quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um Segundo Olhar - Cinco anos de Blog!


Hoje é quarta-feira, dia 18 de maio de 2016.

Hoje nosso blog está completando cinco anos!!

Uau...

Quanto tempo! Quantas postagens! Quantas experiências! Quantas histórias! Quantas decepções! Quantas alegrias!... Quanto crescimento!

E nessa postagem de aniversário quero falar sobre algo tão importante, e tão fundamental... E que tenho buscado apreender a cada dia: o respeito!

Sabem o que significa respeito?

“Respeito é um substantivo masculino oriundo do latim respectus que é um sentimento positivo e significa ação ou efeito de respeitar, apreço, consideração, deferência”.

Acho muito interessante que em sua origem do latim a palavra respeito significa “olhar outra vez”.

Como assim, Poly?

Quando olhamos alguém, ou um grupo de pessoas, em um primeiro olhar vemos o óbvio. Vemos os comportamentos. As práticas. Vemos as nossas diferenças. Vemos os erros cometidos... Vemos coisas que, dependendo das circunstâncias, nos afastarão...

Mas, se eu me permitir olhar ‘respeitosamente’ por uma segunda vez... se eu me permitir ouvir ‘com respeito’... Provavelmente eu enxergue as mesmas coisas que vi na primeira vez (que nos distanciam), mas conseguirei questionar (e procurar) o que há de humanidade do “outro lado”... O que há em comum... O que nos une...




Eu sei... Muitas vezes, nós que estamos próximos de familiares dependentes químicos, somos desrespeitados por eles... e também os desrespeitamos.

Por vezes, agimos assim por impulso ou para tentarmos nos proteger.

Entretanto, quando não damos ao outro a chance do segundo olhar, construímos muros entre nós, e não pontes.

Não estou aqui dizendo que você deve ser permissivo ou facilitador. Não!

Estou dizendo que quando olhamos qualquer ser humano com respeito, ultrapassamos as barreiras do primeiro conceito, e conseguimos extrair dele algo que nos fará bem... que nos fará crescer... e nos fará seres humanos melhores!

Queridas(os), se no mundo de hoje, tão agressivo, cheio de preconceito e julgamentos, cheio de disse-me-disse, calúnias e ofensas, conseguirmos lançar um segundo olhar, mesmo àqueles que nos machucam e magoam, tenho certeza que conseguiremos alcançar o que muitos procuram: a paz de espírito.

Nesses cinco anos passei por “poucas e boas”.

Comecei com o blog, o livro, várias palestras, conheci muitos adictos, muitos familiares de adictos, profissionais da área, e depois, com o projeto às famílias, conheci um pouco do mundo político... Imaginem só...

Muitos me olham com respeito, com carinho, com admiração. Mas alguns só conseguiram enxergar “a filha do drogado” ou a esposa “burra”... Tento lançar sobre esses últimos um segundo olhar, por mais difícil que seja às vezes.

Outros tentaram passar sobre mim com um “trator” na ganância de ocupar o cargo que ocupei, mas certamente sem invejarem as cicatrizes que carreguei (e carrego)... Ufa, vamos tentar olhar uma segunda vez para esses também...

Mas, com certeza, o que mais dói é quando alguém que amamos, não nos concede o direito a esse “segundo olhar”...

O desrespeito dói.

Inclusive, e eu diria que, sobretudo, a falta de respeito próprio.

Para realizarmos nossos sonhos, precisamos do autorrespeito. Sem isso, nos sentiremos sempre inferiores... Precisamos aprender a nos valorizarmos, a nos afastarmos da negatividade dos outros, e a entender que: “sim, somos bons o bastante!”

Quando vamos recuperando o autorrespeito, vamos percebemos o quanto merecemos ser bem tratadas(os), o quanto merecemos ser felizes, o quanto merecemos a vida!

Querida(o), diga a si mesma(o): eu mereço o melhor!

Já fracassamos tanto. Não é mesmo? Mas temos habilidades... Muitas!!

Há cinco anos, eu não reconhecia tanto isso em mim... e hoje ainda estou em um processo de reconhecimento...

Cada um tem sua habilidade, e precisa sim descobri-la.

Eu me achei aqui... Me achei no atendimento às famílias... Me achei nas palestras... Me achei tentando ajudar outras pessoas a superarem suas dores... Isso me faz muito realizada!!

Me achei trabalhando na prevenção do uso de drogas com crianças!

