença do meu amado, a minha co-dependência, a nossa recuperação!”

E é essa história que, conforme combinado e autorizado por ela, quero partilhar com vocês.

O relacionamento dos dois começou no ano de 2000, quando se encontraram em uma boate, na noite, como tantos outros casais, e namoraram por três anos.

Em 08 de fevereiro de 2003, deixaram o amor falar mais alto, e resolveram formar uma família.

Seria o início de uma linda história de amor, entretanto, também seria o início de uma história cheia de intempéries causadas pela adicção dele. Logo nos primeiros seis meses ele já dava sinais da sua doença, mas ela, inocente, não entendia o que estava acontecendo.

O conto de fadas parecia estar se desmoronando. Ela pensava que era outra mulher, mas, não era, era ela, a maldita droga.

“Ele me deixava sozinha, provocava brigas para ficar na casa dos “amigos”. Aluguéis, contas de telefone e luz atrasados. Eu não conseguia pagar tudo sozinha. Ele era advogado, ganhava bem, entretanto, somente quando fui demitida do meu trabalho, usei minha rescisão para pagar as contas pendentes.”

Ela só descobriu a dependência química do marido em 2005, e foi o acaso quem preparou tudo para que isso acontecesse. O celular dele estava no bolso da camisa, e uma tecla foi apertada sem que ele percebesse, ocasionando a chamada para o ultimo número discado, no caso, o da esposa. Ao atender, ela ouvia seu esposo tratando assuntos do seu vício, e ali do outro lado, ela se desesperava, parecia não acreditar que aquele pesadelo era real. Só então ela pode entender o porquê de tanto sofrimento nos últimos dois anos.

Quando ele chegou em casa, a esposa gritou, xingou, ameaçou deixá-lo, até quis agredi-lo, mas, ao fazer isso, era ela mesma quem mais estava sendo machucada. Ela chorou muito.

Um conjunto de recaídas, manipulação e co-dependência fazia com que tudo acabasse ficando na mesma: os dois juntos, a droga entre os dois, o sofrimento, novas dividas, lágrimas, dor.

Foi no mês de setembro que veio uma linda noticia: ela estava grávida! Ela já tinha um filho e ele também, mas, esse seria o primeiro fruto do amor deles dois. Entretanto a reação dele foi péssima, chamando a esposa de irresponsável. E suas palavras feriram aquele coração tão cheio de amor materno, e tão cheio de sonhos de uma família feliz. Momentos depois ele se arrependeu pelas palavras ditas, mas, as marcas já haviam ficado.

Como qualquer uma de nós, co-dependentes, ela também já cometeu suas insanidades.

“Um dia ele apareceu sujo, com cheiro ruim e sem respostas às minhas perguntas. Ele entrou no carro, me deixou falando sozinha, e o copo que estava em minha mão foi lançado com toda a força que eu tinha. Quebrei uma das lanternas, mas, eu queria era quebrar o vidro do carro.”

Na verdade, querida, acho que você queria mesmo era quebrar a cara dele, não é mesmo? Eu já senti isso também. Entretanto, ainda que os vidros o cortassem, você seria a mais ferida, mais uma vez.

No fundo do poço, veio uma pequena luz. Naquele dia havia sumido o dinheiro reservado para o aluguel. Ela estava atônita, pensava que haviam sido roubados. E foi quando ele assumiu sua culpa e, pela primeira vez, pediu ajuda. Ele chorava e ela também. Ela estava confusa, não sabia o que falar, nem o que pensar, nem como agir. Sua atitude foi buscar ajuda na internet, onde encontrou a linha de ajuda do Narcóticos Anônimos e pode aprender um pouco sobre o assunto.

Embora ele quisesse ser ajudado, não buscava ajuda. E assim se manteve em seu jogo de manipulações e recaídas, e ela fazia parte desse jogo com suas insanas atitudes de uma co-dependente.

As mudanças de residência foram inúmeras desde o dia em que passaram a morar juntos. E agora uma vez mais, iriam se mudar, talvez na tentativa de ficar longe das “bocas” de costume. Como se isso adiantasse, não é mesmo?

Do sexto para o sétimo mês de gravidez, ainda não tínhamos nada para o bebê, afinal, não sobrava dinheiro. O que ganhávamos dava apenas para pagar as contas, ou comer, ou comprar o enxoval. Minha mãe se sensibilizou e comprou tudo: enxoval, berço, armário e acessórios. Mas, uma enorme perda ainda estava por vir, meu pai (meu maior amigo) estava com câncer, vindo a falecer em 26/05/2007. Uma perda irreparável.”

