quinta-feira, 9 de junho de 2011

Papai!

Dia tranqüilo hoje. Filhotes na escola. Fui à minha terapia. Telefonema apaixonado do maridão, que parece mais tranqüilo agora. Trabalho.
Pensei muito em meu pai hoje. Como falei anteriormente (saiba mais), um homem lindo, mistura de Elvis Presley com Rodrigo Santoro, alto, esbelto, cabelos lisos negros, pele morena, olhos pequenos, sempre vaidoso.
A última lembrança que tenho dele com vida, é de nós dois no alpendre da casa da minha avó, olhando as pessoas que passavam pela pracinha da prefeitura, que ficava bem em frente, eu lhe fazendo um cafuné nos cabelos.
Nessa época, quando eu tinha 16 anos e ele 51, já não havia mais um pai ali, mas sim alguém doente, uma pessoa sem a razão. Suas palavras não tinham nexo. Em seu quarto, me mostrou um monte de terra que ele havia acumulado atrás da porta, sua cama estava atravessada no meio do quarto, e ele guardava uma enorme sacola com frascos vazios de remédios.

Por várias vezes, fomos visitá-lo num hospital psiquiátrico (hospício).
Não sei exatamente a droga que ele usava, acho que usava todas. Até mesmo meus remédios de asma eu tinha que esconder.
Eu não tinha medo dele. Ele era muito calmo, doce.
Um dia o vi totalmente loiro, levei um grande susto. Haviam passado água oxigenada em seus cabelos, na rua, quando estava sob efeito da droga. Outra vez, escreveram palavrões por todo o corpo dele com canetinha. Até hoje meus olhos ficam marejados quando me recordo. Me revolto.
Lembro-me das feridas nos joelhos da minha avó de tanto rezar por ele. Houve uma noite que ele cortou sua perna na lança do portão de casa, quando foi pulá-lo, muito sangue. Triste demais tudo isso.
Minha irmã traz ainda mais lembranças, pois, ela morou na mesma casa que ele até os três aninhos. Depois, passamos a ir apenas nas férias escolares, quando ocorreram esses fatos.
Dói muito até hoje, 16 anos depois. Ele nunca foi em uma reunião de responsáveis. Nunca foi em uma apresentação de dia dos pais. Nunca sentiu ciúmes dos pretendentes que nos rondavam. Nunca nos protegeu.
A droga o havia levado embora antes mesmo da overdose. Falava coisas sem sentido. Meu avô se irritava, minha avó sofria, ficávamos tristes diante daquele quadro cada vez pior.
Meu avô já havia se desfeito de grande parte dos seus bens, tentando recuperá-lo. A familia queria a sua recuperação, mas, ele não, infelizmente.
Antes do meu pai falecer, eu sonhei com ele três noites seguidas. Sonhos ruins que me perturbavam. Então eu acordava e falava à minha mãe sobre o que havia sonhado. Diante da insistência dos sonhos, ela decidiu ligar para a minha avó, afim de obter notícias. Estava tudo bem. Ele estava bem, na medida do possível. Entretanto, continuava afundado nas drogas, como em grande parte da sua vida.
Naquela noite, minha avó estava na cozinha e ele ficou em silêncio atrás dela.
Que foi? Ela perguntou.
Ele apenas a abraçou rapidamente e saiu. Ela estranhou. Ele não voltaria mais.

Seu primo também dependente químico ligou para a minha avó de madrugada, dizendo que meu pai estava muito mal. Quando lá chegaram, ele estava em convulsões. Seu atestado de óbito consta que foi uma parada cardíaca, mas, a realidade é que foi uma overdose.
Não tive um pai. Ele não tinha condições de nos dar nada, pois, as drogas haviam destruído sua personalidade, seus princípios, seus sonhos, sua família, seu cérebro, sua vida.
Naquele 13 de abril de 1995 seu sofrimento chegou ao fim. Ele descansou dessa vida escravizada pelo vício. A maldita droga venceu.
É estranho como meu marido se parece com meu pai, fisicamente falando. A altura, o jeito. Entretanto, a grande diferença é que meu esposo tem escolhido por sua recuperação, e tem lutado por isso, coisa que nunca vi o meu pai fazer.
Meu marido, só por hoje, está limpo, trabalhando e se recuperando. Se ele fizer essa escolha a cada dia, seu final será bem diferente, tenho certeza!
É muito doloroso relembrar tudo isso, mas, preciso partilhar, me fará bem.
O que me deixa indignada é ainda cogitarem a possibilidade de legalizar uma maldição dessa, chamada droga! Atrás de cada dependente químico, existem mães, esposas, filhos, pais, irmãos, namoradas, amigos... Quem se responsabilizará pela dor de tanta gente, hein?!

2 comentários:

  1. Achei esta estória muito comovente. Me vi em seu pai com relação aos meus filhos se eu tivesse continuado. Quando fui para o tratamento, meu filho Lucas tinha pouco mais de um ano. Como chorei na primeira visita. Embora ainda magro, abatido, fiquei radiante de alegria quando vi meus dois filhos.
    Acredito que não foi fácil esta questão na sua relação com seu pai. Estórias assim me fortalecem, pois me fazem ver o outro lado, tanto no tocante ao meu casamento quanto aos meus filhos. Sei que minha família sofreu e se transformou muito com minha adicção e que ainda há algumas sequelas. Ler os textos deste blog me fazem ver e sentir o outro lado do sofrimento que a dependência provoca: na família, mais especialmente em minha esposa e em meus filhos que estão mais próximos.
    Um belo texto; um belo blog. Parabéns.

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  2. Caro Jorge Alberto,
    Fico muito feliz ao ver seu depoimento. Ao ver sua preocupação pelo que a adicção causou à sua família. Isso é de fato recuperação.
    Realmente a história do meu pai é triste, mas, serve de lição, de aprendizado. Eu e minha irmã, por exemplo, nunca nem experimentamos nada de droga, pelo exemplo de sofrimento que vimos de perto.
    Mas, com seus filhos pode (e será) bem diferente. Vivendo um dia de cada vez, fazendo as escolhas certas, você e sua esposa podem ser o referencial de amor e carinho que eles precisam.

    Força, amigo! E mais 24 horas de serenidade a você e sua esposa!

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