E tenho uma novidade para contar a vocês:

No último dia 08 de abril, recebi o Diploma de Mérito pela Valorização da Vida, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, do Ministério da Justiça, pelo ano de 2015.

Recebendo a homenagem das mãos da Presidente do CONEN/DF, Joana Mello.

Dá pra acreditar?!

Há alguns anos, eu não me respeitava... e os outros também não...

Com o tempo, estou aprendendo a recuperar isso... E vejam só!

Foram mais de 543.000 visitas ao blog!

Mais de 3.560 comentários postados por vocês!

Mais de 1.300 e-mails (não consigo responder a todos, me perdoem!)!

Mais de 2.000 famílias alcançadas no projeto!

E agora, esse Diploma de Mérito pela Valorização da Vida...

Esse título resume tudo! Desde o início, tenho tentado aprender a recuperar o valor que a minha vida tem! A incentivar os adictos a perceberem o valor de suas vidas que estão escorrendo por entre os dedos, em razão do uso de drogas! O valor que as famílias podem (e devem) dar às suas vidas, mas muitas vezes não conseguem, ou se esquecem por estarem focadas na vida alheia (do seu amado dependente químico)...

Encontrei-me aqui, nessa função... E isso, posso afirmar, me faz muito feliz!

E hoje, quero dedicar tudo isso, a cada um(a) de vocês, leitoras(es).

A você, que se sente como uma sombra do seu esposo... A você que parece ter se perdido em algum lugar, em algum momento... A você que não consegue ver vida fora da vida do seu filho adicto... A você que está sofrendo...

Dedico a você, e digo: Acredite, há muita vida lá fora! E vida vale muito a pena ser vivida, sempre!!... Vem!!

Se não estiver conseguindo sozinha(o), no lado direito do blog, temos os links de alguns grupos de apoio... 

Por fim, MUITO OBRIGADA!!!




“Trate as pessoas como se elas fossem o que devem ser e você vai ajudá-las a se tornarem o que elas são capazes de ser.” (Johann Wolfgang Von Goethe)

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PS: Domingo será meu aniversário – 38 aninhos!! :D

Beijos!
Fiquem com Deus!

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Uma palavra importante e séria às mamães!



Boa tarde a todos os leitores, e em especial a todas as mamães!!

Parabenizo a todas vocês, ou melhor, a todas nós pelo dia de ontem!!

Mamães de dependentes químicos, que têm dado suas vidas há anos e anos em prol de seus filhos... E também mamães que possuem filhos, cujos pais são dependentes químicos, o que exige delas, muitas vezes, uma dose maior de esforço e dedicação. Só posso deixar aqui meu abraço apertado e dizer: parabéns, guerreiras!!

E hoje eu gostaria de falar com vocês sobre um assunto muito importante, que é: mamães, não falem mal dos pais aos seus filhos, por favor...

Eu sei que às vezes é difícil segurar a barra! E como sei!

Mas, queridas, aprendi que isso é um erro. Falar mal do pai às crianças, seja para jogá-las contra o pai ou somente por desabafo mesmo, acaba dando um nó na cabeça dos nossos pequenos, e pode prejudicá-los, e muito, em seu desenvolvimento como ser humano.

Lembro-me que, certa vez, quando eu vivia uma fase muito negra aqui em casa, era dia dos pais e, após o trabalho, busquei meu filho do meio na escolinha. Ao ver o mural em homenagem aos pais, com fotos das crianças com seus papais, e ainda o meu filhote, todo feliz, me mostrando o trabalhinho que tinha feito ao seu pai, com a frase: MELHOR PAI DO MUNDO. Certifico com todo o meu coração que o meu pai é o meu herói, meu amigo e o melhor pai do mundo, aquilo me doeu tanto. Mas, quando postei isso aqui no blog, uma amiga querida, a Cicie, me disse: “não tire o direito do seu filho de ter um pai herói”.

E ela estava certa!!

Sei que muitas mães não sabem como falar aos filhos que o pai tem um problema com as drogas. Mas, sugiro que conversem com eles desde cedo, na linguagem deles, e usando a experiência do pai como um ponto a mais para que eles fiquem longe das substâncias psicoativas.