Dez dias depois, o seu bebezinho nasceu, e ela imaginou que agora seria o início de dias melhores. Enganou-se.

Em meio a tanto sofrimento, quando ela ia se deitar, em suas orações, perguntava a Deus o porquê de tudo aquilo.

Seu marido se afundava cada vez mais. Ele que antes era um advogado, agora ocupava empregos mais humildes, e o salário nunca chegava à sua casa. As dificuldades eram tantas, que chegou a faltar dinheiro para o gás e para a fralda do bebê. Era desesperador.

Tentaram se separar por um tempo, o que o levou a buscar as reuniões de N.A. Voltaram a viver juntos, e juntos partilhavam tempos de calmaria e de tempestades.

Perdas, muitas perdas. Carro. Bens. Dinheiro. Paz... Até mesmo o dinheiro para os refrigerantes do aniversário de um aninho do filhinho deles foi gasto com drogas.

Em outubro de 2008, ele foi internado. Muita dor. Ela sofria. O bebê de apenas um ano e quatro meses também, ao sentir a falta do papai, passando até a tomar calmantes receitados pelo pediatra.

“Eu sentia muita falta dele, sofria pelo conforto que ele não tinha, pela convivência diária que não existia, pelo sofrimento dos meus filhos. Meu físico e emocional estavam totalmente abalados. Emagreci onze quilos em um mês”.

Ela teria que aprender a viver sua própria vida, enquanto ele vivia a dele.

Veio o dia das reparações. Ele a pediu perdão.

“Fiquei pensando naquilo e sonhando que quando ele saísse de lá, seria novamente o homem pelo qual me apaixonei.”

Ela até arriscou escrever uns versos para aliviar o que sentia:

“Sobrevivi sem ti, quando dei por mim, tinhas ficado para trás, e me dei conta que nunca estivestes verdadeiramente comigo.
Sobrevivi apesar das noites frias e desertas, tendo apenas a solidão como companhia, e o silêncio da sua ausência.
O vazio dos dias que vieram, contaram-me histórias que escrevi na parede do meu quarto,
E sufoquei meu grito na garganta cada vez que minh’alma chamava por ti.
Tropecei várias vezes na saudade, me feri
Mas me socorri e mesmo assim sobrevivi!
Sobrevivi aos meus medos, calei os meus anseios, abri os braços ao vento
E voei para longe de ti e do teu fascínio...”


Ele permaneceu internado por três meses e meio, e uma semana antes do seu aniversário, ligou dizendo que estava voltando.

“Senti uma mistura de alegria, saudade, felicidade, carência, ternura, temor, paixão e receios. Ele parecia uma nova pessoa, agora tinha fé, fazia orações.”

Entretanto, aconteceriam novas recaídas. E a ultima se deu em novembro, após uma grande discussão. Ele a havia traído, e dessa vez não foi com as drogas. Ela ficou muito magoada, brigaram feio, e ele recaiu.

E ela, no auge da sua co-dependência, ainda se sentiu culpada pelos atos dele. E o perdoou.

Dali em diante, ele tomaria uma atitude diante da sua adicção e ingressaria seriamente no N.A.

“... meu marido começou a freqüentar o N.A., dei muita força pra ele. Alguns aprendem com a dor. Fico muito contente com suas trocas de fichas. Ficha branca, laranja, verde, vermelha, azul, e se Deus permitir faremos uma grande comemoração quando completar um ano, dois anos, vinte, cinqüenta anos.”

“Depois que meu marido começou a freqüentar o grupo dele, achei que estava mais do que na hora de me cuidar, afinal sou uma co-dependente. Agora vivo um dia de cada vez. O hoje é o mais importante. Em 24/03/2011 ingressei no Amor Exigente. Estou buscando minha recuperação... Estou concluindo um curso de cabeleireira e quero montar o meu próprio salão. Estou tranqüila e voltei a sorrir com vontade. Faço a oração da serenidade todos os dias. E ainda tenho um sonho a realizar. Sonho em me casar na igreja, de véu e grinalda. Isso mesmo. Meu moreno lindo me esperando no altar, e eu entrando na igreja com meus filhos...”

Querida companheira, receba esse post como uma homenagem.

“Eu seguro minha mão na sua, e uno o meu coração ao seu, para que juntas possamos fazer aquilo que sozinhas não conseguiríamos.”

Seja muito feliz. Nunca se esqueça da sua própria recuperação. Realize todos os seus sonhos!

Só por hoje!