Por exemplo, meu filho de sete anos vê seu pai fumando cigarro (nicotina), e ele já entende o quanto o cigarro é prejudicial à saúde. Então, algumas vezes, ele pergunta: por que o papai fuma? E minha resposta é que, embora o papai queira parar, ele não está conseguindo, porque dentro do cigarro há substâncias que viciam, assim como outras drogas, incluindo as bebidas alcoólicas, e que, portanto, ele não deve experimentar o cigarro nem essas outras porcarias. Assim não denigro a imagem do pai, mas o faço perceber que o cigarro é ruim, mesmo que o seu papai herói fume.

A dependência química é uma doença. E se olharmos dessa forma, conseguiremos (por mais difícil que seja) reduzir o nível de mágoa e raiva do dependente químico, substituindo isso por compaixão (lembre-se que compaixão não é pena!).

E isso nos ajudará a tratar da situação com nossos filhos, sem falarmos mal do pai, e também sem a necessidade de mentiras que, mais cedo ou mais tarde, eles descobrirão.

Muitas(os) de vocês devem saber que, de acordo com a Lei nº 12.318/2010, falar mal do pai (ou da mãe) para os filhos é crime.

Poly, você está defendendo os dependentes químicos?

Não, estou defendendo nossas crianças que não têm culpa dessa confusão toda em que nos metemos...

Quando falamos mal do pai, que elas amam, contribuímos para que se sintam confusas, desprotegidas e infelizes, podendo causar prejuízos em várias áreas de suas vidas, e podendo gerar nelas, agressividade, depressão e ansiedade.

Não precisamos e não podemos exigir que nossos filhos amem a nós ou ao pai... Para eles, os pais são heróis e nós as heroínas. Eles são reis, e nós rainhas. Ambos perfeitos. E somente com o tempo eles entenderão que o papai e a mamãe são seres humanos falhos e cheios de defeitos.

Sei que muitas mamães fazem isso na melhor das intenções, mas, por favor, cuidado, pois o tiro pode sair pela culatra, e falando mal do papai, vocês podem acabar afastando os filhos na medida em que eles crescem.

Queridas(os), que fique claro que tudo o que falei aqui não se aplica aos casos em que acontece violência (física ou psicológica). Ok? Nesses casos é preciso denunciar o agressor!

Sei que não é fácil. Mas somos mães. E, sobretudo, temos a missão de proteger e educar os nossos filhos... Vai dar tudo certo, mamães!

Se a dor estiver grande demais, e você precisa de alguém para conversar (ou até mesmo para falar mal dele), ligue para uma amiga, procure um grupo de apoio ou um profissional da psicologia, ou até mesmo, deixe seu comentário aqui no blog (muitos recebem feedbacks dos leitores), mas poupemos nossos filhos!




Um grande beijo no coração de vocês! 
Fiquem com Deus!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Será que vai dar certo?



Bom dia!!

Tudo bem com vocês?

Tenho recebido muitas mensagens perguntando se meu ‘familiar’ adicto está bem e como está nosso relacionamento.

Alguns seguidores do Blog leram a postagem O fim do fim, de 14/09/2015, mas não se atentaram para os comentários. Então hoje vou falar para vocês, por alto, sobre os acontecimentos e como andam as coisas por aqui.

Como sabem, em 14 de junho passado, meu marido e eu havíamos nos separado. Por causa de uma recaída? Não. Por causa de uma série de fatores...

Em dezembro de 2014, quando com tanto sacrifício o acompanhei em seu tratamento com ibogaína, eu disse para mim mesma (e para ele) que seria a última tentativa. Não que ele tivesse a obrigação de nunca mais recair, pois já aprendi que as tais recaídas fazem parte da doença, no entanto, eu havia decidido não conviver mais com isso.

Nosso relacionamento estava caótico, mesmo sem recaídas às drogas. Ele estava limpo, mas recaído em seu comportamento. Estávamos distantes.

Após seis meses limpo, veio a recaída de fato, e após, a separação.

Eu havia decidido colocar um ponto final nessa história de tantas dores na minha vida. Havia decidido me afastar, esquecer.

Foram pouco mais de três meses completamente longe um do outro. E foi muito difícil.

Meus filhos sofreram muito pela ausência do pai. Eu sofri muito pela separação e por ter que me manter firme diante dos meus filhos. Sinceramente, não gosto nem de me lembrar.

Nesse período, ele iniciou um relacionamento com outra pessoa. E eu, embora não tenha me relacionado com ninguém, pela primeira vez, após tantos anos, senti uma admiração por outro alguém... Ou seja, achei que era o fim do fim mesmo.

Mas...“E quem, um dia, irá dizer que existe razão para as coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?” Né?!

Acho que nossa missão de um para com o outro ainda não havia acabado.

Em um belo dia, marcamos de conversar sobre nossos filhos e outros assuntos, e quando dei por mim, estávamos juntos de novo... Decidimos tentar outra vez... Lutar por nossa família.

Assim como muitos me criticaram quando decidi me separar, muitos também criticaram minha decisão de voltar. E eu, sinceramente, não estou preocupada com o que pensam não. Fiz o que achei certo fazer.

Estamos juntos novamente desde o dia 18 de setembro (2015). E ele se mantém limpo há sete meses.

Está tudo muito diferente desde a nossa volta.

Infelizmente, como outras pessoas entraram em nossas vidas de alguma forma, vira e mexe, vem à tona mágoas guardadas e inseguranças. Mas temos superado tudo isso juntos.

Eu mudei muito com tudo o que aconteceu. Vi que não sou insubstituível, nem única no mundo... E que ele não morreria sem mim. E tudo isso foi muito bom para eu me livrar de vez dos meus comportamentos codependentes.

Estou relendo o livro Amando um Dependente Químico, e por vezes me vejo exclamando: “Nossa, como eu mudei!”

Eu não mudei em relação ao meu esposo. Eu mudei em relação a mim mesma.

Alguns me perguntam: “você acha que seu casamento vai dar certo?”

Nem sei o que dizer. Estamos a caminho do décimo ano de casamento, temos filhos maravilhosos, e uma história incrível juntos. Ou seja, já deu certo!

O importante é que hoje, tanto ele como eu, temos nos empenhado para que nossa família esteja unida e bem. E enquanto houver essa luta de ambos, certamente essa história dará continuidade...

Como hoje é 14 de fevereiro, ou seja, é “Valentine’s Day”, vou deixar um trecho do livro Amando um Dependente Químico, que fala o que penso e sinto sobre o amor...

Escrito em 14/02/2007, em Woodbridge, no estado da Virginia, nos Estados Unidos da América:

Hoje é Valentine's Day, o dia do amor. Balões em forma de coração, chocolates, sorrisos seguidos de “Happy Valentine's Day"! A paisagem é bem favorável aos enamorados: árvores secas cobertas pela neve que caiu a noite, céu nublado, friozinho gostoso. E estou aqui para falar um pouquinho sobre esse tal de amor, afinal, o que ele é? Esse sentimento que nos faz rir e chorar, que acalma e atormenta, que refrigera e queima. Por que será que necessitamos tanto dele? Alguns podem até disfarçar e dizer que não acreditam nessa “bobagem”, ou que preferem ficar sozinhos para não se machucar. Mas, no fundo, todos sempre estamos ansiosos por sermos amados e amar, independente de classe social, idade, religião. Simplesmente porque o amor é necessário e vital a todos nós. Não falo de um amor fantasioso, aquele perfeito da novela, mas, de um amor real, palpável, para ser vivido dia a dia. Aquele sentimento que te faz abrir mão de bilhões de pessoas para prestar atenção de pertinho em uma só, a fim de não deixá-la passar desapercebida por essa vida, pois, você estará sempre na primeira fila da plateia, torcendo, acompanhando, vibrando com suas vitórias e sendo apoio nas derrotas. Falo daquele amor que te faz poder acordar com cabelos desgrenhados e sem maquiagem e, ainda assim, saber que, para ele, és a mais linda. És única. Falo do prazer que só quem ama sabe sentir, ao fazer uma faxina em casa juntos. É preparar um jantar com carinho, é fazer contas mensais, é rir das bobagens, é brigar por besteira, é saber pedir desculpas, é dar o abraço esperado, é receber o beijo inesperado. É sentir-se acompanhada sempre, mesmo que ele esteja no trabalho e você em casa. É quase morrer de saudade, mesmo que por poucos instantes de ausência. É sentir uma alegria inexplicável diante do sorriso dele, ou uma dor aguda no peito quando ela sofre. É ver filme e comer pipoca encostados um no outro. É dançar na sala, juntinhos, ao som “daquela” musica. Não importa se ele prefere músicas norte-americanas e você, as latinas; nem se ele quer dormir quando você quer dançar; nem se ele quer ver TV quando você quer tagarelar, o importante é que o amor está lá, e você sabe-se amada, e ele também. Enfim, não vou tentar decifrar o amor, afinal, ele não existe para ser explicado ou compreendido, mas apenas para que seja sentido, vivido e explorado, ao máximo. Desejo um “Happy Valentine's Day” a todos, e que você se permita ser contagiado por essa maravilha que é o amor!”