Carinhosamente,
Poly 

6 comentários:

  1. A história dela me fez chorar e perceber que infelizmente, as drogas estão mais perto do que imaginamos, as vezes, a pessoa tenta levar uma vida normal e e nós nem se quer percebemos que está passando por um problema desse tipo.
    Infelizmente, a drogadicção não é algo que vai embora do mesmo jeito que vem, normalmente são anos até que se consiga a tão sonhada paz...
    Um linda história e que merece com certeza o lindo final!!!

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  2. Simplesmente não tenho palavras, pois me reconheci ao longo deste texto...
    Namoro um adicto há quase quatro anos, passei por muitos altos e baixos ao longo desse período. Atualmente ele se mantém limpo há 2 meses, e assim como quase toda mulher sonho com o dia que entrarei na igreja de véu, grinalda e flores de laranjeira, acabo fazendo muitos planos até que vivo uma nova recaída dele. Nunca passei pela experiência de vê-lo perder bens, emprego... O uso é eventual e ele só costuma gastar o que possui no momento, porém sei que esta é uma doença progressiva e sem cura. Não passei por situações tão difíceis como as relatadas neste e em outros posts entretanto reconheço muito daquilo que foi e é escrito no blog.
    Só por hoje vou aceitar as coisas que eu não posso mudar e vou buscar coragem para mudar as coisas que eu possa.

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  3. Querida Poly!!!

    Você não imagina como fiquei feliz em lêr esse post acima. Saiba que você é uma pessoa que admiro muito, alguém realmente especial, e receber esta surpresa fez o meu dia muito mais feliz.
    Tomara que a gente continue assim, sempre trocando gestos de amizade e consideração. Acho que a gente deveria viver assim, distribuindo palavras amigas e fazendo com que o amor se alastre pelo mundo.
    As palavras são impregnadas de vibrações, por isso não devemos perder nenhuma oportunidade de manifestar bons sentimentos.

    Tudo que desejo para mim, desejo para você minha amiga, ficarei muito feliz, quando você postar que seu marido ingressou em um grupo de ajudar e ficar firme na rocha, mais Deus sabe de tudo e a hora dele.

    SEJA MUITO FELIZ...
    OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADA...
    MIL BEIJOS
    E SÓ POR HOJE SEREMOS FELIZES.

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  4. Eu sua afilhada não poderia deixar de vim prestigiar esse post com alguns acontecimentos tristes, mas a alegria de ver cada um deles de cada vez serem vencidos. Não pude me conter e chorei, mas não de tristeza sim de ver os seus momentos de vitórias, lembrei de alguns fatos mas daqui pra frente é só alegria. Vou levar comigo sempre cada ensinamento seu, cada ajuda, e cada palavra de consolo, amor. Te amo Dinda e estaremos sempre juntas na busca da recuperação dos nossos amados e da nossa Obrigado por tudo.
    Só por hoje seremos muito muito felizes
    Beijos e beijos.

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  5. É verdade, Giulli, uma linda história que merece um final feliz, e estou aqui na torcida para que tudo de melhor venha para essa família que já aprendi a amar...
    Um beijo grande, amiga!

    Querida Nanda, obrigada por sua participação! Minha querida, invista nos seus sonhos, e não permita que a adicção dele os retire de você. Queria te dizer uma coisa: quando conheci meu marido e nos casamos, estávamos nos Estados Unidos, e embora eu sofresse muito com sua dependência química lá, foi somente aqui no Brasil que conheci o lado mais negro disso tudo: roubos dentro da nossa própria casa, desaparecimentos por longos períodos, dívidas com traficantes. Lá ele também usava de uma forma um pouco mais controlada. Entretanto, como você falou, essa doença é progressiva. Hoje sei que se ele não tiver dinheiro nem bens, poderá sim passar a roubar ou fazer algo muito ruim, pois nos momentos de crise a adicção o domina, e meu amado marido se torna um escravo dela. É triste isso, mas é real. No entanto, embora seja uma doença progressiva, ela pode ser controlada, existe sim recuperação, e se seu namorado realmente quiser se recuperar, vocês poderam sim formar uma família muito feliz!
    Escolha com serenidade, querida. Você merece e tem o direito de ser feliz, com ou sem ele. Ok?
    Beijos no coração!

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  6. Tininha querida, continuemos sempre assim, então, distribuindo palavras amigas e fazendo com que o amor se alastre pelo mundo! Isso nos deixará sempre mais felizes... Parabéns por sua história e por sua garra!
    Um beijo, flor!

    Fiquei emocionada com sua mensagem, Raquel! Que bom que você e sua Dinda estão juntas nessa jornada! Felicidades a toda a família é o que desejo!
    Grande abraço, querida!

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