Quer saber? Apesar de tudo, o amor continua o mesmo do narrado no texto acima...

E vale a pena dizer que nesse início de 2016, estou passando por uma ‘barra’ enorme, e quem está do meu lado, me apoiando e me ajudando a prosseguir, todos os dias? Ele mesmo, o maridão.

É triste a forma como a sociedade ainda encara a dependência química de forma tão preconceituosa. Mas acredito que, com o tempo, isso mude cada vez mais. Ao menos estou fazendo a minha parte para isso...

Para terminar, quero dizer que dependência química é doença, e que a postura do adicto diante de sua doença é muito importante. Ele não é um coitadinho ou um incapaz. Não! Ele não optou por ser dependente químico, mas ele (e só ele) pode escolher lutar contra isso.

Entretanto, mulheres, agressão física ou psicológica, ou outros tipos de abusos não são doença, são crime. Ok? Abram o olho!

O objetivo de tudo o que escrevo nesse blog é você, querid@! Você que se deixou afetar pelos problemas de outra pessoa e acabou esquecendo de cuidar de si mesm@.

“Somos responsáveis por nossas escolhas e comportamentos. Somos responsáveis por iniciar, continuar ou terminar relações. É possível amar sem deixar-se anular emocionalmente pelo objeto do nosso afeto. É possível amar alguém sem deixar de amar a nós mesmos. Muita gente aprendeu a fazer isso. Você também pode aprender.” (Melody Beattie)

Feliz domingo pra você!
Bjim!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Amei e sofri... Mas valeu a pena!

Por falar em dizer ‘não’ (clique aqui e leia o post anterior), no início deste ano precisei dizer um dos nãos mais difíceis que já disse na vida...

Quem acompanha o Blog, sabe que nos últimos anos atuei como coordenadora do projeto “Ame, mas não sofra”, da Secretaria de Justiça do DF, cujo objetivo é levar apoio, informação e orientação às famílias de dependentes químicos, e também às famílias que querem atuar como fator de proteção antes das drogas entrarem em suas casas.

Foi uma jornada e tanto!

Tudo começou quando o Blog e livro Amando um Dependente Químico já haviam alcançado muitos leitores, mas eu ainda me escondia por trás do pseudônimo Polyanna. Quase ninguém sabia desse meu “trabalho”. Eu não queria me expor nem expor minha família por medo do preconceito e até mesmo por ser como sou, uma pessoa muito reservada.

Mas, um dia, dei um livro de presente ao Secretário de Justiça da época. Ele era filho de alcoolista, e eu percebia a sua paixão por essa causa (a luta contra as drogas). Então, embora ele fosse um político (o que me fazia ter os pés atrás), a forma como ele falava desse assunto, despertou em mim a vontade de que ele lesse o livro e conhecesse os dramas e possibilidades de superação das famílias que convivem com isso.

Enviei o livro para o seu escritório, como presente de aniversário, e na dedicatória agradeci por seu empenho na luta contra as drogas. Assinei como Polyanna.

Para a minha surpresa, dois dias depois, ele me enviou uma mensagem privada, para o perfil da “Polyanna”, dizendo que não conseguia parar de ler o livro, e agradecendo pelo presente.

Naquele momento, percebi que estava pronta para quebrar o meu anonimato, em prol de uma causa maior.

Então respondi a mensagem dizendo que eu, Polyanna, era uma servidora da Secretaria de Justiça que trabalhava na área administrativa, e me identifiquei. No mesmo momento sua secretária me ligou e me chamou à sua sala. Com emoção estampada nos olhos e na fala, ele (o Secretário) falava sobre o livro Amando um Dependente Químico, e sobre como ele ainda não havia se dado conta do que é a codependência e dos males que ela gera.

“Vamos fazer algo por essas famílias? Você pode elaborar um projeto?”

E assim nasceu o “Ame, mas não sofra”. Na verdade, ainda demorou para ele ser implantado, pois o Subsecretário de Políticas sobre Drogas da época, enquanto eu apresentava o projeto, sequer me olhava. Ficava lendo outros processos sobre a mesa, e dizendo “unhum”, enquanto eu falava empolgada. Ao fim, ele disse: “Já fazemos esse trabalho”, e mandou arquivar o projeto sem implantá-lo.

Caramba, fiquei arrasada, e com mais raiva ainda desse meio político. Gastei meu tempo, fiz enquete no blog para receber sugestões das famílias, passei noites em claro para entregar o projeto rapidamente, pois sabia da carência dessa área, e também sabia que não havia NADA de política pública voltada exclusivamente para essas famílias.

Dias depois, estava em minhas atividades normais e fui chamada para uma reunião no gabinete do então Secretário. Era sobre o tema “drogas”. Não entendi por que me chamaram. Eu era da Gestão de Pessoas, mas o Secretário queria mesmo me ver nessa área, ele havia se sensibilizado muito com o livro. Nessa reunião, uma das pautas era o número de adesivos (de prevenção ao uso de drogas) colados em veículos. Juro que tive vontade de sair correndo! Puts, em que isso muda a nossa vida?!?

Definitivamente eu não queria fazer dessa causa um trabalho político.

Ok. Voltei à minha vida normal. Escrevendo no blog. Palestrando às famílias em Comunidades Terapêuticas. E trabalhando na área administrativa da Secretaria. O tempo passou.

Alguns meses depois foi publicado o remanejamento daquele Subsecretário de Políticas sobre Drogas para outra área da Secretaria. E quem seria o novo Subsecretário? Um Psiquiatra que eu conhecia, alguém que sabia da relevância de cuidar dessas famílias. Fiquei tão feliz! Quando ele estava tomando posse, o encontrei pelos corredores, e ele me disse: “Vamos cuidar das famílias?! Quero ver o seu projeto ainda nesta semana!”

Foi um aprendizado para a minha vida: Eu vi que Deus tem o tempo certo Dele! Eu nem esperava mais ver esse sonho realizado, era um projeto arquivado, “enterrado”! Mas, naquele momento, diante daquelas palavras, meu sonho de ver um trabalho governamental voltado para essas famílias reviveu! No mesmo dia, pedi o desarquivamento do projeto... Era outubro de 2013. Em quarenta dias, com a ajuda do novo Subsecretário (e Psiquiatra especialista em dependência química), ajustamos o projeto e o lançamos.

Quem quiser entender melhor, veja os vídeos abaixo, onde explico sobre as ações do “Ame, mas não sofra”.


A gravação foi feita de celular, mas dá pra entender direitinho as ações do projeto.


Entrevista ao Brasil Urgente.

Nesse dia do lançamento, me recordo que chorei de casa até chegar no trabalho. Eu estava tão feliz! Saber que tudo o que eu havia vivido (de ruim), agora estava gerando um fruto tão lindo, que ajudaria a tantas famílias. Eu só sabia chorar e agradecer a Deus.

Quando cheguei no trabalho, antes da cerimônia, pedi que uma colega me maquiasse, mas era impossível, eu não parava de chorar... Me lembrava da minha avó, do meu avô, da minha mãe, pessoas que tiveram suas vidas marcadas pela codependência, pela dor, sem informação, sem amparo, sem orientação. E agora, eu poderia ajudar outras famílias a terem um desfecho diferente da minha!

Pensava em mim. No quanto eu havia conhecido o fundo do poço, e que com muito esforço, buscando ajuda nos grupos, nas terapias, nos livros, e até mesmo em vários cursos, agora me sentia viva e queria contagiar a outros com essa vontade de vida, mesmo com as dificuldades de ter familiares dependentes químicos.

E agora não seria somente por uma tela de computador. Seria ao vivo. Podendo sorrir, olhar nos olhos, abraçar essas famílias, e com o apoio do governo!

E assim foi!

O que eu ganharia em troca materialmente falando? Nada!

Mas a recompensa era muito maior: os sorrisos das famílias, os seus “obrigados”, os aprendizados...

Eu continuava trabalhando no mesmo local (Gestão de Pessoas), no mesmo cargo, com o mesmo salário, e agora com a responsabilidade de coordenar esse projeto de outra Subsecretaria. E assim foi por sete meses (outubro/2013 a abril/2014).

Em maio/2014 os servidores efetivos entraram em greve, e minha equipe da Gestão de Pessoas ficou bem desfalcada. Então precisei, pela segunda vez (a primeira foi antes dele nascer, lembra?), dizer “adeus” ao “Ame, mas não sofra”. O projeto já tinha seis meses de vida, centenas de famílias atendidas, e eu estava simplesmente exausta. Como havia pessoas na Subsecretaria para trabalhar exclusivamente com isso, passei o bastão.

Eu ficava de longe, querendo saber de tudo. Parecia aquela mãe que o filho cresceu, mas ela quer continuar cuidando, sabe? Mas, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, precisaria me desligar.

Para a minha surpresa, após alguns problemas que começaram a surgir no desempenho do projeto, fui nomeada como Coordenadora, oficialmente.

Como assim?! Era um Cargo de Natureza Especial. Um cargo que só quem ocupa são os indicados políticos. Mas, eu havia sido nomeada.

Além de fazer, exclusivamente, o que eu amava, agora ainda teria o meu salário dobrado para isso... Difícil acreditar!! Eu era toda gratidão a Deus!

Mas eu não sabia ao certo onde estava entrando...

Foram anos incríveis, de muito aprendizado! Entretanto, precisei lidar com algo muito complicado: a inveja.

Alguns, uma minoria (graças a Deus) não aceitava uma pessoa como eu (servidora pública efetiva, sem vínculo político, e ainda parente de dependente químico) ocupar um cargo como aquele.

Entretanto, a maioria se deixou contagiar pelo amor à causa, e pela vontade de levar informação, carinho e cuidado a essas famílias!

Havia uma Psicóloga para orientação a essas famílias, na Unidade de Apoio, e realizávamos cursos, bimestralmente, onde Psiquiatras, Psicólogos, Promotores de Justiça, Terapeutas, dentre outros, ministravam palestras e interagiam com as famílias e profissionais presentes, além dos grupos de apoio (NAR-ANON, AL-ANON, Amor Exigente, Pastoral da Sobriedade e NA) que levavam informações ao público. Eram 20 horas mágicas! Sensação incrível de ver aquelas famílias terem novamente esperança!

No final de 2014, o “Ame, mas não sofra” passou por um teste de fogo! As eleições. Como no Distrito Federal houve troca do Governador e do Deputado que cuidava da Secretaria, pensei que seria o fim do projeto.

Mas não foi!

A nova gestão abraçou o projeto e quis dar continuidade! E para a minha surpresa, eu continuei no cargo.

Desafios? Todos!

Zero de verba para as ações, então muitas vezes tirei do bolso.

Não tínhamos mais Psicóloga, nem sala exclusiva para o atendimento às famílias, e nossa equipe era composta por apenas três pessoas (contando comigo).

Não tínhamos mais aquele apoio e incentivo, então era tudo na raça mesmo.

Foi um ano de muito, muito trabalho e esforço.

Muitas vezes eu não tinha hora para chegar, passava finais de semana cuidando de assuntos do trabalho, perdia o sono com preocupações relativas ao projeto, enfim, agora era uma codependente de milhares de famílias, e não apenas da minha. Rsrs.

Como podem observar, em 2015, postei pouco no blog, não conseguia mais responder aos e-mails, e precisei parar o livro O Diário de Francine Deschamps (clique aqui, e conheça a história), que estou escrevendo juntamente com a irmã da Francine, a Isabela.

Na verdade, nem almoçava mais direito, não tomava água... Não fazia nem xixi!!!

Minha família também foi “sacrificada”, pois meu tempo era curto, e quando tinha tempo, estava exausta.

Entretanto, quando me deparava com as famílias, com os benefícios que esse projeto lhes gerava, perdia a vontade de parar, e minhas forças se renovavam.

Bom, eu sempre soube que foi Deus quem me colocou naquele cargo, e que somente Ele me tiraria de lá, e na hora Dele.

Algumas vezes, durante os dois anos, me chamavam “no canto”, dizendo que eu precisava participar de reuniões políticas, ou participar de festas também políticas (com ingressos vendidos a preços salgados), ou então eu poderia ser exonerada do cargo em comissão.

Nunca cedi a isso. Claro que eu precisava do salário, claro que eu amava o que fazia, mas jamais agiria contra meus princípios somente para me manter em um cargo.

E nesse mês de janeiro, na reestruturação da Secretaria, algo aconteceu.

A coordenação que cuidava das famílias, embora tenha realizado sozinha, pelo menos 80% de todas as ações de sua subsecretaria, foi reduzida a uma gerência. E outras coordenações que nada realizaram, se mantiveram.

Por quê? Realmente não sei.

Fui nomeada, então, para essa nova gerência, mas percebi que era a minha hora de dizer ‘não’.

Pensei muito antes. Seria orgulho ferido meu? Não, não era. Era apenas a hora de colocar em prática tudo o que aprendi nesses anos todos. Ou seja, não permitir abusos. Não me autoanular. Não pensar somente no resultado positivo para os outros, esquecendo do preço que eu pagava por isso.

E assim, eu disse ‘não’ ao novo cargo.

Não foi fácil. Não está sendo fácil. Pedi exoneração no dia 06 de janeiro. Chorei muito. Passei dez dias sem sair de casa. Não conseguia acreditar que o sonho havia chegado ao fim para mim...

Em dezembro, tivemos o ultimo seminário do “Ame, mas não sofra” e foi tão lindo! Não tínhamos recurso nenhum, foi tudo na base da parceria e do desembolso. E de todos os seis cursos, e dois seminários, esse foi o mais lindo. Não sei explicar. Talvez fosse a minha despedida, mesmo sem saber.

Tantos profissionais ali, voluntariamente, atendendo aquelas famílias. Os grupos de apoio com seus stands, também levando informação. Tantos depoimentos lindos, inclusive da D. Carminha Manfredini, mãe do Renato Russo (Legião Urbana).

Ali foram formados 155 novos multiplicadores sociais, e nesses dois anos, mais de 2.000 famílias foram alcançadas pelo “Ame”.


Membros dos grupos de apoio levando a mensagem!


Carminha Manfredini, mãe do Renato Russo, mais uma de nós... Guerreira! 


Colaboradores do "Ame".


Falando sobre a codependência e sua superação.


Mesmo que eu tente, não conseguiria relatar o quanto cresci com essas experiências.

Conheci muitos oportunistas, mas também conheci muita gente engajada de verdade nessa causa!

Mas, chegou a hora de seguir, virar a página... Vida que segue, né?!




Fernando Pessoa disse que: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos...”
Às vezes é preciso dizer até logo, ou mesmo um adeus (ainda que isso nos cause dor), pois a vida é feita de ciclos. E 2016 já começou me trazendo grandes mudanças, um novo ciclo, eu diria. 
Foram mais de dois anos dedicados ao “Ame, mas não sofra”, um programa de apoio às famílias de dependentes químicos... E foi muito mais que um trabalho... 
Essa causa é uma paixão, e faz parte de quem sou e do que realmente acredito! 
Acredito que essas famílias precisam de cuidado, de atenção, de acolhimento, de orientação e que elas podem sim levar uma vida mais leve, com mais qualidade, mesmo em meio à dor que o uso abusivo de drogas de alguém amado traz aos seus lares.
Agradeço, de coração, a todos os que acreditaram e abraçaram essa causa, seja fazendo parte da equipe, ou atuando como parceiro, voluntário ou incentivador. A todos!
E agradeço, sobretudo, a Deus, por ter me dado a oportunidade de ser um instrumento que colaborou para que mais de 2.000 famílias recebessem a informação e o carinho devidos... Agradeço por cada abraço que recebi, cada olhar marejado que vi, cada sorriso que vi despertar, cada história que conheci, e cada “muito obrigado” que ouvi... Cresci como profissional, e cresci muito mais como ser humano!!
E claro que não paro por aqui! A missão continua fora da área governamental... 
Afinal, hoje estou saindo do “Ame”, mas o “Ame” nunca sairá de mim...
(postagem no facebook, em 05/01)

E depois de muito chororô e depressão, estou de pé novamente. De volta ao blog! De volta ao livro! De volta às origens!

Espero que nossos governantes um dia enxerguem, com os olhos do coração, a importância de cuidar de verdade dessas famílias...

Se não cuidar das famílias, não há política de prevenção eficaz, nem de tratamento ou reinserção, mas somente dinheiro público mal investido. #ficaadica

Tive a felicidade de ter o meu nome indicado e aprovado, de forma unânime, pelo Conselho de Políticas sobre Drogas, para receber o Diploma de Mérito pela Valorização da Vida, de 2015, no Distrito Federal, promovido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas do Ministério da Justiça. A cerimônia acontecerá nesse ano.

Diante de tudo isso que relatei, apesar do vazio que ficou, saio de cabeça erguida, consciência tranquila e coração em paz... Sentindo-me uma “Wendell Lira”, que mesmo em um cenário desfavorecido, conseguiu fazer um golaço!

#missãocumprida